Empresa de energético do interior de SC desafia gigantes e fatura R$ 1,8 bilhão
O mercado brasileiro de bebidas energéticas movimenta bilhões de reais ao ano e, por décadas, foi dominado por duas marcas globais: Red Bull e Monster.
Quem chegou para mudar esse equilíbrio não veio de São Paulo nem do exterior.
A Baly Brasil, fundada em Tubarão, cidade de 115 mil habitantes no sul de Santa Catarina, fechou 2025 como líder de vendas no país, com 34,9% de participação de mercado — contra 30,3% da Monster, segundo a ScannShare, da Scanntech.
E, pela primeira vez, a empresa revela o número que está por trás dessa virada: 1,8 bilhão de reais em faturamento no ano passado.
Com isso, a Baly se transforma em um caso raro no setor de bebidas nacional: uma empresa familiar, do interior, que em menos de duas décadas construiu uma operação capaz de superar multinacionais com musculatura global.
A projeção para 2026 é fechar o ano com 2,5 bilhões de reais.
"A Baly conquistou relevância no mercado brasileiro e internacional, e isso carrega uma responsabilidade enorme", afirma Jânio Nandi Cardoso, um dos diretores da empresa. "Crescer nesse ritmo significa gerar empregos, movimentar economias locais e mostrar que uma empresa nacional pode competir e liderar frente às multinacionais."
O caminho até aqui exige uma expansão de produção na mesma proporção.
A empresa produziu 205 milhões de litros em 2024, saltou para mais de 550 milhões em 2025 e projeta alcançar 1 bilhão de litros a partir de 2026 — o que levou à compra de um novo parque industrial de 500.000 metros quadrados em Araranguá, também no interior de Santa Catarina.
Como a Baly chegou à liderança
A estratégia que colocou a Baly no topo combina três pilares: sabores variados, produção nacional com distribuição eficiente e escuta ativa dos pontos de venda.
Entre 2022 e 2025, a empresa cresceu 42%, o dobro do mercado de energéticos no Brasil, que avançou 21% no mesmo período, segundo a NielsenIQ.
Em 2025, a Baly liderou o mercado em volume de vendas em quatro meses: março, abril, julho e dezembro.
"A produção nacional nos dá agilidade e preço competitivo. Isso democratizou o consumo de energético e permitiu que a gente atendesse uma demanda que as grandes marcas não olhavam", diz Dayane Titon Cardoso, diretora comercial e de marketing da empresa.
Um exemplo dessa lógica foi a percepção da ausência de um energético sabor Maçã Verde, muito usado por bartenders em drinques.
A Baly identificou a lacuna nos pontos de venda e lançou o produto, que rapidamente se tornou um dos mais vendidos. "Estamos gastando bastante sola de sapato para saber o máximo de necessidade que o cliente tem, e o ponto de venda dá muitas informações, da necessidade às ausências", diz Dayane.
Dayane Titon Cardoso, diretora de Marketing e Comercial da Baly Brasil (Leandro Fonseca /Exame)
Qual é a história do maior energético brasileiro
Se hoje o energético é o carro-chefe, a trajetória da Baly começou com outra proposta. Quando Mário e Jânio Cardoso fundaram a empresa, em 1997, o foco era a comercialização de cachaças e vinhos, atividade que seguiu por mais de uma década.
A guinada veio em 2009, durante o Carnaval, quando a Baly lançou energéticos em embalagens PET, uma inovação em um mercado ainda concentrado em latinhas.
"A chegada das garrafas PET às prateleiras democratizou a bebida entre novos consumidores, especialmente nos grupos de amigos e famílias", afirma Dayane.
A estratégia funcionou. O energético assumiu a liderança no portfólio da empresa e as bebidas alcoólicas foram gradualmente deixadas de lado — até 2017, quando a Baly voltou ao segmento com uma linha de cervejas.
No mesmo ano, Dayane e Mário Júnior Cardoso assumiram a gestão com foco na leitura do mercado e no atendimento às novas demandas dos consumidores.
"Durante a pandemia, isso ficou muito claro. Fomos lançando vários sabores diferentes, e todos com aderência do público", diz Dayane.
A nova fábrica e os 1.000 empregos prometidos
Para sustentar o salto de produção, a Baly adquiriu um complexo industrial de 500.000 metros quadrados em Araranguá, com 100.000 metros quadrados de área construída — a quarta planta da companhia.
A unidade foi comprada da Alliance One Brasil e deve entrar em operação no segundo semestre de 2026.
Com ela, a empresa projeta criar cerca de 1.000 novos postos de trabalho diretos. Hoje, a Baly gera 1.500 empregos diretos e mais de 5.000 considerando os indiretos.
Foi a segunda aquisição em menos de um ano. A empresa havia adquirido, em setembro de 2025, as instalações da Itagres Revestimentos Cerâmicos, também em Santa Catarina, para reforçar a operação logística.
Quais são os desafios de manter o topo
Liderar o mercado em volume não garante liderança permanente. O setor de energéticos tende à concentração, e as multinacionais que a Baly superou operam com estruturas globais de marketing, distribuição e capital.
Para seguir competindo, a empresa precisa escalar produção sem perder eficiência — e sem se afastar da lógica que a fez crescer: atenção ao ponto de venda, inovação constante no portfólio e preço competitivo.
"A liderança é só o começo de uma nova fase. Crescer exige decisões rápidas, planejamento de longo prazo e coragem de seguir fazendo diferente", diz Dayane.
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