Empresa de SC cria fábricas no mundo virtual e mira R$ 85 milhões de receita
Antes de sair do papel, uma usina pode ser testada, ajustada e otimizada em um ambiente virtual. Essa é a aposta da Aplus, empresa de engenharia industrial de Blumenau, em Santa Catarina, que está desenvolvendo uma nova frente de negócios baseada em "gêmeos digitais" — réplicas virtuais de plantas industriais capazes de simular operações antes que elas existam no mundo real.
A tecnologia permite testar processos, prever falhas, treinar operadores e encontrar ganhos de eficiência usando dados da própria indústria. A empresa começou o desenvolvimento há pouco mais de seis meses e pretende transformar a solução em um novo braço de receita nos próximos anos.
Fundada em 2014, a Aplus faturou R$ 46 milhões em 2025 e projeta chegar a R$ 85 milhões em 2026. Com cerca de 190 engenheiros, a companhia atende clientes em todo o país nos setores de biocombustíveis, terminais portuários, MDF, papel e celulose, entre outros.
A estratégia agora é transformar esse conhecimento técnico acumulado em uma operação mais próxima de tecnologia, com receita recorrente. A expectativa dos fundadores é que o gêmeo digital represente 30% do faturamento da companhia em cinco ou seis anos.
Do projeto de engenharia ao “irmão digital” da indústria
A ideia surgiu a partir de uma limitação do próprio modelo de negócio. Durante anos, a Aplus entregava o projeto da indústria e encerrava sua participação quando a planta começava a operar.
“O nosso projeto tinha um ciclo de vida até a montagem do site. Entregava o projeto, o cliente montava a indústria, começava a operar e o nosso projeto acabava ali”, afirma Alessandro Salvador, cofundador e diretor comercial da Aplus.
A solução criada pela empresa tenta mudar esse ciclo. A partir dos dados gerados durante o desenvolvimento de uma planta — como especificações de equipamentos, fluxos de processos e características dos componentes — a companhia constrói uma versão digital da operação.
“Como nós fazemos todas as disciplinas dentro de casa, temos uma grande parte dos dados que fazem essa planta funcionar. Isso facilita muito a criação do gêmeo digital”, explica André Oliveira, cofundador e diretor técnico da Aplus.
Na prática, o sistema funciona como um espelho digital da indústria. Sensores instalados na planta física alimentam o modelo virtual, que passa a acompanhar o funcionamento da operação e sugerir melhorias com apoio de inteligência artificial e aprendizado de máquina.
Pequenos ganhos, grandes economias
O objetivo da tecnologia é transformar dados industriais em decisões mais eficientes. Salvador cita como exemplo uma unidade de esmagamento de soja. Em uma operação tradicional, uma indústria pode gastar mais energia do que o necessário ao descascar o grão completamente e depois ajustar o produto final para atingir o percentual de proteína exigido pelo mercado.
Com a simulação digital, seria possível calcular previamente o ponto ideal do processo, reduzindo desperdícios.
“Mesmo ganhos pequenos, de 0,5% ou 1%, representam valores muito significativos porque estamos falando de empresas que faturam bilhões”, afirma Salvador.
Além da otimização operacional, a ferramenta também pode ser usada para treinamento. Operadores conseguem praticar situações de emergência em um ambiente virtual, sem colocar uma planta real em risco.
Outro uso é a manutenção preditiva. Ao acompanhar dados como vibração, temperatura e desempenho de equipamentos, o sistema pode indicar sinais de desgaste antes que uma falha aconteça.
“Você consegue saber se uma bomba pode quebrar amanhã, daqui a um mês ou se está tudo certo. A ideia é fazer a planta operar o máximo de dias possíveis no ano”, diz Oliveira.
A empresa que nasceu de uma viagem que nunca aconteceu
A trajetória da Aplus começou de forma inesperada. Depois de mais de uma década trabalhando em projetos industriais, em 2013, Salvador decidiu tirar um ano sabático e viajar pelo mundo. Antes de sair, enviou mensagens de despedida para alguns clientes — e acabou recebendo um convite que mudou seus planos.
Um deles precisava de ajuda em um projeto de modernização de uma unidade esmagadora de soja da Bunge, em Goiás. Mesmo sem ter uma empresa estruturada naquele momento, Salvador aceitou o desafio e chamou Oliveira, antigo colega de trabalho.
Os dois começaram com uma sala alugada, poucos funcionários e um contrato como ponto de partida.
O crescimento veio acompanhando a expansão dos biocombustíveis no Brasil. A companhia entrou cedo no mercado de etanol de milho, que ganhou escala nos últimos anos, e passou a participar de grandes projetos do setor.
Hoje, além do etanol de milho, a empresa também atua em biodiesel, extração de óleo de soja e outros segmentos industriais. Entre seus clientes estão nomes como Inpasa, 3tentos, Be8, Vibra, Ultracargo e Ipiranga.
Engenharia com tecnologia no centro da estratégia
A evolução para uma empresa mais tecnológica começou antes do gêmeo digital. Para ganhar escala, a Aplus passou a investir em automação, softwares próprios e uma equipe interna de desenvolvimento.
A companhia criou ferramentas para reduzir etapas repetitivas de engenharia e também passou a usar tecnologias como laser scanner e drones para acelerar medições e aumentar a precisão dos projetos.
“Sempre tivemos a intenção de ser uma empresa de projetos de engenharia e tecnologia. Esse é mais um passo nessa direção”, afirma Oliveira.
Para acelerar o desenvolvimento do gêmeo digital, a empresa também busca recursos de inovação junto à Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), empresa pública brasileira vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). O plano é lançar comercialmente a solução nos próximos dois anos.
A aposta é transformar a relação com clientes: deixar de atuar apenas na fase de construção da indústria e passar a acompanhar a operação durante toda a vida útil da planta.
“Com o gêmeo digital, a gente deixa de olhar apenas para o projeto e passa a atuar como parceiro da indústria, ajudando a buscar ganhos continuamente”, afirma Salvador.
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