Empresa substitui plástico na logística e projeta até R$ 6 milhões com alta da matéria-prima
A alta do plástico colocou pressão sobre uma engrenagem básica da logística: o filme stretch, usado para estabilizar cargas e descartado a cada uso. Com a matéria-prima mais cara e volátil, empresas passaram a rever um insumo até então tratado como trivial — abrindo espaço para alternativas que reduzam custo e dependência.
A Agilfix, criada em 2016, aposta em uma alternativa ao material: uma cinta reutilizável para amarração de cargas. A proposta é substituir o filme descartável por um sistema que pode ser usado repetidas vezes na operação logística.
O crescimento vem dos impactos da guerra no Irã e a crise no Estreito de Ormuz no custo do plástico. O preço da matéria-prima subiu 60%, segundo estimativa da Associação Brasileira da Indústria do Plástico (Abiplast).
“Com esse cenário, nossa projeção de faturamento passou de R$ 4,4 milhões para até R$ 6 milhões em 2026, caso a alta do plástico se mantenha”, afirma Leandro da Silva Hiebl, CEO da AgilFix.
Como nasceu a Agilfix
A Agilfix nasceu, em 2016, a partir da experiência do fundador na indústria e de uma insatisfação comum a muitos profissionais técnicos: gerar valor para grandes empresas sem participar diretamente dos resultados.
Foi quando decidiu criar uma solução própria. A ideia surgiu após conhecer um modelo de amarração de cargas utilizado no exterior, mas que nunca tinha visto nas fábricas que já trabalhou.
Diferentemente do modelo tradicional, que é descartado após o uso, a cinta aposta no reuso como principal diferencial. “Trocamos o plástico que é usado uma vez e jogado fora por uma cinta que pode ser utilizada por anos”, diz.
“Começamos importando um produto que já existia lá fora, mas logo percebemos que ele não se adaptava bem à realidade daqui”, diz.
O produto utilizava o velcro para prender as partes, que acumulava sujeira e perdia eficiência rapidamente. “Se não guardar de forma organizada, ele cola em tudo, vira um problema. Em poucos meses vimos que não ia funcionar como solução escalável”, afirma.
O produto é composto por uma cinta que também utiliza plástico na produção, mas que tem acabamento em tramas e utiliza outros materiais, como alumínio. O sistema inclui presilhas, responsáveis pelo travamento da carga. O resultado é um material que se assemelha ao cinto de segurança, com resistência e durabilidade.
A proposta combina redução de custos operacionais com menor geração de resíduos, atendendo tanto à demanda financeira dos clientes quanto às metas ambientais das companhias.
Crescimento puxado por indicação
Logo que lançou o produto, a Agilfix fechou contrato com uma grande indústria, o que ajudou a validar a solução e trouxe escala desde o primeiro momento. Mas o efeito colateral veio rápido.
“Nosso primeiro cliente já foi uma empresa grande, então a gente se empolgou. Mas depois veio o choque de realidade: não foi tão fácil conquistar os próximos”, afirma o fundador.
A expansão, então, desacelerou e mudou de perfil. Nos anos seguintes, a Agilfix apostou em empresas de médio e pequeno porte. A estratégia abriu um caminho menos óbvio: o crescimento via mobilidade de profissionais. “Muitos gerentes e coordenadores que usaram o produto em empresas menores depois foram para grandes e nos chamaram para implementar lá também”, diz.
A empresa construiu uma base inicial apoiada em indicação e uso real. Com o crescimento, a Agilfix começou a estruturar a área comercial e ampliar os canais de aquisição. Entraram investimentos em marketing digital e novos formatos, como a locação do produto.
A lógica segue a mesma: reduzir a barreira de entrada. “Quem tem contato com o produto não volta atrás. O desafio sempre foi fazer o cliente testar pela primeira vez”, diz.
Por mais que as cintas sejam reutilizáveis, o fluxo de compras é constante, já que a maioria das empresas começa a implementar a solução de maneira gradual e outras começam a crescer.
Alta do plástico acelera demanda
Em 2025, a Agilfix fechou o ano com um faturamento de R$ 3,8 milhões. Em 2026, o crescimento deve ser impulsionado pelo aumento do preço do plástico – podendo chegar a R$ 6 milhões.
“Nas últimas semanas, já observamos um crescimento de cerca de 35%”, diz Hiebl.
Em 2020, durante a pandemia, o plástico também subiu – momento em que a empresa também cresceu. Neste ano, aproveitaram o cenário para atrair os clientes de forma ativa.
A empresa apostou em campanhas de e-mail marketing e comunicação digital para alertar sobre o risco de aumento de preços e até de escassez do plástico. O movimento reaqueceu negociações que estavam paradas e trouxe novos clientes. “Tinha muito orçamento morno que voltou a andar quando o preço do stretch começou a subir”, diz.
Parte desse avanço vem da conversão de clientes que antes hesitavam pela relação de custo-benefício. “Quando o plástico sobe, o retorno do investimento fica muito mais rápido, e isso destrava a decisão de compra”, afirma Hiebl.
Cada conjunto necessário para amarração de uma carga tem valor médio em torno de R$ 70. Na comparação, o filme stretch custa menos por aplicação — cerca de R$ 7 por uso —, porém é descartado após cada operação.
“Dependendo do volume de movimentação, o retorno pode acontecer em poucos meses — ou até semanas, em operações de alto giro”, diz.
Além do aumento da demanda, a empresa também se beneficia de uma estrutura produtiva preparada para escalar. Hoje, a Agilfix tem capacidade para produzir cerca de 35 mil cintas por mês em um único turno — praticamente o dobro do volume atual de vendas.
Para sustentar o crescimento, a companhia mantém estoque suficiente de plástico para alguns meses, reduzindo a exposição às oscilações de preço da matéria-prima.
“Estamos preparados para atender esse pico de demanda sem perder competitividade”, diz Hiebl. “Quando o plástico sobe, nosso custo não acompanha na mesma proporção, já que temos outros componentes na composição.”
Novos modelos para escalar
A Agilfix também aposta em novas frentes de crescimento ao diversificar o modelo de negócios. Uma das novidades é a locação das cintas, em vez da venda direta.
Nesse formato, a empresa assume o investimento inicial e o cliente passa a pagar uma mensalidade, já com redução imediata de custos operacionais.
“A locação permite que o cliente teste na prática, sem risco e sem compromisso inicial alto”, diz Silva. “A locação vira uma porta de entrada — quando o cliente vê o resultado, ele quer ter o produto”, complementa.
Outra frente está no desenvolvimento de novos produtos para a cadeia logística, aproveitando a base de clientes construída ao longo dos anos. A empresa estuda parcerias e soluções complementares, como alternativas mais sustentáveis para componentes usados na amarração de cargas.
A ideia é ampliar o portfólio dentro do mesmo nicho, mantendo o foco em eficiência operacional e redução de impacto ambiental. “Conhecemos bem a dor do cliente e queremos resolver mais etapas da operação logística”, diz.
A Agilfix também passou a oferecer manutenção das cintas para prolongar a vida útil do produto. Em casos de avaria, o material pode ser reparado e voltar ao uso, em vez de ser descartado. “Muitas vezes é um dano pontual, com conserto simples e baixo custo”, afirma Silva.
Nenhum comentário disponível no momento.
Comentários
Deixe seu comentário abaixo: