Enviada da COP30: Brasil pode liderar transição energética, mas há risco de 'perder para si mesmo'

Por Sofia Schuck 21 de Março de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Enviada da COP30: Brasil pode liderar transição energética, mas há risco de 'perder para si mesmo'

A transição energética global entrou em uma nova fase: mais urgente, mais econômica e cada vez mais ligada a disputas de poder entre países.

No atual cenário geopolítico turbulento, o Brasil aparece como uma das economias mais bem posicionadas para liderar esse movimento: matriz majoritariamente limpa, abundância de recursos naturais e capacidade diplomática em prol da paz em meio à guerra.

“O Brasil é o país certo, no lugar certo, na hora certa — só precisa fazer a coisa certa”, afirma Elbia Gannoum, enviada especial de energia da COP30 e presidente da Associação Brasileira de Energia Eólica (Abeeólica), em entrevista exclusiva à EXAME para o videocast Negócios Sustentáveis.

Mas essa liderança não está garantida. "Não perdemos para o mundo, mas corremos o risco de perder para nós mesmos”, alerta.

Para a especialista que é uma das vozes mais influentes no setor de energia global, o principal risco está dentro de casa: na falta de coordenação, na lentidão regulatória e na dificuldade de transformar vantagem natural em estratégia econômica concreta.

Ou seja, antes será preciso fazer a lição doméstica. Isso passa por construir uma arquitetura financeira, regulatória e de planejamento compatível com o papel que o país pode desempenhar em compasso com o tamanho do desafio planetário.

Elbia acredita fortemente que a humanidade se preocupa muito com questões climáticas, mas só age por questões que mexem com o "seu bolso".

“A sociedade só age quando você dá o sinal de preço adequado”, diz. Nesse contexto, o mercado de carbono surge como peça-chave. A criação de um sistema regulado, com preço para emissões, tende a acelerar a descarbonização ao tornar atividades mais poluentes economicamente inviáveis como é o caso da exploração de combustíveis fósseis como o petróleo.

Acontece que o Brasil só aprovou a regulação deste mercado em 2024. E, de lá para cá, a implementação da lei continua em aberto. Sem sinais claros de avanço, o país pode ficar para trás: "No fim do dia, todo assunto termina em preço", acrescenta a executiva.

Outro desafio está na infraestrutura. O avanço das renováveis depende não apenas da capacidade de geração, mas da expansão das redes de transmissão e de soluções de armazenamento como baterias.

Elbia deixa claro: “Sem transmissão, não há transição energética".

O Brasil já avançou, mas ainda precisa ampliar investimentos para garantir que a expansão das fontes limpas ocorra de forma integrada e estável. Paralelamente, o governo se prepara para o primeiro leilão de baterias previsto para acontecer ainda neste primeiro semestre de 2026[/grifar], com a expectativa de baratear a tecnologia e aumentar sua escala.

A dificuldade de avançar em temas sensíveis não é exclusividade brasileira e também aparece no centro da diplomacia climática.A transição para longe dos combustíveis fósseis entrou em 2026 como um dos nós mais difíceis de desatar nas negociações internacionais.

A construção de um roteiro global para o abandono gradual dos fósseis foi uma das grandes promessas da presidência da COP30, liderada pelo embaixador André Corrêa do Lago. Apesar de ter ficado fora do texto final por falta de consenso entre as nações, o compromisso paralelo segue vivo, encabeçado pelo Brasil rumo à COP31 na Turquia.

++ Leia mais: Transição energética: Brasil quer puxar a fila, mas falta engatar o passo

Energia no centro da geopolítica global

O alerta ganha ainda mais peso diante do contexto internacional. A Agência Internacional de Energia (AIE) afirmou nesta semana que a guerra com o Irã representa a maior ameaça já registrada à segurança energética global.

Mais do que um choque pontual que expõe a dependência das economias no petróleo, o movimento reforça uma tendência: energia deixou de ser apenas uma agenda ambiental e passou a ocupar o centro das disputas geopolíticas.

“Independência energética é soberania”, afirma Elbia.

Na escalada militar do conflito, países mais dependentes de fontes fósseis importadas tendem a ficar mais vulneráveis, enquanto economias com capacidade de produzir sua própria energia ganham relevância estratégica.

“A maioria dos países não tem petróleo, mas tem recursos para produzir energia renovável. Isso muda completamente o jogo”, frisa a especialista.

Soberania energética e nova economia

O momento atual ajuda a explicar por que a transição energética tende a avançar independentemente de consensos políticos. Segundo Elbia, o impulso não virá apenas da agenda climática muito ancorada no Acordo de Paris e nas decisões das COPs, mas da busca por autonomia energética.

Ao mesmo tempo, a energia limpa passa a ser um fator de competitividade econômica.

A abundância de fontes renováveis como a eólica e a solar pode reposicionar o Brasil como destino de novos investimentos industriais, especialmente em setores intensivos em energia, como data centers, hidrogênio verde e produção de materiais de baixo carbono.

“É sobre aproveitar o potencial brasileiro para produzir bens e serviços com mais valor agregado e exportar essas soluções verdes”, garante Elbia.

A vantagem competitiva pode favorecer o comércio internacional, visto que empresas enfrentam pressão crescente por redução de emissões e países tem regulações mais exigentes em relação à padrões ambientais.

Uma janela que pode se fechar

A janela de oportunidade é única, mas pode se fechar. Enquanto o Brasil reúne condições únicas para liderar a nova economia da energia, Elbia acredita que a posição depende de decisões rápidas e coordenadas.

A transição energética também está redesenhando cadeias globais de produção, com destaque para minerais críticos e novas tecnologias, em um cenário em que países que se moverem primeiro tendem a captar mais valor.

“A questão é se vamos conseguir enquanto nação fazer isso no tempo certo”, afirma Elbia. Caso contrário, o país pode ver a oportunidade escapar. E, como resume a especialista, o maior risco não está fora, mas dentro de casa.

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