Essa empresa vai movimentar R$ 2 bilhões com crédito para quem está com o nome sujo
Enquanto parte do mercado evita clientes negativados, uma fintech brasileira decidiu apostar justamente nesse público. Fundada em 2022, a Gooroo Crédito atua com crédito consignado privado — ou “crédito do trabalhador” — voltado exclusivamente a pessoas com carteira assinada.
O foco da empresa está em um público historicamente negligenciado pelos bancos: trabalhadores com nome sujo e acesso limitado a crédito. No primeiro trimestre de 2026, a Gooroo ultrapassou R$ 800 milhões em funding, termo usado no mercado para se referir aos recursos que a fintech capta com investidores para financiar os empréstimos que concede.
O crescimento acompanha a operação: foram R$ 385 milhões em crédito no último ano, com expectativa de atingir R$ 2 bilhões neste ano.
“A gente nasceu com o objetivo de democratizar o crédito consignado e atender pequenas e médias empresas e seus colaboradores”, afirma Rodolfo Takahashi, CEO da companhia.
A lógica da empresa vai na contramão de parte do mercado. Em vez de ampliar o limite, a fintech busca oferecer valores mais ajustados à realidade do cliente, reduzindo o risco de superendividamento. Hoje, o tíquete médio das operações gira em torno de R$ 1.300.
“Mostramos para o cliente qual é o limite máximo para ele não se endividar. Não adianta emprestar mais do que ele consegue pagar”, diz Takahashi.
Como tem se dado o crescimento da Gooroo
Antes de criar a Gooroo, Takahashi e os sócios já acumulavam anos de experiência no mercado financeiro e de tecnologia. Foi nesse período que perceberam um padrão: trabalhadores de pequenas e médias empresas, muitas vezes negativados, tinham pouco acesso a crédito estruturado — mesmo quando tinham renda estável. A fintech nasceu, então, com a proposta de preencher essa lacuna.
O avanço da Gooroo tem sido sustentado por uma estrutura de funding baseada em FIDCs (fundos de investimento em direitos creditórios) e por uma base crescente de investidores institucionais, como Ouro Preto, Solis e Banco Ribeirão Preto. Segundo o CEO, a consistência da carteira é um dos principais fatores por trás da facilidade em captar recursos.
“Nunca tivemos dificuldade para trazer investidores porque mostramos uma carteira muito saudável e rentável”, afirma.
Além da captação, a empresa aposta na integração com o Open Finance para melhorar a análise de risco e a personalização das ofertas de crédito.
Indo na contramão de outras empresas jovens de tecnologia, a Gooroo decidiu investir em lojas físicas. Hoje, tem 10 lojas, que foram abertas com investimento médio de R$ 200 mil por unidade e retorno estimado em cerca de um ano.
A meta é chegar a 40 unidades até o fim de 2026, expandindo a presença para estados como Minas Gerais, Paraná e Santa Catarina. A aposta no modelo “phygital” (físico + digital) está diretamente ligada ao perfil do cliente.
“Uma pessoa em situação financeira delicada ainda valoriza o olho no olho. Existe insegurança no digital, principalmente quando se trata de crédito”.
Segundo a empresa, as lojas já têm impacto positivo na conversão, retenção e proximidade com o cliente, além de reforçarem a educação financeira.
Como a Gooroo usa tecnologia para ganhar escala
A operação digital segue sendo o principal motor de escala. A Gooroo desenvolveu uma tecnologia proprietária que combina múltiplas camadas de análise de dados e inteligência artificial para avaliação de crédito. Com isso, o processo é rápido: a aprovação pode acontecer em menos de quatro segundos, e o dinheiro pode cair na conta em até uma hora e meia após a validação.
“A gente consegue analisar, aprovar e liberar o recurso de forma muito rápida. Isso faz diferença para quem precisa do dinheiro com urgência”, afirma o CEO.
Para os próximos anos, a Gooroo pretende expandir o portfólio de produtos e avançar na bancarização dos clientes. Entre os planos estão o lançamento de cartão de crédito e conta corrente. A ideia é ir além do crédito emergencial e oferecer soluções financeiras mais completas para esse público. Atualmente, a fintech atende clientes em todo o Brasil, com presença em mais de 3 mil cidades por meio de canais digitais e parceiros.
“Queremos que o cliente não use crédito só para pagar dívida, mas também como ferramenta de planejamento, como uma viagem ou um projeto pessoal”, diz Takahashi.
O debate do crédito consignado para o trabalhador
O avanço de empresas como a Gooroo acontece em paralelo a uma discussão crescente no país sobre a ampliação do crédito consignado para trabalhadores do setor privado. Dados da Federação Brasileira de Bancos (Febraban) indicam que o crédito consignado no Brasil movimentou mais de R$ 600 bilhões em 2025, mas a maior parte ainda está concentrada no setor público e no INSS.
No segmento privado, com o chamado "crédito do trabalhador", a movimentação é significativamente menor, porém o volume de empréstimos chama atenção. Em 2024 e 2025, o tema ganhou força dentro do Ministério da Fazenda, que passou a discutir formas de ampliar o acesso ao crédito, com propostas que incluem o uso de dados do eSocial para reduzir risco e facilitar a concessão. Segundo a pasta, foram 25 milhões de contratos realizados nesse primeiro ano - totalizando R$ 117,1 bilhões em empréstimos.
Uma das frentes em discussão envolve o uso do saldo do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço como garantia parcial dessas operações. A proposta é permitir que parte dos recursos sirva como respaldo ao pagamento dos empréstimos, o que tende a diminuir o risco para os credores e, na prática, abrir espaço para juros mais baixos e maior oferta de crédito — especialmente para trabalhadores com restrições no nome.
Nesse cenário, fintechs que conseguem operar com análise de risco mais sofisticada e foco em públicos subatendidos tendem a sair na frente — especialmente em um país onde, de acordo com a Serasa Experian, mais de 80 milhões de pessoas seguem negativadas.
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