Esta empresa de energia quase quebrou. Agora volta a crescer e vai faturar R$ 100 milhões
O mercado brasileiro de energia solar distribuída entrou em uma fase menos eufórica. O crédito ficou mais caro, as regras mudaram e o ritmo de expansão caiu. O setor agora discute eficiência, escala real e sobrevivência.
Nesse cenário está a Solarprime, rede de franquias de energia solar fundada em Minas Gerais, hoje com sede em Campinas, no interior de São Paulo.
Criada em 2014, a empresa cresceu junto com o setor, virou uma das maiores redes do segmento e passou por uma forte crise operacional entre 2023 e 2024.
É um problema comum em negócios que escalam rápido demais: crescimento sem controle. Depois de faturar centenas de milhões de reais por ano, a empresa encolheu, demitiu equipes, fechou estruturas e precisou passar por uma ampla reconstrução operacional.
“Quando voltei para a operação, a empresa tinha custo de quase 2 milhões de reais por mês e faturava cerca de 500 mil”, diz Raphael Brito, fundador e diretor executivo da Solarprime.
Para 2026, o plano é voltar ao crescimento, mas em outro modelo, com mais controle e foco (total) em rentabilidade.
A expansão que virou problema
No início, o negócio da Solarprime era vender sistemas fotovoltaicos porta a porta.
Em 2016, virou franquia. A rede se espalhou pelo país e chegou a quase 600 unidades franqueadas. A empresa atraiu investidores, ampliou a estrutura corporativa e, em 2022, recebeu um aporte minoritário de um grande grupo da construção civil.
O cenário mudou rapidamente.
A nova lei da energia solar, a alta da taxa de juros e a retração do crédito reduziram a demanda. Mesmo assim, a operação seguiu expandindo.
“O mercado piorou e a gestão fez o oposto do que precisava. Não cortou custos, não ajustou processos e continuou gastando”, conta Brito.
Em 2025, após a saída de um dos sócios e uma auditoria interna, o fundador reassumiu o comando. Encontrou uma empresa com alto nível de despesas fixas, sem controle financeiro e com processos fragilizados.
A reação foi dura: mais da metade dos funcionários foi demitida, a sede encolheu e a expansão de franquias foi interrompida. “Eu não queria ser a maior franquia do Brasil. Queria ser a melhor. Crescer sem eficiência quase quebrou a empresa”, diz.
No ano passado, o faturamento foi de cerca de 50 milhões de reais, uma fração do pico anterior. A meta é dobrar esse número em 2026, mas com outra lógica.
Um novo ciclo para a energia solar
Agora, a Solarprime direciona sua atuação para o que o setor chama de sistemas híbridos — a combinação entre geração solar e baterias de armazenamento.
Raphael explica que, até o momento, o principal argumento comercial da energia solar era a economia na conta de luz. O novo discurso passa a ser autonomia energética. “O próximo ciclo não é só sobre gerar energia, mas sim armazenar”, afirma Raphael Brito.
O modelo responde a dois gargalos do mercado. O primeiro é a instabilidade no fornecimento elétrico, recorrente em diversas regiões do país. O segundo é o custo elevado da energia nos horários de pico, especialmente para empresas e indústrias.
Com o uso de baterias, o consumidor pode carregar o sistema nos períodos de tarifa mais baixa e utilizar a energia armazenada nos horários mais caros.
O investimento inicial é maior — pode chegar a quase o dobro de um sistema tradicional —, mas o retorno tende a ser mais rápido em regiões com tarifas elevadas. A empresa já atua nesse segmento em projetos corporativos, como centros de distribuição e operações industriais.
O desafio agora é executar essa transição com uma rede menor e mais controlada.
Após o processo de reestruturação, a Solarprime planeja retomar a expansão em 2026. A meta é encerrar o ano com cerca de 200 unidades franqueadas, priorizando o perfil do operador e o desempenho das operações — não o volume de contratos. “O erro do passado foi crescer sem critério. Agora, cada franqueado passa por avaliação e aprovação direta”, diz Brito.
No horizonte de longo prazo, o plano prevê crescimento médio em torno de 20% ao ano após a fase de recuperação.
Depois de atravessar o período mais crítico desde a fundação, a Solarprime tenta mostrar que, no atual estágio do setor, sobreviver pode ser mais difícil — e mais estratégico — do que crescer rapidamente.
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