Este carioca deixou de ser motorista de aplicativo para liderar uma fintech de R$ 300 milhões
Aos 18 anos, o carioca Raphael Dyxklay descobriu que seria pai, mas não conseguiria sustentar uma família com a renda que tinha na época. Até então, sua vida estava nos livros. Ele cursava duas graduações simultâneas: em Letras e Literaturas, uma delas com habilitação em latim e grego antigo. Para se sustentar, trabalhava como crítico cultural e traduzia obras para uma pequena editora.
Mais de uma década depois, após uma série de reviravoltas em sua vida, o ex-estudante de literatura está à frente da Barte, fintech de infraestrutura financeira e inteligência artificial para médias e grandes empresas que já atende cerca de 10 mil companhias, movimentou R$ 10 bilhões em 2025 e atingiu R$ 250 milhões de receita em 2025.
Agora, a empresa projeta encerrar 2026 com R$ 500 milhões em receita anualizada.
“Quando cheguei ao mercado de tecnologia, não tinha referência nenhuma, nem dinheiro e não sabia nem Excel. Comecei a procurar algo que pudesse me fazer ganhar dinheiro porque a literatura não pagava as contas”, afirma Dyxklay.
Agora, a Barte prepara sua aposta mais ambiciosa até aqui: investir R$ 100 milhões em inteligência artificial até 2027 para automatizar processos financeiros dentro das empresas.
Por que Raphael deixou os estudos
Dyxklay, hoje com 34 anos, cresceu em diferentes bairros da zona norte do Rio de Janeiro. Primeiro em Anchieta e depois na Vila da Penha. Ainda na adolescência, começou a trabalhar como tradutor para uma pequena editora. Ao ingressar na faculdade, imaginava construir carreira no meio literário.
Tudo mudou em 2010, quando descobriu que seria pai aos 18 anos. A notícia o obrigou a olhar a vida sob outra perspectiva.
Além de continuar escrevendo e desenvolvendo projetos culturais, passou a procurar fontes de renda mais estáveis. Trabalhou fazendo pesquisas de rua, entrevistando taxistas para aplicativos de pesquisa, e chegou a considerar dirigir para plataformas de mobilidade.
Na mesma época, decidiu procurar programas de trainee. Descobriu, porém, que a maioria não aceitava formados em Letras. Um dos poucos que abriam exceção era um programa voltado para startups e tecnologia.
“Eu não sabia o que era uma startup. Fui totalmente pelo dinheiro e me apaixonei. Descobri um mundo em que você podia aprender sozinho, sem precisar seguir todos os caminhos tradicionais.”
Ele terminou em primeiro lugar no programa, mas acabou eliminado em todos os processos seletivos das empresas participantes. O primeiro emprego em tecnologia surgiu após enviar um e-mail para um professor do curso, que o contratou para trabalhar em uma consultoria voltada a startups, em Belo Horizonte.
Como Raphael virou empresário
A passagem pela consultoria abriu portas rapidamente. Depois de ajudar a empresa a triplicar de tamanho, mudou-se para São Paulo para empreender pela primeira vez.
Sua primeira companhia prestava serviços para startups que mais tarde se tornariam alguns dos principais nomes do ecossistema brasileiro, como o QuintoAndar e outras empresas que ainda eram vistas com desconfiança pelo mercado.
Os clientes acabaram se tornando também uma espécie de mentores.
“Eu queria entender como construir um negócio maior, mais capitalizado, como jogar na mesa dos adultos.”
A percepção de que demoraria muitos anos para chegar lá sozinho o levou a tomar outra decisão. Vendeu a primeira empresa e passou a trabalhar em companhias que ele acreditava terem potencial de se tornar gigantes.
Foi assim que trabalhou na Creditas, na Loft e na Olist — as três acabariam alcançando o status de unicórnio.
Foi justamente durante a internacionalização da Olist que conheceu o português Caetano Lacerda, ex-Deutsche Bank e um dos primeiros funcionários da britânica Tractable, startup de inteligência artificial que também se tornaria unicórnio.
Em 2021, em meio à pandemia, os dois identificaram uma oportunidade pouco explorada no Brasil: a precariedade da infraestrutura financeira de médias empresas.
A Barte nasceu em fevereiro de 2022.
O que faz a Barte
A empresa começou oferecendo uma plataforma de pagamentos para médias e grandes empresas. Aos poucos, expandiu sua atuação para uma infraestrutura financeira mais ampla, adicionando conta empresarial, gestão de caixa, investimentos, cartões corporativos e serviços de crédito.
Hoje, a proposta é cuidar de todo o ciclo financeiro de uma companhia.
“Começamos ajudando com pagamentos, mas sempre tivemos a ideia de ser muito ponta a ponta para os times financeiros.”
Nos últimos anos, a fintech adicionou uma nova camada ao negócio: inteligência artificial.
O modelo adotado pela Barte prevê a criação de equipes híbridas, compostas por profissionais da empresa e agentes de IA, que trabalham dentro das áreas financeiras dos clientes.
Na prática, a fintech entra na operação, mapeia processos, organiza bases de dados, integra sistemas e desenvolve agentes capazes de assumir atividades repetitivas e automatizar rotinas financeiras.
Segundo a companhia, o objetivo é permitir que departamentos financeiros operem com níveis de eficiência antes restritos às maiores corporações.
A corrida pela inteligência artificial
A nova aposta da Barte está diretamente ligada ao momento vivido pelas empresas. Para Dyxklay, os diretores financeiros estão sob crescente pressão para automatizar processos, mas a maior parte das companhias ainda utiliza sistemas legados e pouco integrados.
“Construir um agente é fácil. O difícil é ele gerar valor de verdade. As empresas têm ERPs antigos, bancos tradicionais e sistemas que não conversam entre si.”
Por isso, a fintech pretende investir R$ 100 milhões em inteligência artificial até 2027.
A estratégia inclui o desenvolvimento de infraestrutura capaz de permitir que os agentes operem de ponta a ponta, e não apenas como assistentes que executam tarefas isoladas.
O crescimento já começa a aparecer nos números. A receita anualizada da companhia saltou de R$ 150 milhões em agosto de 2025 para R$ 250 milhões em novembro do mesmo ano. A empresa opera com caixa positivo e afirma estar recebendo uma demanda superior à sua capacidade atual de atendimento.
A meta agora é dobrar de tamanho.
“Estamos absorvendo uma demanda até maior do que conseguimos atender hoje.”
Mais do que perseguir o status de unicórnio, Dyxklay diz que a ambição é de longo prazo. A companhia estabeleceu a meta de alcançar R$ 5 bilhões em receita anual nos próximos cinco anos, patamar que poderia abrir caminho para um eventual IPO nos Estados Unidos.
“Nossa prioridade não é o próximo ano. É construir uma empresa geracional. Esse negócio tem décadas e décadas de estrada pela frente.”
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