Estrangeiro voltou à Bolsa — por que o investidor local ainda não?

Por Rebecca Crepaldi 11 de Fevereiro de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Estrangeiro voltou à Bolsa — por que o investidor local ainda não?

O ano mal começou e o Ibovespa já acumula 10 renovações de recorde. Para se ter ideia, em 2025, o principal índice de referência da B3 renovou suas máximas históricas em 32 oportunidades.

Ou seja, em pouco mais de um mês, 2026 já concentrou praticamente um terço do total de recordes registrados ao longo de todo o ano anterior, segundo um levantamento da Elos Ayta.

Esse movimento é muito impulsionado pelo gringo. O principal motivo? Valuation ainda baixo. Em outras palavras, a Bolsa segue barata, mesmo com o rali recente. Hoje, ela negocia a 10,5x o P/L, retornando à média histórica.

Entretanto, comparado a outros países, esse múltiplo é baixo. “Principalmente quando comparado ao mercado americano, onde os múltiplos seguem acima de 20x, ou ao MSCI Emerging Markets, com P/L próximo de 14x”, diz Victor Penna, head de research do BB-BI.

Segundo Fábio Murad, Economista e CEO da Super-ETF Educação, o fluxo cambial também favorece emergentes, especialmente com o dólar em tendência de enfraquecimento global, por conta de questões geopolíticas nos Estados Unidos, que resultaram em uma migração do capital para emergentes.

O resultado disso é que o Brasil sobe cerca de 20% em dólar no ano, enquanto Chile sobe 12%, Peru 35%, Colômbia 20%, além de outros emergentes fora da América do Sul, como a Coreia do Sul, que já acumula alta de quase 30%.

Além disso, a liquidez elevada e oportunidades de diversificação no universo de emergentes, principalmente em bancos e commodities que também atraem capital para cá — mesmo sem fatores positivos domésticos relevantes.

Em resumo: o que impulsiona a Bolsa de valores brasileira é o capital estrangeiro. Sem considerar ofertas públicas iniciais (IPOs) e follow-ons, o saldo estrangeiro em janeiro foi de R$ 26,31 bilhões, acima dos R$ 25,47 bilhões acumulados ao longo de todo o ano passado.

Onde está o investidor local?

Ainda faltam catalisadores que levem o brasileiro à Bolsa. Há uma certa cautela, principalmente por conta dos juros ainda elevados e incertezas domésticas como eleições e ruídos fiscais. A Selic em patamares altos aumenta o custo de oportunidade da renda variável, empurrando recursos para renda fixa tradicional.

“Essa hesitação interna mostra que falta ao investidor brasileiro confiança sobre o futuro da economia e um ambiente mais estável de juros e política, fatores que, quando vierem, podem desencadear maior participação local em Bolsa”, diz Sidney Lima analista da Ouro Preto Investimentos.

Além de ser um ano eleitoral, o que naturalmente adiciona um risco extra de volatilidade, o investidor local continua muito atento ao tema fiscal, especialmente olhando para o cenário a partir de 2027, quando surgem dúvidas sobre a sustentabilidade das contas públicas.

Penna complementa: “Por mais que as empresas estejam entregando resultados, em geral, positivos, e que o movimento de depreciação do dólar ajude a manter o investidor estrangeiro alocado no Brasil — o que sustenta uma tendência mais favorável para a Bolsa —, o segundo semestre tende a ser marcado por maior instabilidade por fatores como o processo eleitoral.”

O cenário fiscal e o calendário eleitoral influenciam significativamente o sentimento dos investidores domésticos. Com a aproximação das eleições presidenciais, a percepção de risco político se intensifica, levando muitos a reduzir sua exposição em renda variável até que fique mais claro o direcionamento das políticas públicas e das prioridades fiscais nos próximos anos.

De acordo com Murad, no Brasil, qualquer boato sobre aumento de imposto, tributação de dividendos ou interferência estatal basta para paralisar o fluxo para a Bolsa.

‘Rali sem participação do investidor local tende a ser limitado’

Caso o ambiente internacional permaneça volátil e os fluxos externos continuem olhando para o Brasil como uma oportunidade de retorno ajustado ao risco, o rali tende a continuar, explica Lima.

“No entanto, a continuidade sustentável do ‘rali’ dependerá também de fatores internos como consolidação de um cenário fiscal mais claro, redução efetiva dos juros e maior participação do investidor local, elementos que ainda estão em desenvolvimento.”

Murad também diz que pode continuar, mas com volatilidade.

“O fluxo estrangeiro ainda pode sustentar a alta no curto prazo, principalmente se o dólar seguir fraco e os juros caírem. Mas rali sem participação do investidor local tende a ser limitado.”

Segundo ele, para virar tendência sólida, precisa haver uma virada de percepção, o que só acontece quando o investidor brasileiro recupera a confiança.

Penna também afirma um fator que pode contribuir para esse movimento é a acomodação do desempenho das bolsas americanas, derivada de uma expectativa de crescimento mais moderado dos lucros, o que reforçaria a realocação de capital para mercados com melhor relação risco-retorno.

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