Estudo identifica 'ponto fraco' de bactéria encontrada em produtos da Ypê
Uma equipe internacional de cientistas identificou o mecanismo molecular que permite à bactéria Pseudomonas aeruginosa resistir à ação de antibióticos, em uma descoberta que pode abrir caminho para novos tratamentos contra infecções hospitalares causadas por superbactérias.
O estudo, publicado na revista científica Journal of the American Chemical Society, foi conduzido por pesquisadores do Instituto Blas Cabrera de Química Física (CSIC), na Espanha, e da Universidade de Notre Dame, nos Estados Unidos.
A Pseudomonas aeruginosa ganhou atenção recente no Brasil após ser identificada em produtos da Ypê proibidos pela Anvisa. A bactéria é considerada pela OMS (Organização Mundial da Saúde) uma das 15 mais perigosas do mundo por sua elevada resistência aos tratamentos atuais.
'Calcanhar de Aquiles' da bactéria
Os pesquisadores descobriram que a bactéria utiliza uma espécie de "rebite molecular" para conectar sua membrana externa protetora à parede celular. Essa estrutura cria uma dupla barreira capaz de bloquear a ação de medicamentos, incluindo antibióticos como a penicilina.
Embora já se soubesse que bactérias Gram-negativas possuíam esse sistema de proteção, o mecanismo exato ainda era desconhecido.
De forma explicativa, a Pseudomonas aeruginosa tem uma parede interna e uma "casca" externa, que dificulta a entrada dos antibióticos. Para que essa proteção fique firme, a bactéria usa uma espécie de "rebite" microscópico para prender uma camada na outra.
O estudo identificou a proteína responsável por esse processo, chamada PA2854, e detalhou passo a passo como ocorre a ligação entre a membrana e a parede celular bacteriana.
Ao reproduzir o mecanismo em laboratório, os cientistas conseguiram bloquear a formação desse "rebite", enfraquecendo a proteção da bactéria e tornando-a mais vulnerável aos medicamentos.
"Nossos resultados abrem caminho para o desenvolvimento de novas estratégias antimicrobianas que visam precisamente interferir nesse processo e tornar a membrana mais permeável aos medicamentos", afirmou Juan Hermoso, um dos líderes da pesquisa.
Combate a superbactérias
Para observar o mecanismo em nível atômico, os pesquisadores utilizaram técnicas de cristalografia de raios X de alta intensidade nos síncrotrons ALBA, em Barcelona, e ESRF, em Grenoble.
Segundo os cientistas, o mecanismo de ancoragem identificado não é exclusivo da Pseudomonas aeruginosa e também está presente em outros patógenos Gram-negativos. Isso aumenta o potencial da descoberta para o desenvolvimento de novas terapias contra bactérias multirresistentes.
A Pseudomonas aeruginosa é encontrada no solo, na água e em ambientes úmidos e costuma estar associada a infecções hospitalares. O microrganismo pode causar desde quadros leves, como otites, até doenças graves, incluindo pneumonia e infecções pulmonares severas.
A resistência aos antibióticos é considerada uma das principais ameaças à saúde pública global e já está associada a milhões de mortes por ano em todo o mundo. Cientistas alertam que o avanço das superbactérias pode comprometer a eficácia de tratamentos atuais e dificultar o combate a infecções comuns.
*Com informações da EFE
Nenhum comentário disponível no momento.
Comentários
Deixe seu comentário abaixo: