EUA cria 'fábrica de moscas' para conter praga do México sobre carne bovina

Por César H. S. Rezende 11 de Fevereiro de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
EUA cria 'fábrica de moscas' para conter praga do México sobre carne bovina

Os Estados Unidos vão construir uma fábrica no Texas para produzir moscas estéreis destinadas ao controle da bicheira-do-Novo-Mundo, parasita que ameaça a produção de carne bovina do país.

O projeto, anunciado na segunda-feira, 9, pela secretária do Departamento de Agricultura (USDA), Brooke Rollins, receberá um investimento de US$ 750 milhões e deve ser inaugurado até 2027.

A iniciativa é uma resposta à disseminação crescente da praga a partir do México, com risco iminente de entrada pela fronteira sul. A técnica de liberação de moscas estéreis é considerada eficaz para controlar infestações sem uso de pesticidas.

Embora o parasita ainda não tenha sido detectado em território americano, o USDA estima que uma possível infestação poderia gerar prejuízos de até US$ 1,8 bilhão à economia do Texas.

As moscas-varejeiras fêmeas depositam ovos em feridas abertas de animais; suas larvas se alimentam de tecido vivo, podendo levar à morte do hospedeiro. O atual surto, com origem na América Central, já afeta a cadeia pecuária no México e preocupa autoridades dos EUA.

Desde maio de 2025, o país mantém a fronteira sul praticamente fechada para entrada de gado mexicano.

Atualmente, o USDA já produz cerca de 100 milhões de moscas estéreis por semana em uma unidade no Panamá, que abastece ações de controle em território mexicano. Nesta semana, foi inaugurado centro de dispersão no sul do Texas.

Especialistas alertam, no entanto, que será necessário ampliar significativamente a produção para conter o avanço da praga. A nova fábrica pretende reforçar a resposta nacional e proteger o setor pecuário.

No final de janeiro, o governador do Texas, Greg Abbott, declarou estado de desastre no estado para fortalecer a atuação da equipe de resposta. Em Tamaulipas, estado mexicano que faz fronteira com o Texas, oito novos casos da praga foram registrados neste mês.

Preço da carne nos EUA

O avanço da doença no México deve dificultar ainda mais os planos do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de reduzir os preços da carne bovina no país.

Nos últimos dois anos, o preço da carne moída — um dos principais cortes usados na produção de hambúrgueres — subiu 23% segundo dados do Bureau of Labor Statistics (BLS). Cerca de 80% da carne moída consumida nos EUA é destinada à produção de hambúrgueres.

A alta nos preços é resultado de uma combinação de fatores, como as condições climáticas adversas, a redução do rebanho bovino e a tarifa de 50% imposta pelo próprio governo Trump sobre a carne brasileira em julho de 2025.

Desde 2019, o rebanho de gado de corte nos Estados Unidos encolheu para 27,9 milhões de cabeças — uma queda de 13%. O inventário total de bovinos do país está no nível mais baixo desde 1951, segundo dados do Departamento de Agricultura dos EUA (USDA).

A oferta menor de gado, agravada pela seca no oeste do país, elevou os custos da pecuária. Com a escassez de pasto, muitos produtores foram forçados a investir mais em ração, o que pressionou as margens e levou parte deles a reduzir o tamanho do rebanho, vendendo animais.

A pandemia de 2020 também deixou impactos duradouros no setor: o fechamento de frigoríficos e as interrupções no processamento reduziram a demanda por gado, o que derrubou os preços pagos aos criadores.

Outro fator de pressão veio com a suspensão das importações de gado do México, em maio de 2025 — medida adotada para conter o avanço da bicheira-do-Novo-Mundo, parasita que pode matar animais infectados e, em casos raros, afetar também aves e humanos.

Tradicionalmente, os Estados Unidos importavam gado do México para engorda em confinamentos e posterior abate em frigoríficos americanos. Com a fronteira fechada, parte dessa oferta foi cortada, dificultando ainda mais o equilíbrio entre oferta e demanda e ampliando os desafios da Casa Branca no controle dos preços da carne.

Na sexta-feira, 6, o presidente Donald Trump assinou uma ordem executiva autorizando o aumento em 80 mil toneladas das exportações de carne bovina da Argentina aos EUA, em mais uma tentativa de conter a alta dos preços internos.

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