'Europa não comprará produtos associados ao desmatamento', diz conselheiro do papa sobre a Amazônia

Por Guilherme Gonçalves 14 de Maio de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
'Europa não comprará produtos associados ao desmatamento', diz conselheiro do papa sobre a Amazônia

Em meio aos debates sobre bioeconomia e crise climática no Bioeconomy Amazon Summit (BAS) 2026, o climatologista Carlos Nobre fez um alerta direto ao setor empresarial: preservar a Amazônia deixou de ser apenas uma questão ambiental e passou a ser uma exigência econômica global.

“A economia perde bilhões com o desmatamento. A Europa não comprará produtos associados ao desmatamento. Para termos bioeconomia, devemos ter a floresta em pé”, afirmou Nobre em entrevista à EXAME durante o evento, realizado em Belém.

Referência internacional em estudos sobre mudanças climáticas e Amazônia, Nobre foi nomeado em março pelo papa Leão XIV como membro do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral, órgão do Vaticano responsável por discutir temas ligados a justiça social, meio ambiente e desenvolvimento sustentável. O cientista brasileiro é o único especialista da área ambiental entre os 11 integrantes anunciados pelo pontífice.

Segundo ele, a escolha do Vaticano tem relação direta com sua participação no Sínodo da Amazônia, convocado pelo papa Francisco em 2019.

“A integralidade do desenvolvimento humano exige proteção total da natureza, dos serviços ecossistêmicos e da biodiversidade”, disse.

“Hoje, a ciência já não fala mais apenas em mudança climática. Nós estamos vivendo uma emergência climática.”

Qual é o peso econômico da floresta

Para Nobre, a principal ameaça econômica ao Brasil hoje está no avanço das barreiras comerciais relacionadas ao desmatamento.

Ele cita como exemplo as exigências ambientais impostas pela União Europeia no acordo com o Mercosul e as novas regras europeias que restringem importações de produtos vindos de áreas desmatadas após 2020.

“A Europa deixou claro que não vai comprar produtos associados ao desmatamento”, afirmou. “Isso afeta carne, soja e outros produtos agropecuários.”

Dados do sistema Prodes, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), mostram que o desmatamento na Amazônia caiu 11,08% em 2025, atingindo o menor índice dos últimos 11 anos, embora a floresta ainda siga pressionada por queimadas, degradação e expansão agropecuária.

Segundo Nobre, o Brasil tem uma posição diferente da maioria dos grandes emissores globais. Enquanto países como China e Estados Unidos concentram emissões na queima de combustíveis fósseis, no Brasil boa parte das emissões ainda está ligada ao uso da terra e à agropecuária.

“O Brasil pode reduzir enormemente suas emissões se zerar o desmatamento em todos os biomas até 2030”, disse.

Empresas começam a mudar

Ao comentar exemplos positivos do setor privado, Nobre citou empresas que passaram a incorporar rastreabilidade e critérios ambientais em suas cadeias produtivas. Uma delas foi a Natura, apontada por ele como pioneira no uso sustentável da biodiversidade amazônica.

“A Natura há muito tempo trabalha com produtos da biodiversidade e buscou fornecedores sem associação com desmatamento”, afirmou.

Nobre também mencionou mudanças recentes na cadeia da carne. Segundo ele, a JBS ampliou mecanismos de monitoramento para evitar compra de animais vindos de áreas recém-desmatadas.

Outra iniciativa destacada foi a política adotada pelo Carrefour no Brasil. O cientista integra um conselho ambiental ligado à companhia.

“Eu levei ao Carrefour a proposta de não comprar carne de áreas desmatadas. Eles implementaram regras muito rígidas de monitoramento”, afirmou.

Segundo Nobre, o uso do fogo na pecuária também deveria se tornar um critério de restrição comercial.

“Pecuária moderna não usa fogo”, disse. “Quando usa, existe um grande risco de incêndios escaparem para a floresta.”

O risco do ponto de não retorno

Há mais de quatro décadas estudando a Amazônia, Nobre ficou conhecido mundialmente pela formulação da hipótese da “savanização” da floresta — cenário em que parte da Amazônia perderia capacidade de regeneração e passaria a ter características semelhantes às de uma savana.

Ele alertar também para o avanço da degradação no sul e sudeste da Amazônia.

“A estação seca já está entre quatro e cinco semanas mais longa em algumas regiões”, disse. “Partes da floresta já deixaram de absorver carbono e passaram a emitir.”

Para o cientista, os próximos anos serão decisivos para o futuro da floresta.

“Nós precisamos zerar o desmatamento imediatamente e iniciar uma restauração florestal em grande escala”, afirmou. “Se a temperatura global chegar a 2 graus de aquecimento, o risco da Amazônia ultrapassar o ponto de não retorno fica enorme.”

Engenheiro eletrônico formado pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) e doutor em meteorologia pelo Massachusetts Institute of Technology (MIT), Nobre construiu sua trajetória no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e se tornou uma das principais vozes globais sobre clima e Amazônia. Em 2022, foi eleito membro da Royal Society, academia científica britânica fundada no século XVII.

Ao falar sobre sua nova função no Vaticano, Nobre diz enxergar uma tentativa da Igreja Católica de aproximar ciência, clima e desenvolvimento humano.

“A mensagem é clara: proteger a natureza é parte essencial do futuro da humanidade.”

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