Exclusivo: Bauducco inaugura fábrica de US$ 200 milhões nos EUA

Por Layane Serrano 26 de Junho de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Exclusivo: Bauducco inaugura fábrica de US$ 200 milhões nos EUA

Zephyrhills (EUA) -A família italiana que trouxe a receita do panettone para o Brasil agora levará essa tradição também para os Estados Unidos. Depois de mais de quatro décadas exportando panettones e chocotones para o mercado americano, a Bauducco passará a produzir esses produtos pela primeira vez fora do Brasil.

Nesta sexta-feira, 26, a empresa inaugura uma fábrica em Zephyrhills, cidade de cerca de 18 mil habitantes na Flórida, marcando o início da produção local de panettones e chocotones para o mercado americano. O investimento no parque fabril foi de US$ 200 milhões e deve gerar cerca de 150 empregos na primeira fase da operação.

"Antes de eu me aposentar, quero ver 100 milhões de panettones vendidos nos Estados Unidos", afirma Massimo Bauducco, neto do fundador da empresa, durante a inauguração da unidade.

A nova fábrica representa muito mais do que uma expansão industrial. Ela transforma os Estados Unidos em um centro estratégico da operação internacional da companhia e reduz a dependência da produção brasileira para abastecer o maior mercado consumidor do mundo.

Bauducco começou a exportar para o Estados Unidos na década de 1970 (Bauducco/Divulgação)

A empresa de 6 funcionários que está em expansão global

A inauguração também marca um novo momento para Stefano Mozzi. Depois de 16 anos ajudando a construir a operação americana praticamente do zero, o executivo assumiu recentemente o comando da divisão internacional da Bauducco.

Quando chegou aos Estados Unidos, a empresa tinha apenas sete funcionários. Hoje, lidera a maior aposta internacional da história da companhia.

"Cheguei quando éramos sete pessoas. Eu era o oitavo funcionário. O mercado americano é enorme, mas extremamente competitivo. Sempre trabalhamos pensando no longo prazo. Sabíamos que um dia precisaríamos produzir aqui", afirma Mozzi em entrevista exclusiva à EXAME.

A trajetória começou em 2016, com um centro de distribuição em Miami. Dois anos depois veio a primeira linha de produção de wafers. Agora, a companhia consolida a estratégia com uma unidade muito maior.

A área total do terreno tem cerca de 300 mil metros quadrados. A primeira fase ocupa 16 mil metros quadrados, mas o projeto prevê outras três expansões.

"Já temos planejadas as fases 2, 3 e 4. Esta fábrica foi desenhada para crescer durante muitos anos", diz o executivo.

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Por que uma pequena cidade da Flórida?

A escolha de Zephyrhills não aconteceu por acaso.

Segundo Mozzi, foram analisadas mais de 160 localidades em seis estados americanos antes da decisão final. O projeto levou em consideração logística, disponibilidade de mão de obra, fornecedores e incentivos públicos.

A região fica próxima ao Porto de Everglades, principal porta de entrada das exportações brasileiras da empresa, está perto dos fornecedores de açúcar e farinha e oferece acesso facilitado às principais rodovias americanas. Mozzi também afirma que houve também houve apoio do governo local.

"O estado, o condado e a cidade ofereceram incentivos principalmente para treinamento de funcionários e algumas reduções tributárias. Além disso, encontramos uma comunidade que precisava de empregos industriais", afirma Mozzi.

Na primeira feira de empregos organizada pela companhia, o executivo afirma que cerca de mil pessoas se candidataram para pouco mais de 120 posições iniciais. Hoje as contratações continuam à medida que novas linhas entram em operação.

Produção local para ganhar velocidade

Inicialmente, a unidade produzirá wafers. Ainda neste ano começam as linhas de panettones e chocotones.

“A meta é em até dois anos, todos os panettones vendidos nos Estados Unidos deverão ser produzidos em solo americano”, diz Mozzi.

Os wafers praticamente já fizeram essa transição.

"A partir de julho, praticamente todos os wafers vendidos nos Estados Unidos serão produzidos aqui. Depois faremos o mesmo com os panettones", afirma Mozzi.

Primeira loja da Bauducco nos Estados Unidos

A expansão da Bauducco nos Estados Unidos não ficará restrita à indústria. A companhia também prepara sua entrada no varejo físico com uma operação própria.

Ainda neste ano, Zephyrhills receberá a primeira Bauducco Store dos Estados Unidos. A unidade será construída em um terreno adquirido pela empresa onde antes funcionava uma loja da rede Wendy's e servirá como vitrine da marca para consumidores americanos.

"Vai ser a primeira loja da Bauducco nos Estados Unidos. Queremos começar por Zephyrhills porque estamos construindo nossa história aqui. Depois, o plano é expandir para Miami e outras cidades", afirma Stefano Mozzi, CEO da operação internacional da Bauducco.

Até o momento, as franquias da “Casa Bauducco”, que traz o conceito de cafeteria, ficarão apenas no Brasil.

"A Casa Bauducco já soma mais de 200 unidades no Brasil, e a meta é chegar a 500 lojas nos próximos anos", diz Mozzi.

O modelo também pode chegar aos Estados Unidos, embora a companhia ainda avalie o momento ideal para a expansão. “Estamos pensando, temos que definir exatamente quando é o tempo”, afirma.

Walmart e produtos feitos para o consumidor americano

A produção local também fortalece a parceria com o Walmart.

A rede começou vendendo panettones da Bauducco em cerca de 300 lojas. Hoje, durante o período de fim de ano, os produtos estão presentes em praticamente todas as unidades da varejista no país.

Para acelerar a popularização do panettone entre consumidores americanos, a empresa aposta em sabores desenvolvidos especificamente para o mercado local.

Entre os lançamentos previstos está um panettone recheado em parceria com a marca de pasta de amendoim Skippy, além da versão de pistache.

"A ideia é trabalhar com marcas que o consumidor americano já conhece. O panettone ainda não faz parte da cultura americana como faz na América Latina ou na Europa", explica o executivo que tem parceria com outras marcas americanas, como a Hershey's.

Mais do que Estados Unidos

A história da Bauducco fora do Brasil começou há mais de 50 anos e o primeiro país a receber os produtos foi o Paraguai. Nos EUA começou há exatos 50 anos, com os primeiros panettones chegando em Nova Iorque para o "mercado da saudade", como é chamado o consumo de brasileiros fora do país.

A fábrica em Zephyrhills, no entando, marca uma nova fase, ou melhor, um novo público. Ela nasce voltada ao consumidor americano, mas o plano vai muito além. Segundo Mozzi, a unidade de Zephyrhills será um novo hub de exportação para México, Canadá, Caribe, América Central e até mercados da Ásia e da Europa.

Alguns produtos destinados ao Japão, por exemplo, já começaram a ser embarcados a partir da Flórida.

"No final, conseguimos reduzir quase duas semanas de transporte em alguns mercados", afirma Mozzi, sobre a fábrica no sul da Flórida.

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Linha de embalagem Panettone. Foto da 1° fábrica em Guarulhos, SP (Bauducco/Divulgação)

E como fica a produção do Brasil?

A Bauducco nasceu em 1950 como uma doceria no bairro do Brás, em São Paulo, e construiu sua história no Brasil enfrentando diferentes ciclos e crises (de um incêndio na fábrica à hiperinflação dos anos 1980, além dos impactos da pandemia). Foi no Brasil que a marca ganhou escala, diversificou o portfólio e se consolidou como uma das principais empresas de alimentos do país. Segundo Mozzi, mesmo com a nova fábrica nos Estados Unidos, o Brasil seguirá como a base central da operação.

Hoje, no Brasil, a Bauducco possui seis fábricas (sendo a sede em Guarulhos, São Paulo), sete centros de distribuição, atende mais de 200 mil pontos de venda e tem mais de 7 mil funcionários.

"A produção nacional continuará abastecendo diversos mercados internacionais enquanto a capacidade americana cresce gradualmente", diz Mozzi.

A Bauducco começou como uma doceria no bairro do Brás, em São Paulo (Bauducco /Divulgação)

A próxima fronteira

A inauguração da fábrica faz parte de um plano mais amplo de internacionalização.

Hoje a Bauducco vende produtos para mais de 50 países e trabalha em três grandes frentes, segundo Mozzi:

Novos investimentos, de acordo com Mozzi, já estão previstos tanto para o Brasil quanto para a operação internacional.

"Minha missão é continuar a expansão internacional da marca. Temos muitos planos pela frente e acredito que teremos anos muito fortes de crescimento", afirma.

Para uma empresa fundada por uma família italiana no bairro do Brás, em São Paulo, há mais de sete décadas, produzir panettones fora do Brasil representa mais do que abrir uma fábrica. É o início de uma nova fase em que a Bauducco deixa de ser apenas uma marca brasileira presente no exterior para se tornar uma fabricante global.

Durante a cerimônia, Massimo Bauducco definiu o projeto como uma conquista coletiva da família e de todos que ajudaram a construir a empresa.

"A inauguração desta fábrica representa mais um capítulo dessa jornada e uma das decisões mais importantes que a nossa família já tomou. Projetos como este nunca são realizados por uma única pessoa. Representam técnica, trabalho, compromisso, coragem para crescer e, acima de tudo, apoio familiar", afirma Massimo.

Mesmo acelerando a internacionalização, a Bauducco continua sendo uma empresa familiar e sem planos de realizar um IPO no curto prazo.

A companhia também não abre informações sobre faturamento, produção ou projeções de crescimento, mas segundo estimativas de Alexandre Abu-Jamra, fundador da Klooks, plataforma que reúne dados corporativos a partir de informações públicas, a receita da operação brasileira alcançou aproximadamente R$ 3 bilhões no último ano (considerando a operação no Brasil).

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