Existe pesquisa eleitoral mais confiável? Entenda as diferentes metodologias

Por Letícia Cassiano 24 de Abril de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Existe pesquisa eleitoral mais confiável? Entenda as diferentes metodologias

Utilizadas por partidos, veículos jornalísticos e apoiadores, as pesquisas eleitorais se tornam protagonistas nos anos em que a população vai às urnas.

O resultado de um estudo ajuda a definir estratégia de campanha, indica onde um candidato é mais forte ou mais fraco e possui o poder de regionalizar uma corrida de nível nacional.

Ainda assim, muitos eleitores têm dúvidas sobre a credibilidade dessas pesquisas. Afinal, o Brasil é um país com mais de 200 milhões de pessoas, mas apenas algumas centenas ou milhares de cidadãos são ouvidos.

As pesquisas nacionais mais divulgadas entre os veículos de comunicação são Quaest, Datafolha, AtlasIntel, Futura, MDA, Alfa, Ipec, Ipespe, Paraná Pesquisas, Gerp, Real Time Big Data e Ideia.

De acordo com o Google Trends, de fevereiro a abril, Datafolha foi o termo mais procurado entre os estudos. Seguido de Quaest, Paraná Pesquisas, MDA e IPEC.

Mais do que os dados publicados, um indicador da qualidade do levantamento que geralmente é levantado é a metodologia utilizada.

Segundo Daniel Marcelino, analista de dados e especialista em pesquisas de opinião do JOTA, “não há uma única forma de conduzir uma pesquisa eleitoral”, afirmou. “Cada instituto adota variações próprias dos métodos clássicos, o que torna esses levantamentos praticamente únicos.”

Mas alguma pesquisa é mais confiável do que outra? Para Marcelino, a resposta para esta pergunta é direta. “Não existe uma metodologia universalmente superior em pesquisas eleitorais. Cada abordagem tem vantagens e limitações”, disse.

As principais diferenças entre as pesquisas estão na seleção e análise das amostras e no método de coleta das respostas.

Como funcionam as pesquisas eleitorais?

No Brasil, as pesquisas de intenção de voto costumam selecionar amostras (eleitores para responder ao estudo) em múltiplos estágios, que combinam etapas probabilísticas com não probabilísticas.

Uma amostragem probabilística, também chamada de aleatória, em que os eleitores que responderão às perguntas são escolhidos de forma imparcial, como por meio de um sorteio.

Já o método não probabilístico, ou não aleatório, seleciona os respondentes com base em critérios pré-estabelecidos, como gênero, escolaridade e faixa etária.

Essa seleção é necessária porque a sociedade tem uma proporção definida de homens e mulheres, idosos e jovens, pessoas com mais ou menos formação escolar, por exemplo.

Segundo Marcelino, o modelo mais comum utiliza a técnica de Probabilidade Proporcional ao Tamanho (PPT). Nesse modelo de pesquisa, as amostras são selecionadas de forma proporcional ao seu tamanho e, em seguida, os entrevistados são escolhidos dentro dessas áreas. Basicamente, áreas com mais pessoas têm mais chances de entrar na pesquisa.

No estágio final, aplicam-se as cotas, com a escolha de entrevistados a partir de perfis pré-definidos, como sexo, idade, escolaridade e nível econômico.

“A ideia é reproduzir a composição da população na pesquisa de forma mais fiel possível”, explicou o especialista.

Metodologias de coleta

O método de coleta das amostras, de como serão feitas as entrevistas, também é um fator importante.

As principais modalidades são:

A pesquisa presencial, ou face a face, é feita com entrevistadores em campo abordando eleitores em pontos de fluxo ou domicílios. Os institutos Ipec e Quaest costumam realizar as entrevistas predominantemente desse modo.

De acordo com o pesquisador, levantamentos presenciais são, em geral, os mais bem avaliados, tanto pela reputação construída ao longo do tempo quanto pela visibilidade que têm no debate público.

“Eles também tendem a produzir amostras mais representativas porque o contato direto facilita o acesso a perfis que costumam ser sub-representados em outros métodos, o que teoricamente melhora a qualidade das estimativas”, afirmou.

Por outro lado, esse modelo exige equipes de campo, deslocamento e logística complexa, o que eleva o custo desses levantamentos.

A pesquisa telefônica é realizada por ligações para celular ou fixo, com ou sem a participação de entrevistadores humanos. O Ipespe é conhecido por conduzir suas entrevistas por este método.

Essa modalidade é mais rápida e barata, além de poder oferecer boa cobertura geográfica. No entanto, deixam de fora parte do eleitorado que não atende a ligações desconhecidas.

Já na pesquisa online, os respondentes são recrutados digitalmente. Dos institutos de pesquisa, a AtlasIntel se destaca por utilizar o método do recrutamento digital aleatório.

Na visão de Marcelino, os levantamentos online são os mais ágeis, mas enfrentam dificuldades de representatividade.

Esse método costuma excluir pessoas sem acesso à internet ou menos expostas às plataformas digitais em que ocorre o recrutamento para participar da pesquisa.

“Também começam a aparecer pesquisas mistas, ou seja, pesquisas que usam dois ou mais modos de coleta de respostas, mas essa modalidade é bem residual no Brasil”, explicou Marcelino.

De todas elas, a modalidade presencial é a dominante no cenário eleitoral brasileiro. Segundo os dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) até o último dia 22, havia 505 pesquisas registradas. Destas, mais de 50% foram realizadas face a face, segundo uma classificação própria de Marcelino.

Portanto, na discussão sobre a credibilidade das pesquisas, o especialista acredita que a chave não está na metodologia.

“Eu diria que a confiabilidade depende mais da qualidade da execução do que do método, isoladamente.”

Registro no TSE

Outro fato importante que define a credibilidade das pesquisas eleitorais é o registro no TSE. No Brasil, é obrigatório que toda pesquisa divulgada seja registrada no órgão.

“O principal objetivo do registro é garantir transparência, ao dar publicidade às informações metodológicas das pesquisas e permitir a fiscalização por partidos, candidatos e pelo Ministério Público Eleitoral”, disse o pesquisador.

No registro deve constar quem contratou a pesquisa, quanto foi pago, a metodologia detalhada, o tamanho e composição da amostra, as datas de coleta e o intervalo de confiança.

Por meio dessas informações, qualquer cidadão, partido ou veículo de imprensa pode verificar se os dados divulgados são consistentes com o que foi registrado.

A publicação de qualquer pesquisa sem registro é uma infração eleitoral sujeita a multa.

Quais institutos mais se aproximaram do resultado da eleição de 2022?

Nem todos os estudos acertaram o resultado das últimas eleições presidenciais em 2022, que foi de 50,90% x 49,10% para o presidente Lula (PT) contra Jair Bolsonaro (PL).

Os institutos que chegaram mais perto e acertaram dentro da margem de erro de dois pontos percentuais foram o MDA, que estimou 51,1% para Lula e 48,9% para Bolsonaro, Datafolha, Paraná Pesquisas e Quaest.

Os que apontaram a vitória de Lula, mas com resultado acima da margem de erro, foram o Ipec, AtlasIntel, Ipespe e PoderData.

Os principais institutos de pesquisa do Brasil

O Atlas Intel atua na América Latina, incluindo o Brasil. O instituto utiliza recrutamento digital aleatório (Atlas RDR).

O Datafolha foi criado em 1983 e faz parte do Grupo Folha/UOL, sendo financiado pela Folha de S.Paulo. A metodologia é baseada em entrevistas presenciais. O instituto ganhou destaque em 1989, com a volta das eleições diretas no país.

FSBPesquisa/Nexus

Fundado em 2008, o FSB está ligado ao grupo FSB Comunicação. As pesquisas são feitas por telefone.

Futura Inteligência

A Futura Inteligência foi criada em 2005 e passou a realizar pesquisas presidenciais em 2021. Os levantamentos são feitos por telefone.

O Gerp foi fundado na década de 1980 e passou a atuar em pesquisas eleitorais municipais em 2016. Em 2022, realizou sua primeira pesquisa presidencial, com entrevistas por telefone.

O Ideia foi fundado em 2011 e passou a divulgar pesquisas públicas em 2018. Realiza entrevistas por telefone e presenciais.

Fundado em 2021 por ex-diretores do Ibope, o Ipec atua com pesquisas e análises sobre sociedade, comunicação e eleições. Realiza entrevistas presenciais.

O Ipespe foi criado em 1986 por professores e pesquisadores, incluindo Antônio Lavareda, e tem sede em Recife. As pesquisas são feitas por telefone.

Criado em 1988 por professores da Universidade Federal de Lavras, o MDA realiza pesquisas presenciais ou por telefone.

Paraná Pesquisas

O Paraná Pesquisas foi fundado em 1990 e começou a realizar pesquisas presidenciais em 2013.

Fundado em 2017 e ligado ao site Poder360, o PoderData realiza pesquisas com recursos próprios.

A Quaest foi fundada em 2016, em Minas Gerais, e passou a atuar nacionalmente a partir de 2020.

Realiza entrevistas presenciais, com cerca de 2.000 pessoas, e conta com financiamento da Genial Investimentos.

Real Time Big Data

Criado em 2015, o Real Time Big Data realiza pesquisas para emissoras como Record e CNN Brasil.

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