Expectativa de Senado mais à direita em 2027 explica dificuldade de Lula, diz especialista

Por André Martins 14 de Junho de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Expectativa de Senado mais à direita em 2027 explica dificuldade de Lula, diz especialista

A tendência de um Senado mais à direita a partir de 2027 ajuda a explicar a mudança de postura do presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União), e a escalada recente de atritos entre o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o Senado.

Essa é a avaliação de Cristiano Noronha, cientista político da Arko Consultoria, em entrevista à EXAME.

De uma Casa em que o governo encontrava consenso nos dois primeiros anos, o Senado passou a operar como uma trincheira a ser escalada pela articulação política em ano eleitoral, com maior volatilidade na construção de maiorias e aumento do custo político para avanço de pautas prioritárias do Planalto.

Dados do Radar do Congresso mostram que, entre 2023 e 2024, a gestão petista tinha cerca de 80% de alinhamento do Senado às pautas enviadas ou apoiadas pelo governo. Davi Alcolumbre, que na época não era presidente da Casa, também acompanhava as votações governistas.

Agora, pautas como a PEC da Segurança Pública e o fim da escala 6x1, de grande apelo eleitoral, estão paradas e sem previsão de votação.

Da recusa do nome de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal à aprovação de três pautas-bomba com custo de quase R$ 200 bilhões aos cofres públicos, a motivação encontrada é única: perspectiva de poder, diz o cientista político.

Noronha aponta que o ambiente político é influenciado pela expectativa de uma legislatura mais alinhada à direita no Senado em 2027, o que já afeta o comportamento das lideranças da Casa.

Hoje, a maioria dos nomes que lideram pesquisas para o Senado nos Estados são políticos de partidos da direita ou centro-direita.

A projeção de Valdemar da Costa Neto, presidente do PL, é que só o seu partido faça no mínimo 20 nomes. Hoje, são 14. No total, os eleitores vão eleger 54 senadores.

“Como a base bolsonarista no Senado é bastante forte e articulada, e o Davi Alcolumbre também pretende concorrer à reeleição como presidente do Senado, ele sabe que, nas próximas eleições, talvez essa base bolsonarista fique ainda mais forte. Ele está de olho também na própria reeleição”, afirma.

O cientista político destaca também que a adesão às pautas do governo também varia conforme o incentivo eleitoral dos parlamentares. Alcolumbre, por exemplo, não disputará nenhum cargo neste ano.

“O Davi, com essa pauta do governo [fim da 6x1], não tem muita motivação de aderir, porque ele não é candidato”, diz.

Trata-se de um claro contraste com Hugo Motta (Republicanos), que disputará a reeleição para a Câmara neste ano, é claro. O presidente da Câmara acelerou e celebrou a aprovação da pauta.

“Por exemplo, o Hugo Mota é candidato novamente, ele tem que concorrer e precisa ganhar a eleição. Ele acaba tendo uma motivação eleitoral para puxar esse tema. O Davi não tem isso, porque o mandato dele vai até 2030”, diz.

Lula fora da articulação também pesa

Outro fator destacado pelo especialista é a mudança no padrão de articulação do governo Lula em relação a mandatos anteriores, com menor presença direta do presidente nas negociações políticas.

“Sabemos que nesse mandato não é o mesmo Lula de antes, que participava ativamente da articulação política. Isso acaba, de certa forma, contrariando também um pouco o Congresso Nacional”, diz Noronha.

Ele avalia ainda que demandas do Senado nem sempre têm sido plenamente atendidas pelo Executivo, o que alimenta insatisfações internas na Casa.

“O Davi também tentou emplacar alguns nomes em agências reguladoras e tudo mais. Enfim, tem alguns pleitos, algumas demandas que não foram atendidas pelo governo. Isso também acaba gerando uma certa insatisfação na Casa”, afirma.

Para ele, um problema estrutural também explica toda dificuldade. A base governista no Senado é numericamente limitada e depende fortemente de alianças com o Centrão.

“Em primeiro lugar, é importante lembrar o seguinte: a coligação que elegeu o Lula em 2022 só conseguiu eleger 12 senadores. Isso já mostra que a própria base do governo no Senado não é uma base muito ampla. Depende muito de outros partidos, do chamado Centrão”, afirma.

Ele acrescenta que o aumento da autonomia do Legislativo, especialmente via controle orçamentário e emendas parlamentares, alterou o equilíbrio institucional e intensificou a tensão com o Executivo.

“Outro ponto é estrutural também. De uns anos para cá, a autonomia do Legislativo tem aumentado bastante, com controle orçamentário, com a questão das verbas, com as emendas parlamentares e tudo mais. E essa questão das emendas parlamentares acaba colocando o Executivo e o Legislativo em rota de colisão”, diz o cientista político.

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