Fibrasa mira R$ 700 milhões com embalagens para margarina e tinta
A tinta que vai para a parede de uma casa ainda costuma sair da fábrica dentro de uma lata metálica. Mas uma parte desse mercado começa a migrar para baldes plásticos, com alça, menor risco de ferrugem e uso crescente de resina reciclada.
É nessa troca de material que a Fibrasa, empresa de embalagens plásticas da Serra, no Espírito Santo, vê uma das principais avenidas de crescimento para os próximos anos. A companhia, criada há 55 anos pela família Castro, fabrica embalagens para alimentos, tintas, vernizes, impermeabilizantes e outros produtos industriais.
A empresa projeta fechar 2026 com R$ 700 milhões em receita líquida. Para sustentar esse avanço, investiu R$ 150 milhões nos últimos dois anos e já tem mais R$ 120 milhões contratados para os próximos dois. O foco está em aumento de capacidade, redução do peso das embalagens e uso de plástico reciclado nos baldes industriais.
“Fibrasa hoje é uma empresa que deve fechar 2026 com R$ 700 milhões de receita líquida. É uma empresa que tem feito investimentos muito fortes e começa a entrar num ciclo novo de investimento muito voltado para sustentabilidade”, afirma Bernardo Castro, gerente comercial da Fibrasa e integrante da terceira geração da família fundadora.
A meta da empresa é ser, até 2030, uma referência em sustentabilidade no setor de transformação de plástico no Brasil.
Na prática, isso significa usar menos matéria-prima nos potes de alimentos e ampliar o uso de resina reciclada nos baldes para tintas e produtos químicos.
De sacaria de ráfia a embalagens de alimentos e tintas
A Fibrasa nasceu em 1971, no município da Serra. Foi a primeira empresa a se instalar no Civit, o primeiro centro industrial do Espírito Santo. No início, a companhia fabricava sacaria de ráfia, usada para café, grãos, fertilizantes e produtos químicos.
A ráfia também é feita a partir de polipropileno, o mesmo tipo de plástico que segue na base da produção atual da empresa. Cerca de 15 anos depois da fundação, a Fibrasa mudou o rumo do negócio e passou a atuar em dois segmentos que hoje concentram a operação: alimentos e químicos.
“A empresa nasceu fazendo sacaria de ráfia. A gente começou fazendo isso. Mas, 15 anos depois, já migrou para esses segmentos alimentícios e de químicos”, afirma Castro.
Hoje, a companhia tem duas plantas industriais, uma no Espírito Santo e outra em Pernambuco. O escritório administrativo fica em São Paulo. A operação atende clientes no Brasil e em outros países da América Latina, como Argentina, Uruguai, Paraguai, Chile e Bolívia.
A Fibrasa atua apenas no mercado B2B, ou seja, vende para outras empresas. Seus clientes são indústrias de alimentos, tintas, vernizes, impermeabilizantes, químicos e distribuidores.
“O nosso cliente é 100% indústria”, afirma Castro.
Fábrica da Fibrasa, em Serra, no Espírito Santo: expansão sem aportes nem aquisição de concorrentes (Divulgação/Divulgação)
O que a Fibrasa fabrica
A produção da Fibrasa se divide em duas frentes.
A primeira é a de embalagens termoformadas. São potes e copos de paredes mais finas usados em alimentos como margarina, manteiga, requeijão, iogurte e outros produtos que aparecem nas gôndolas de supermercados.
A segunda é a de embalagens injetadas. Nessa linha entram os baldes industriais usados por fabricantes de tintas, vernizes, impermeabilizantes e outros produtos químicos.
“A gente faz embalagem, mas dentro de embalagem faz duas coisas: termoformados e injetados. Termoformado é tudo que você vê na gôndola do supermercado para alimento. O outro lado são embalagens injetadas, que são os baldes industriais”, afirma Castro.
Segundo o executivo, a Fibrasa responde por cerca de um quarto da demanda brasileira nesses dois mundos: potes termoformados e baldes industriais.
A empresa estima que, direta ou indiretamente, embalagens como as que fabrica chegam a quase todos os lares brasileiros. Para a companhia, essa presença amplia a responsabilidade sobre o uso de material, descarte e reciclagem.
“A gente acredita que 99,9% dos lares brasileiros deve ter alguma embalagem que a gente faz ou um concorrente nosso faz. Tem uma responsabilidade muito grande”, afirma Castro.
A troca da lata pelo balde plástico
No mercado de tintas, a Fibrasa vê uma mudança em curso. Parte das embalagens ainda é feita de lata metálica. Mas os baldes plásticos vêm ganhando espaço.
Segundo Castro, o balde custa menos, não enferruja, pode ser carregado pela alça e tem menor pegada de carbono do que a lata. Esse movimento abre espaço para a empresa crescer no setor químico e de construção.
“A maioria das embalagens de tinta no Brasil ainda é envasada em lata metálica. Só que o balde é mais barato, não enferruja, tem uma pegada de carbono menor e, no tempo, está substituindo a lata”, afirma Castro.
O executivo também aponta o uso como uma vantagem. Uma lata de tinta não tem alça do mesmo tipo e pode oxidar. O balde plástico mantém a apresentação por mais tempo e facilita o transporte.
“Você já pegou uma lata para carregar? Não tem onde pegar. É ruim. Pega o balde, você pega a alça e já era”, afirma Castro.
Essa frente cresce em torno de 7% a 8% ao ano, segundo o executivo. Para a Fibrasa, é uma das principais fontes de expansão, porque combina aumento de demanda, troca de material e nova regulação sobre uso de plástico reciclado.
Baldes com resina reciclada
A agenda de reciclagem muda conforme o tipo de embalagem.
Em alimentos, a Anvisa não permite o uso de resina reciclada em embalagens que ficam em contato direto com comida. Por isso, a Fibrasa trabalha nessa linha com redução de peso.
Nos baldes de tintas e produtos químicos, o cenário é diferente. O uso de material reciclado é permitido. Além disso, uma nova regra passou a exigir que essas embalagens tenham ao menos 22% de resina pós-consumo reciclada a partir de 2026.
Castro afirma que a Fibrasa já consegue produzir baldes com 100% de resina reciclada, mantendo a mesma função técnica de um balde feito com resina virgem.
Menos plástico no pote de margarina
Na linha de alimentos, a principal aposta da Fibrasa é reduzir a quantidade de plástico usada em cada embalagem sem alterar a função do produto.
O projeto recebeu o nome de “Menos é Mais”. A ideia é diminuir a gramatura, ou seja, o peso da embalagem, mantendo a mesma resistência, empilhamento, transporte e aparência na gôndola.
Um dos exemplos é o pote de margarina Primor, marca da Seara. A embalagem de 250 gramas pesava 9 gramas. Agora, pesa 8 gramas. A redução de 1 grama parece pequena, mas representa 12% a menos de plástico naquele pote.
“A gente fez com esse pote uma redução de 9 gramas para 8 gramas. Parece pouca coisa, 1 grama, mas nesse SKU dessa marca isso significa 11 milhões de potes retirados do meio ambiente”, afirma Castro.
Segundo a Fibrasa, se a redução for aplicada a todos os grandes clientes de margarina atendidos pela empresa, o potencial é retirar 100 milhões de embalagens por ano do meio ambiente, o equivalente a 2.000 toneladas de plástico.
O mercado brasileiro de potes de margarina de 250 gramas é estimado pela empresa em 1,2 bilhão de embalagens por ano.
“Se você leva isso para o mercado de margarina todo, a gente estima que consiga retirar 100 milhões de embalagens por ano. Isso é o equivalente a 2.000 toneladas de plástico, com o consumidor consumindo a mesma quantidade de margarina”, afirma Castro.
Requeijão com menos peso
Outro exemplo está nas embalagens de requeijão. Nesse caso, a empresa trabalha na troca do processo injetado pelo termoformado. A mudança permite reduzir o peso da embalagem em até 32%, segundo Castro.
A conta importa porque a resina plástica representa perto de 60% do custo de uma embalagem. Menos peso significa menor uso de matéria-prima e menor custo para a indústria que compra o pote.
“Na transformação de plástico para embalagem, matéria-prima é perto de 60% do consumo. Então, você reduzir 32% traz um fator de competitividade enorme para os nossos clientes”, afirma Castro.
Esse ponto ajuda a explicar por que a sustentabilidade também virou uma pauta de negócios. Para a Fibrasa, usar menos plástico não é apenas uma forma de reduzir impacto ambiental. É também uma forma de entregar embalagens mais baratas para fabricantes de alimentos.
“O cliente vai ter as duas coisas. Vai ter sustentabilidade, mas vai ter uma embalagem que performa igual e é mais barata também”, afirma Castro.
Como a empresa cresceu sem aquisições
A Fibrasa chegou ao porte atual sem comprar concorrentes. Segundo Castro, o crescimento foi 100% orgânico.
“Nós nunca fizemos nenhuma aquisição. É 100% crescimento orgânico”, afirma.
O executivo aponta dois fatores que ajudaram a empresa a crescer: qualidade e confiabilidade industrial. Como vende para fábricas, a embalagem precisa funcionar dentro de linhas de produção de alta escala. Um defeito ou atraso pode parar envase, transporte e entrega.
“A nossa embalagem precisa performar dentro da indústria. A gente não pode ter desabastecimento de clientes nossos”, afirma Castro.
O segundo ponto é a proximidade com os clientes. A Fibrasa tenta acompanhar as demandas das indústrias, antecipar mudanças e desenvolver soluções em conjunto.
“A gente busca ser um fornecedor muito próximo, de maneira compulsiva dos nossos clientes, para entender as demandas mais rápido e buscar soluções. Às vezes é uma solução que o cliente nem sabe que precisa”, afirma Castro.
Em um mercado de embalagens com pressão por preço, a empresa diz que competitividade é apenas o ponto de partida. Para seguir na carteira de grandes clientes, precisa entregar no prazo, sem falhas e com produto adequado à linha industrial.
“Ser competitivo e ter o preço mais barato não é garantia de sucesso nesse mercado. No fim do dia, você precisa ter qualidade superior, os clientes precisam confiar no seu trabalho e você precisa estar próximo do cliente”, afirma Castro.
A família Castro no comando
A Fibrasa é uma empresa familiar capixaba. Foi fundada por Sérgio Souza Rogério de Castro, empresário que também teve atuação institucional e política no Espírito Santo. A segunda geração da família seguiu na gestão, e a terceira já participa da operação.
Bernardo Castro, gerente comercial, é neto do fundador. Também atua como diretor administrativo-financeiro do Sindiplast-ES, sindicato das indústrias de transformação plástica do Espírito Santo.
“Sou gerente comercial e faço parte da terceira geração na Fibrasa. É uma empresa que foi fundada pelo meu avô há 55 anos”, afirma Castro.
A presença da família também aparece na relação da empresa com o setor industrial capixaba. A Fibrasa participa de discussões sobre plástico, economia circular, reciclagem e desafios de reputação do setor.
O desafio de imagem do plástico
A indústria de transformação plástica tem peso relevante na economia brasileira. Segundo Castro, o setor reúne mais de 12.000 empresas e gera quase 400.000 empregos diretos no país.
Ao mesmo tempo, enfrenta pressão pelo impacto ambiental do plástico e pelo descarte incorreto. Para a Fibrasa, esse contexto exige investimento em tecnologia e metas mais claras.
“A indústria plástica é a quarta maior empregadora de toda a indústria brasileira. São quase 400.000 empregos diretos e mais de 12.000 empresas no Brasil. É um setor relevante, que tem desafios de reputação e de tecnologia”, afirma Castro.
A meta de 2030 da Fibrasa nasce desse contexto. A empresa quer combinar redução de plástico em alimentos, reciclagem nos baldes industriais e novos investimentos em máquinas, moldes e processos.
“O nosso objetivo é até 2030 ser a companhia líder em sustentabilidade dentro da transformação em plástico no Brasil”, afirma Castro.
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