Fim da escala 6x1 e guerra pressionam custos e prazos de imóveis, diz CBIC
O avanço da proposta que prevê o fim da escala 6x1, a alta nos custos de insumos em meio às tensões no Oriente Médio e a indefinição sobre a regulamentação da Reforma Tributária entraram no radar de preocupação do setor imobiliário brasileiro. Apesar dos resultados positivos do mercado no 1° trimestre de 2026, representantes do setor e da construção civil alertaram nesta segunda-feira, 25, que esses fatores podem pressionar preços, atrasar entregas de empreendimentos e comprometer novos lançamentos a partir de 2027.
As preocupações foram apresentadas durante a divulgação do estudo Indicadores Imobiliários Nacionais, realizado trimestralmente pela Câmara Brasileira da Indústria da Construção (Cbic) em parceria com a Brain Inteligência Estratégica, com apoio técnico do Sindicato da Habitação do Estado de São Paulo (Secovi-SP) e correalização do Serviço Social da Indústria (Sesi).
O levantamento, que completa dez anos de série histórica, monitora o mercado imobiliário em 221 cidades, incluindo todas as capitais e principais regiões metropolitanas do país.
À imprensa, os representantes do setor afirmaram que os impactos inflacionários da crise internacional já começam a atingir a cadeia da construção. As entidades calculam que o Índice Nacional de Custo da Construção (INCC), acumulado em cerca de 6% nos últimos 12 meses, pode alcançar 9% diante da alta nos preços de materiais como cimento, concreto, argamassa e PVC.
"O mercado vai muito bem, mas isso não nos tira a obrigação de falar das preocupações", afirmou Eduardo Aroeira, presidente executivo da Cbic.
Segundo Aroeira, a guerra iniciada no dia 28 de fevereiro após ataques coordenados dos Estados Unidos e Israel contra o Irã, e que completa nesta quinta, 28, três meses, "já provou aumento relevante nos custos de insumos básicos da construção, pressionando diretamente o setor".
Redução da jornada pode elevar em até 10% o custo total de imóveis do MCMV, dizem representantes
O mercado imobiliário e de construção também vê com preocupação o avanço da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que prevê a redução da jornada semanal de trabalho de 44 para 40 horas e o fim da escala 6x1.
Segundo Petrucci, atualmente há entre 800 mil e 1 milhão de unidades em produção no país, a maioria já comercializada com preço e prazo de entrega definidos em contrato. Para o conselheiro do Cbic e economista, uma eventual implementação rápida da mudança trabalhista poderia comprometer cronogramas e elevar custos dos empreendimentos.
Aroeira afirmou que estudos realizados pela entidade apontam que a redução da jornada poderia elevar em até 10% o custo total de imóveis do programa Minha Casa, Minha Vida. Segundo o presidente da Câmara Brasileira, o impacto não se limitaria ao setor habitacional, mas também poderia atingir obras de hospitais, creches e outros projetos de infraestrutura social ligados à construção civil.
"O nosso estudo aponta que seriam necessários cerca de 288 mil novos trabalhadores para compensar a redução da carga horária na construção civil. O problema é que a mão de obra já está pressionada. Nos últimos dois meses, o custo do trabalho no setor subiu o dobro da inflação medida pelo IPCA", afirmou.
Setor é contrário à redução do INSS para compensar fim da escala 6x1
Outro ponto de preocupação envolve propostas em discussão no Congresso que sugerem reduzir de 8% para 4% a alíquota da contribuição patronal ao Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) como forma de compensar os custos da mudança na jornada de trabalho.
Representantes do setor imobiliário se posicionaram contra a medida. Segundo Aroeira, a redução da contribuição poderia enfraquecer justamente o fundo responsável por financiar programas habitacionais, como o Minha Casa, Minha Vida, além de projetos de saneamento básico.
"O FGTS já sofre ataques constantes para outros tipos de despesa. Precisamos preservar o FGTS", afirmou.
Vice-presidente da Cbic, Ely Wertheim, também criticou a proposta e afirmou que qualquer mecanismo compensatório já reconhece, na prática, que haverá aumento de custos para as empresas.
Segundo o também presidente executivo do Secovi-SP, além da falta de mão de obra treinada, parte dos trabalhadores da construção recebe por produtividade e poderia sofrer perda de renda com a redução da jornada.
"O trabalhador brasileiro não quer trabalhar menos não, ele quer viver melhor, como todo mundo. O que ele não quer é ficar duas horas dentro de um ônibus, ele quer morar perto do trabalho. E isso é um outro tema mais complexo", afirmou Wertheim.
A regulamentação da Reforma Tributária também apareceu entre os principais pontos de atenção do setor. Segundo os representantes da Cbic, a ausência de regras claras dificulta a modelagem financeira de novos empreendimentos, especialmente aqueles previstos para lançamento a partir de 2027.
Wertheim afirmou que o problema não é apenas regulamentar a reforma, mas garantir uma regulamentação "clara, objetiva e factível". Segundo o vice-presidente, o mercado ainda não dispõe sequer de sistemas e softwares adaptados ao novo modelo tributário.
Estudo mostra mercado imobiliário resiliente
Apesar das preocupações, os dados do estudo mostram um mercado imobiliário ainda resiliente, sustentado principalmente pelo programa Minha Casa, Minha Vida, mesmo em um cenário de juros elevados.
No primeiro trimestre de 2026, foram vendidas 110.722 unidades residenciais no país, alta de 4,1% em relação ao mesmo período de 2025. No acumulado de 12 meses, as vendas somaram 438.012 unidades.
Já os lançamentos totalizaram 97.802 unidades no trimestre, queda de 4,9% na comparação anual e retração de 32,1% frente ao último trimestre de 2025 — movimento considerado sazonal para o início do ano. O Valor Geral de Vendas (VGV) movimentado pelo setor atingiu R$ 65,9 bilhões no período, leve alta de 0,5% sobre o primeiro trimestre do ano passado.
O estoque disponível encerrou março em 350.891 unidades, avanço de 8,2% em relação a 2025, com tempo médio estimado de escoamento de dez meses.
Principal motor da atividade, o Minha Casa, Minha Vida respondeu sozinho por 49% de todas as vendas realizadas no país no trimestre, com 54.510 unidades comercializadas. O programa também apresentou ritmo de vendas mais acelerado, com prazo médio de escoamento de estoque de 7,6 meses.
O levantamento também mostrou que 49% dos entrevistados declararam intenção de comprar um imóvel nos próximos 24 meses. A preferência é por casas de rua, escolhidas por 47% dos consumidores, enquanto apartamentos aparecem com 35%. Entre os principais motivos para a compra estão deixar de pagar aluguel, citado por 38% dos entrevistados, sair da casa dos pais (12%) e a busca por imóveis maiores ou upgrade habitacional (12%).
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