Fluxo gringo na B3 cresce apesar da Guerra e Brasil vira 'porto seguro'

Por Clara Assunção 25 de Março de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Fluxo gringo na B3 cresce apesar da Guerra e Brasil vira 'porto seguro'

Apesar da aversão ao risco global após a eclosão do conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã, a bolsa brasileira está vivendo um "momento excepcional", segundo o JP Morgan.

Em relatório intitulado de "Quem diria? Entradas em alta", o maior banco do mundo destaca o desempenho do Brasil apontando que, mesmo em meio ao fortalecimento do dólar, à alta das curvas de juros e à retirada de cerca de US$ 8 bilhões de mercados emergentes, como um todo desde o início da guerra, em 28 de fevereiro, o país segue na contramão.

Os fluxos estrangeiros para ações domésticas somaram quase US$ 7 bilhões em março até o último dia 19, elevando o total no ano para R$ 48,5 bilhões, cerca de US$ 9,2 bilhões, de acordo com os analistas do banco americano.

O volume coloca 2026 como o segundo melhor ano da série histórica em termos de entrada de capital estrangeiro, atrás apenas de 2022, quando o Brasil foi beneficiado por uma realocação global após a crise na Rússia, impulsionada pelo peso das commodities no índice.

"É simplesmente extraordinário o fato de o Brasil estar recebendo fluxos em um momento de aversão ao risco global", afirma a equipe de estratégia em ações para América Latina e Brasil do banco americano, liderada por Emy Shayo Cherman.

"Essa situação reforça nossa visão de que, dentro dos mercados emergentes, a América Latina é um porto seguro e, dentro da América Latina, o Brasil é o país mais bem posicionado. Esses fluxos permitiram que o Brasil estivesse entre os mercados com melhor desempenho tanto no acumulado do ano quanto no mês", acrescenta o JP Morgan.

A consistência dos fluxos também chamou atenção dos analista. Dos 14 dias de março com dados disponíveis, apenas três registraram saídas de recursos, ainda que entre o primeiro pregão após a eclosão da guerra, em 2 de março, o índice caiu de 189.308 pontos para 180.271 pontos — uma baixa de aproximadamente 4,77%.

Goldman Sachs vê emergentes em risco

O Goldman Sachs alerta, no entanto, que o cenário que beneficiou o Brasil até agora pode estar mudando.

O banco de investimento disse nesta terça-feira, 24, que, até o momento, o choque do petróleo — que já elevou os preços da faixa de US$ 60–70 para cerca de US$ 100, acumulando alta superior a 50% desde o início da guerra — vem sendo interpretado majoritariamente como um vetor inflacionário.

Esse tipo de choque tende a beneficiar exportadores de commodities, como o Brasil, ao melhorar termos de troca e atrair capital. Nesse ambiente, o aperto das condições financeiras globais é liderado por juros, o que fortalece o dólar de forma ampla, tanto frente a moedas de países desenvolvidos quanto emergentes.

Mas o Goldman chama atenção para uma possível virada de chave.

Com o prolongamento do conflito, das disrupções associadas e da alta do petróleo, o mercado pode passar a precificar não apenas inflação mais alta, mas também uma desaceleração do crescimento global. E essa mudança de foco altera de forma relevante o comportamento dos ativos.

Se o aperto financeiro continuar sendo guiado pelos juros, o impacto tende a ser mais difuso. Mas, se passar a ser liderado pelas ações, refletindo medo de recessão, o padrão muda: moedas de refúgio, como o iene japonês (JPY) e o franco suíço (CHF), ganham força, enquanto ativos cíclicos e mercados emergentes passam a sofrer perdas mais acentuadas.

"Os mercados emergentes começariam a apresentar um desempenho inferior de forma mais significativa", afirma Isabella Rosenberg, do Goldman Sachs. Isso ocorre porque, nesse tipo de choque, há uma fuga mais intensa de capital de ativos considerados de maior risco, categoria na qual os emergentes estão entre os primeiros a serem penalizados, segundo o banco.

Ibovespa pode encontrar suporte no corte de juros, diz JP Morgan

O próprio JP Morgan reconhece que se, de um lado o Brasil se destaca como exceção positiva, com fluxos robustos mesmo em um ambiente global adverso, do outro, essa resiliência pode ter limites. "Se o cenário se deteriorar e as saídas de capital dos mercados emergentes persistirem nas próximas semanas, será difícil para a América Latina manter uma tendência forte", dizem os analistas.

Por ora, o pano de fundo ainda oferece suporte. Na visão do banco americano, a continuidade do ciclo de cortes de juros à frente pode funcionar como um vetor adicional para a bolsa brasileira.

Na semana passada, o Banco Central do Brasil cortou 0,25 ponto percentual da taxa básica de juros, a Selic, elevando para a faixa de 14,75% ao ano contra 15%, o primeiro corte em dois anos. Na prática, o afrouxamento monetário pode abrir espaço para recomposição de posições em renda variável e sustentar o fluxo para o Ibovespa, segundo o JP Morgan.

O banco americano e projeta que as taxas de juros encerrem o ano em torno de 11,75% para os vencimentos de 2026 e 10% para os de 2027. "Isso é importante não apenas para o setor local — que vem passando por dificuldades há muito tempo, com alocação em ações em 8,3% contra uma média de 11% —, mas também para as empresas, especialmente as alavancadas", diz o JP Morgan.

"As eleições estão se aproximando e devem começar a afetar os mercados, embora a magnitude desse impacto permaneça incerta. No geral, é uma história que se desenrola dia a dia, mas no Brasil, até agora, tudo bem", conclui.

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