FMI projeta que alimentos devem ficar mais caros e subir até 10% em 2027
O preço da comida vai subir no mundo — e pode avançar até dois dígitos nos próximos anos. O diagnóstico é do Fundo Monetário Internacional (FMI), que aponta uma pressão crescente sobre alimentos impulsionada pela alta da energia e dos fertilizantes no relatório World Economic Outlook divulgado nesta terça-feira, 14.
Os números mostram que o cenário pode piorar. Em simulações mais adversas, os preços de alimentos podem subir 2,5%. Já em um cenário severo, a alta pode chegar a 5% em 2026 e 10% em 2027.
Segundo o documento, a alta não é hipótese: ela já está contratada. É esperado que os preços da comida subam", diz o relatório, com impacto direto sobre o custo de vida global.
O aumento no preços dos alimentos acontece em meio a um cenário de caos na geopolítica global, com guerra no Irã, que pressiona, principalmente, energia e fertilizantes, dois insumos essenciais para a produção da comida no mundo. No Brasil, que depende de 85% da importação de fertilizantes o impacto é direto.
A alta constante do preço das commodities foi captada pelo FAO Food Price Index, um indicador do departamento das Nações Unidas para Alimentação que monitora o preço dos principais alimentos ao redor do mundo.
Esse índice determinou o preço médio dos alimentos entre 2014 e 2016 como base, de valor 100. Desde outubro de 2020, o indicador nunca mais ficou abaixo de 100 e teve recorde em 2022, quando bateu em 160,2, no começo da guerra contra a Ucrânia. Em março deste ano, fechou em 128,5 — 7,4 pontos a mais do que em março de 2024.
A pressão dos alimentos já aparece nas projeções de inflação. O FMI estima que a inflação global alcance 4,4% em 2026, puxada principalmente por energia e comida, antes de recuar em 2027.
Por trás disso está um choque mais amplo nas commodities. Os preços de energia devem subir 19% em 2026, com o petróleo avançando 21,4% — esse aumento é o ponto de partida da alta dos alimentos.
Em 2020, a pandemia trouxe entraves para a produção e distribuição de comida, mas outro fator impactou o mercado.
Como não havia atividades externas disponíveis, como viajar ou ir ao cinema, as pessoas acabaram gastando mais com comida. Além disso, governos, como do Brasil e dos Estados Unidos, deram dinheiro extra para as pessoas, em forma de benefícios emergenciais.
Os dois fatores geraram alta na demanda, em um momento de restrições de suprimentos, o que gerou aumento de preços. Dois anos depois, em 2022, quando os problemas de distribuição ainda estavam sendo resolvidos, a Rússia invadiu a Ucrânia.
No final de fevereiro deste ano, os EUA e Israel atacaram o Irã, o que mergulhou o mundo em uma posição de vulnerabilidade, uma vez que o Oriente Médio é um dos principais produtores de fertilizantes do mundo, e o novo choque gerou a alta recorde de preços.
O relatório do FMI não traz um número fechado para a alta dos fertilizantes, mas deixa claro o mecanismo: eles estão mais caros e são um dos principais vetores da inflação alimentar.
O FMI afirma que os alimentos sobem por causa de “preços mais altos de energia e fertilizantes”, conectando diretamente o custo da energia à produção agrícola.
Além disso, o órgão alerta para riscos adicionais. “Disrupções nos mercados de fertilizantes antes da temporada de plantio” podem agravar ainda mais o cenário. Sem fertilizante barato, produzir comida fica mais caro — e isso aparece no preço final e também na tomada de decisão dos produtores.
Um estudo da Universidade de Purdue, nos Estados Unidos, divulgado na última sexta-feira, 10, mostra que o aumento dos preços dos fertilizantes e o risco de interrupção no fornecimento estão forçando produtores a rever planos em pleno início das decisões para a safra 2026/27, que começa em 1º de julho.
No caso do Irã, o país é um dos principais fornecedores globais de ureia, muito utilizado no plantio do milho. Desde o início do conflito, os preços da ureia acumulam alta de 61% no Brasil, o que tem gerado resistência dos compradores, mostra a StoneX.
Países mais pobres
O choque deve atingir com mais força países importadores de alimentos e insumos agrícolas. Nessas economias, a alta internacional se soma à desvalorização cambial, ampliando o custo de importação.
O próprio FMI diz que economias mais vulneráveis tendem a sofrer mais com o avanço dos preços de energia e alimentos, o que pode pressionar renda e consumo.
Para a economia global, o FMI aponta que o conflito no Oriente Médio piora as perspectivas de crescimento e de inflação.
"Após resistir a barreiras comerciais mais elevadas e à crescente incerteza no ano passado, a atividade global enfrenta agora um grande desafio com o início da guerra no Oriente Médio. Supondo que o conflito permaneça limitado em duração e alcance, projeta-se que o crescimento global desacelere para 3,1% em 2026 e 3,2% em 2027", diz o Fundo.
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