'Forças do céu parecem estar apoiando Milei', diz analista
O presidente da Argentina, Javier Milei, enfrenta uma sequência de semanas difíceis, com alta da inflação e um escândalo de corrupção, mas deverá ter boas notícias à frente, avalia o analista político Juan Carranza.
"Existem fatores que estão contribuindo para a recuperação da atividade econômica. As forças do céu parecem estar apoiando Milei. A colheita de dezembro foi muito boa; o clima está ajudando bastante a agricultura e setor energético, porque parece que teremos um inverno não tão rigoroso. Considerando o que está acontecendo no Irã, que está pressionando os preços do GNL (gás natural liquefeito) — GNL que a Argentina ainda precisa importar —, parece que não será preciso importar tanto", diz Carranza, que integra a consultoria Aurora Macro Strategies, à EXAME.
Nesta semana, Milei também teve uma boa notícia na economia. A inflação de abril fechou em 2,6%, depois de atingir 3,4% em março e acumular 10 meses seguidos de alta, o que vinha pressionando sua taxa de aprovação, que anda em torno de 37%.
Além da economia, Milei é pressionado por denúncias. Manuel Adorni, seu chefe de gabinete, é investigado por enriquecimento ilícito e por ter feito negócios pouco usuais, como a compra de um apartamento por um preço muito baixo. Carranza avalia, no entanto, que o principal desafio do governo vem da economia. Veja mais trechos a da conversa a seguir.
Como avalia o momento atual de crise de popularidade do governo Milei?
Primeiramente, este não é pior momento da taxa de aprovação de Milei. Foi pior em setembro de 2025, antes das eleições de meio de mandato. Não é o pior número de Milei, embora a tendência seja de queda. É o quarto mês consecutivo em que seus índices de aprovação estão caindo, especialmente depois de um verão muito bem-sucedido para Milei no Congresso. Ele aprovou leis, foi um verão perfeito, e ele consolidou todo esse apoio político e eleitoral no Congresso.
Analisando um pouco mais a fundo os índices, as áreas onde isso é observado — e acho que isso também é um reflexo fiel da economia, do modelo econômico de Milei — a queda mais acentuada é vista na Grande Buenos Aires, onde se concentram a indústria e o setor manufatureiro, onde o consumo é mais alto e onde vive a maior parte da população. A população está em melhor situação em outras províncias.
Há perspectivas de melhoria na economia?
Existem fatores que estão contribuindo para a recuperação da atividade econômica. As forças do céu parecem estar apoiando Milei. A colheita de dezembro foi muito boa; o clima está ajudando bastante a agricultura e setor energético, porque parece que teremos um inverno não tão rigoroso. Considerando o que está acontecendo no Irã, que está pressionando os preços do GNL (gás natural liquefeito) — GNL que a Argentina ainda precisa importar —, parece que não será preciso importar tanto.
A inflação tem acelerado um pouco. Em maio, estava em 1,5%, bem, em março, chegou a 3,4%. Em abril, foi de xx Isso está afetando as percepções econômicas. Mas, presume-se que, com dólares disponíveis, a economia está sendo reativada, que as taxas de juros estão caindo, que haverá crédito, e presume-se que isso pelo menos estanque a queda.
Há uma heterogeneidade da economia argentina. Os setores agrícolas, de mineração, petróleo e gás puxam a atividade econômica, o consumo e a indústria; sofrem.
Como avalia a gestão de Milei frente ao aumento global do petróleo?
Os preços estão subindo, o bolso do cidadão comum está sendo afetado. Você analisa o que Milei fez e percebe três coisas. Primeiro, a YPF, empresa dominante em todos os setores de energia, é 51% controlada pelo governo federal, 25% pelas províncias e o restante é de propriedade privada. Eles congelaram os preços nos postos de gasolina. Sempre houve uma política de garantir que os preços da energia, especialmente da gasolina, acompanhassem o preço do barril de petróleo, e por causa desta crise, eles congelaram os preços. Isso está em vigor até 17 de maio. Portanto, não estamos falando de um presidente que está seguindo estritamente os mercados.
Milei fez outras coisas também: aumentou o imposto sobre combustíveis e modificou a resolução técnica que autoriza a mistura de etanol com gasolina para que o impacto do petróleo não seja tão significativo em termos de preços e, portanto, de inflação.
O outro lado da moeda é que a Argentina não precisa importar petróleo hoje porque já tem excedente de energia; está exportando petróleo. Isso também beneficiará as finanças públicas, especialmente as províncias, por causa dos royalties que receberão.
Trump deu grande apoio a Milei no ano passado. Como esta relação pode ajudar a Argentina agora?
Isso foi muito importante naquela época [em outubro], principalmente porque acalmou a desvalorização da moeda. Isso também se refletiu no apoio aos danos políticos causados por Trump e enviou um sinal, principalmente para a oposição política
Você vê muitos funcionários do governo Trump indo a Buenos Aires, muita atividade, acordos comerciais que Trump assinou com países da região. A Argentina tem tido bons termos nesses acordos comerciais, mas eu diria que não é tão relevante em termos de percepção pública. O dia a dia tem prioridade. Assim, esse apoio geopolítico não é tão considerado diretamente.
Como avalia a atuação da oposição neste momento?
A oposição conseguiu ter um discurso mais forte com duas coisas. Primeiro, toda essa situação de como os bens do chefe de gabinete [Manuel] Adorni estão sendo investigados, isso tem sido uma desculpa para atacar Milei. Então, depois de um verão positivo após as eleições de meio de mandato, isso energizou um pouco a oposição e diminuiu o ímpeto que Milei tinha no Congresso, que está com pouquíssima atividade legislativa.
Também há algo muito interessante acontecendo dentro do Peronismo. Durante os dois primeiros anos, Milei enfrentou uma oposição unificada do Peronismo, liderada pelo Kirchnerismo (movimento da ex-presidente Cristina Kirchner). Como consequência da vitória em outubro, o Peronismo entrou em uma fase em que começaram as disputas de liderança.
Além disso, Cristina Kirchner está em prisão domiciliar e não pode ocupar cargos públicos. Portanto, a influência que ela tinha para ameaçar outras figuras peronistas — de que ela poderia ser candidata porque seus índices de aprovação são significativos, e ainda são — não existe mais.
Portanto, existem tensões crescentes em torno do futuro do peronismo, e alguns setores do peronismo em Buenos Aires, que não quiseram concorrer nas eleições, e alguns setores da indústria do turismo no interior do país estão começando a tentar construir algo diferente do peronismo. Um ponto de partida para isso é,”temos que ser macroeconomicamente responsáveis”.
Há outras tendências políticas ganhando força no país?
Quando você olha para os índices de aprovação — veja a última pesquisa Atlas Intel — vê que a figura política com o maior índice de aprovação não é do peronismo, não é Milei. É Miriam Bregman, uma congressista de esquerda.
A esquerda na Argentina é forte nas universidades, mas não é forte em nenhum sindicato ou na política, e isso porque, quando o peronismo surgiu, ele canibalizou a esquerda. Perón costumava dizer: "Nem ianques, nem norte-americanos, nem marxistas, peronistas." Perón era profundamente anticomunista. Isso impediu o crescimento da esquerda. Mas agora, a esquerda está crescendo. As pessoas veem nas pesquisas que a oposição mais forte à Milei, e, portanto, aqueles com os maiores índices de aprovação na esquerda, são da esquerda pura — uma novidade nesse aspecto.
E depois há Axel Kicillof, o governador da província de Buenos Aires, que parece ser o principal candidato peronista em 2027. Há incentivos para o peronismo se deslocar para a esquerda. Essa questão com Miriam Bregman pressiona-os e pode até validar a posição de Axel Kicillof de permanecer nesse espaço, de não fazer concessões, nem mesmo em relação à ordem fiscal que Milei trouxe. Acho que esse é um elemento fundamental para entender a oposição, para entender o peronismo e como o peronismo se movimentará na corrida para a eleição de seu candidato para 2027. Talvez seja cedo demais para se mover para o centro.
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