Fusão cria empresa de conservação e transporte de obras de arte; meta é crescer 80%
A falta de espaço e de estrutura técnica virou um gargalo para museus e colecionadores no Brasil. No mercado de arte, armazenar obras com controle de temperatura, umidade e segurança é parte central da operação.
De olho nesse setor, nasceu a Clé, em 2013, para atuar na chamada reserva técnica, área especializada na conservação de obras de arte. Agora, a companhia prepara a fusão com a ArtQuality, de transporte de obras de arte, para formar a Clê Chenue do Brasil, reunindo armazenagem e logística em uma única operação.
O movimento acontece em meio à expansão do mercado de arte brasileiro. Segundo dados da Art Basel e da UBS Global Art Market Report, as galerias brasileiras cresceram 21% em 2025.
Para a expansão, a empresa investiu R$ 17 milhões, valor que inclui a inauguração mais um espaço de reserva técnica de 2.000 m², em São Paulo, já que o antigo estava lotado.
“Hoje os museus e os colecionadores entenderam a importância dessa mudança de mentalidade. Antigamente existia dificuldade de convencer sobre a necessidade de guardar obras com qualidade”, afirma Diogo Mantovani, CEO da Clé.
A nova estrutura deve ampliar os serviços oferecidos aos clientes, incluindo monitoramento remoto de temperatura e umidade, câmeras individuais para colecionadores e espaços de trabalho anexos aos acervos para equipes de museus.
A criação do negócio
A origem da Clé começa antes da fundação da empresa. Segundo os executivos, o movimento nasceu após grandes exposições internacionais no Brasil, como a mostra de impressionismo realizada entre 2012 e 2013 em São Paulo e no Rio de Janeiro.
Na época, a logística das obras envolveu a André Chenue, empresa francesa de transporte de arte com mais de 260 anos de história e responsável por movimentar acervos de museus internacionais.
O contato com o mercado brasileiro levou o grupo francês enxergar espaço para criar uma estrutura de conservação local – e abrir uma empresa em parceria com brasileiros.
“O Brasil tinha mercado, museus grandes e coleções relevantes, mas ainda estava muito distante do padrão técnico internacional de conservação”, afirma Mantovani.
O primeiro espaço da empresa foi inaugurado em São Paulo, com 5.500 metros quadrados. A empresa trabalha com controle de temperatura próximo de 20 °C e umidade relativa em torno de 50%, parâmetros usados internacionalmente para reduzir riscos de fungos, pragas e deterioração das obras.
Fusão formaliza operação integrada
A fusão entre a Clé e a ArtQuality formaliza uma integração que, na prática, já acontecia há anos. As duas empresas operavam no mesmo espaço físico desde 2017 e atendiam clientes em conjunto, combinando armazenagem, conservação e transporte de obras de arte.
Agora, a estrutura passa a operar sob uma única marca: Clé Chenue do Brasil. A mudança busca reduzir a fragmentação da operação para museus, galerias e colecionadores privados, concentrando serviços de logística, embalagem, transporte, conservação e catalogação em uma única empresa.
“Entendemos que era importante diminuir essa confusão para os clientes e atuar como um único interlocutor”, diz Mantovani.
A fusão chega junto a inauguração de uma nova unidade em São Paulo. O projeto recebeu investimento de R$ 17 milhões e deve ampliar a capacidade operacional da companhia, hoje próxima do limite de ocupação.
A nova estrutura deve incluir serviços digitais voltados aos clientes, como monitoramento remoto de temperatura e umidade dos acervos, além de câmeras individuais para acompanhamento das obras armazenadas.
A expectativa é crescer 80% nos próximos cinco anos, impulsionada pela expansão do mercado de arte brasileiro e pelo avanço da demanda de colecionadores privados.
O problema invisível dos museus brasileiros
Boa parte dos museus brasileiros enfrenta dificuldades para manter reservas técnicas adequadas dentro dos próprios prédios. Segundo dados do Conselho Internacional de Museus, 63% dos museus da América Latina operam com condições de armazenagem consideradas inadequadas.
O problema envolve desde prédios históricos até custos operacionais. “Muitos museus estão em imóveis tombados. Eles não foram pensados para ter isolamento térmico e controle técnico. Manter isso funcionando exige investimento constante”, afirma o executivo.
Na prática, a terceirização da armazenagem permite liberar áreas nobres dos museus para exposições, lojas, restaurantes e atividades voltadas ao público.
“Guardar obras em regiões centrais custa caro. A lógica da reserva externa é permitir que o museu use melhor o espaço principal”, afirma.
Como funciona uma reserva técnica de arte
A operação envolve uma rotina pouco conhecida fora do mercado de arte.
As obras chegam em caixas especiais de madeira, com proteção interna contra vibração e impacto. Depois de estabilizadas em ambiente climatizado, podem ser retiradas das embalagens para armazenamento em condições controladas.
Com a fusão com a ArtQuality, a empresa também oferece transporte especializado, fabricação de caixas, catalogação, fotografia técnica e apoio ao restauro.
“Quando a obra entra em um ambiente climatizado e controlado, ela passa a respirar dentro de uma condição ideal de conservação”, afirma.
Parte dos clientes inclui museus, galerias, bancos e colecionadores privados. Em alguns casos, as instituições mantêm suas próprias equipes de conservação operando dentro da reserva técnica.
A nova estrutura também deve oferecer áreas de trabalho anexas aos acervos, permitindo que conservadores atuem próximos das coleções sem precisar deslocar obras constantemente.
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