Gás Verde dribla a Guerra do Irã e mira a maior planta de biometano do mundo

Por Letícia Ozório 11 de Abril de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Gás Verde dribla a Guerra do Irã e mira a maior planta de biometano do mundo

Enquanto o barril de petróleo Brent superava os US$ 120 e conflitos no Oriente Médio mantinham os mercados de energia e combustíveis em estado permanente de alerta, uma empresa brasileira assistia seu modelo de negócios escapar dessa turbulência.

A Gás Verde, maior produtora de biometano da América Latina, cobra contratos indexados ao IPCA — sem exposição ao dólar ou ao Brent —, o que garantiu estabilidade de preços durante a crise mundial. A companhia, que está expandindo sua operação em novas regiões do país, planeja construir em Seropédica (RJ) o maior complexo de produção de biometano do mundo, com capacidade projetada de até 280 mil metros cúbicos/dia.

A proteção cambial não é detalhe menor. Com o diesel superando R$ 7,30 em capitais e a metodologia de revisão tarifária do gás natural sendo atualizada trimestralmente, a pressão sobre os combustíveis fósseis tende a se intensificar nos próximos meses. "Quando o cliente firma contrato conosco, conseguimos ter uma base de custos atrelada ao IPCA. Isso se descola dos riscos internacionais de Brent e de dólar", diz Eduardo Lima, diretor comercial da Gás Verde.

Nova parceria, nova planta

A expansão mais imediata está em Igarassu, Pernambuco — primeira planta da empresa no Nordeste, já em construção e com operação prevista para o segundo semestre deste ano. Com capacidade de 45.600 metros cúbicos de biometano por dia, a unidade já tem mais de 60% da produção negociada antes mesmo de entrar em funcionamento.

O projeto contou com apoio direto da secretaria de desenvolvimento do governo estadual. "Foi uma experiência muito bacana porque nos unimos para tentar facilitar, no bom sentido, que o projeto saísse do papel e se tornasse realidade", conta Lima.

Um dos contratos firmados a partir dessa planta é com a Mondelēz Brasil — dona de marcas como Lacta, Oreo, Bis e Sonho de Valsa —, que passará a abastecer sua fábrica em Vitória de Santo Antão com biometano produzido a partir da conversão do biogás do aterro de Igarassu, a cerca de 60 quilômetros de distância. A informação foi divulgada com exclusividade nesta sexta-feira, 10, pela EXAME.

A unidade será a primeira da Mondelēz na América Latina a incorporar o combustível renovável na matriz energética. O contrato, de três anos, prevê fornecimento de 50 mil m³/mês no início, com rampa progressiva até 100 mil m³/mês, e a expectativa é evitar a emissão de 6 mil toneladas de CO₂ ao longo do período — equivalente ao plantio de 40 mil árvores.

O potencial de mercado na região vai muito além de um contrato. Num raio de 150 a 200 quilômetros de Igarassu é possível alcançar os principais polos industriais de Pernambuco: Suape, Ipojuca, Recife, Jaboatão dos Guararapes, Goiana e Belo Jardim, entre outros. "Estamos muito bem posicionados. Se pudéssemos, teríamos três plantas nessa região, porque vimos que existe mercado ativo", diz Lima. A meta é chegar a 100% do volume contratado até o fim deste ano.

A aposta no CO₂ verde

Além do biometano, a Gás Verde identificou uma oportunidade relevante no subproduto do processo: o CO₂ verde. Diferente do gás carbônico de origem fóssil, o CO₂ verde é purificado a partir de fontes orgânicas — como a decomposição de resíduos em aterros sanitários —, atingindo pureza de 99,998% em padrão beverage grade. Serve para substituir o CO₂ fóssil em setores que dependem de dióxido de carbono de alta pureza, como bebidas e congelamento de alimentos, reduzindo a emissão de gases de efeito estufa ao longo da cadeia.

A planta de Seropédica (RJ) — que abriga a maior unidade de biometano do país, com 180 mil m³/dia — opera a primeira planta de CO₂ verde originada de aterro sanitário do Brasil, produzindo 100 toneladas por dia, com 100% da produção comercializada. "Temos novidade em operação que pensamos em replicar: a produção de CO₂ padrão bebida, com 99% de pureza", conta Lima.

Com a expansão planejada para Seropédica, onde a capacidade pode chegar a 280 mil metros cúbicos/dia somando a unidade existente a uma nova planta adjacente, a Gás Verde avalia criar o maior complexo de biometano do mundo. "Não existe nada assim em nenhum lugar do mundo", afirma Lima.

Clientes, frotas e o novo marco regulatório

O portfólio da empresa já inclui Ambev, Nestlé, Henkel, Saint-Gobain, Stellantis, Grupo L'Oréal, Ternium e Haleon — cobrindo setores de bebidas, siderurgia, cosméticos e automotivo. No segmento de frotas, a parceria com a Scania resultou na alocação de 100 caminhões de grande porte movidos a biometano em operações de clientes, fazendo substituição direta do diesel.

"Já fazia sentido com foco em descarbonização, mas a demanda sobe de maneira incrível. O biometano, além de ser uma opção sustentável, é economicamente interessante", diz Lima.

A economia circular fecha o ciclo de forma quase simbólica: em São Paulo, a Ecourbis — concessionária responsável pela coleta e destinação de resíduos sólidos na zona sul e leste da capital — já usa biometano para descarbonizar sua própria frota de coleta de lixo. Os caminhões que abastecem o aterro rodam com o combustível produzido pelo próprio aterro. "Gostamos de dizer que esse é o perfeito exemplo de economia circular", resume Lima.

No horizonte regulatório, a Lei do Combustível do Futuro estabeleceu obrigatoriedade de 0,5% de biometano na matriz de todos os produtores e importadores de gás no país — criando um piso de demanda estrutural que não existia antes.

A Gás Verde hoje produz 160 mil m³/dia e projeta chegar a 650 mil m³/dia até 2029, com nove novas plantas em seis estados, incluindo a unidade de Juiz de Fora (MG), com início de operação previsto para 2027.

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