Goiás não é 'lugar especial' para explorar terras raras, diz especialista

Por Rafael Balago 31 de Março de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Goiás não é 'lugar especial' para explorar terras raras, diz especialista

O estado de Goiás saiu na frente na exploração de terras raras no Brasil, mas não tem características especiais, avalia Fernando Camargo, sócio e economista da LCA Consultores, que acompanha o tema dos minerais críticos.

"Aqui a gente tem uma combinação de disponibilidade com uma certa iniciativa, que não falam muito por um alinhamento com o governo federal. Um certo desprendimento [do governo estadual em relação ao governo federal] pode ajudar a explicar esse movimento", diz Camargo.

"Não dá para dizer que seja um lugar especial do ponto de vista, nem da qualidade, que não se conhece ainda, nem das quantidades, que tem outros lugares, nem da logística", afirma.

Camargo aponta que o estado tem reservas de terras raras, mas que outros estados do país, como o Tocantins e no Nordeste, também possuem áreas exploráveis, mas ainda falta mapear melhor essas capacidades. "A gente conhece menos de 30% das áreas potenciais minerárias no Brasil", diz.

Goiás tem a primeira unidade de produção de terras raras no Brasil, em Minaçu, operada pela empresa Serra Verde, que recebeu financiamentos estrangeiros para o projeto.

Em março, Goiás assinou um memorando de entendimento sobre terras raras com os Estados Unidos. A medida foi criticada pelo governo federal, pois a Constituição determina que o controle da exploração das riquezas do subsolo compete à União.

O consultor diz que fundos estrangeiros avaliam o potencial de investimentos no Brasil, mas que a falta de regras federais, ainda em debate, dificulta o processo.

"Esse regramento ainda tem que ser pensado. Esses mecanismos são resolvidos em âmbito federal. Depois você aplica isso em âmbito regional com agências de licenciamento dos Estados", afirma.

Camargo trabalha na LCA como consultor desde 1995 e tem foco em infraestrutura. Ele é economista pela USP e mestre pela Unicamp. Leia a seguir mais trechos da conversa.

Os Estados Unidos estão pressionando muito o Brasil para aumentar parcerias nessa área e deixar a China de fora. Como o Brasil pode se posicionar nesse cenário?

Não é nenhum problema estabelecer acordos. É a moeda de troca básica para o acesso à tecnologia e algum avanço na cadeia de transformação aqui dentro. Isso é o desejado, mas não é necessariamente o que vai ser obtido. Não tem muito uma escolha estratégica que seja a correta.

No fundo, são tecnologias em que você ganha tempo. É uma questão de quanto tempo leva para você acessar e ser um participante efetivo desses mercados.

Como memorandos como o que Goiás assinou com os EUA podem na prática ajudar a avançar a mineração de terras raras no Brasil?

Na ponta financiadora, há alguns fundos estrangeiros com interesse em entender o potencial de desenvolvimento, não só da mineração, como da indústria, associado também aos interesses do Governo Federal, com relação a esses temas.

Até porque tem um entendimento de que se precisa do governo para definir uma série de coisas, definir a maneira como a gente vai permitir essas explorações, se a gente vai seguir padrões de exploração que estão sendo estabelecidos globalmente, nos principais países que são organizadores dessa agenda da mineração em nível global, como Canadá, Austrália e África do Sul.

Vai sair daí uma regulamentação do que a gente vai fazer, de que nível de exploração a gente vai permitir aqui. Inclusive, tendo em vista questões de descarbonização, de impacto de contaminação, de solo, de resíduos e resultados finais da extração, dado nosso histórico aqui para outros minérios. Estamos falando agora de minérios com um grande potencial de contaminação de solos. Esse regramento ainda tem que ser pensado. Esses mecanismos são resolvidos em âmbito federal. Depois você aplica isso em âmbito regional com agências de licenciamento dos Estados.

O que os estados podem fazer enquanto essas definições não estão estabelecidas?

Podem fazer pesquisa, ajudar a entender o que temos no nosso subsolo, qual é a qualidade do minério, o tamanho das reservas, começar a fazer estudos para começarem a entender o que eles têm na mão. No caso dos minérios, começar a investigar a qualidade desses minérios. Grau de pureza, teor, qual é a mistura. Porque o passo seguinte é entender como que você separa esse minério, o que interessa daquilo que não interessa e o que faz com esse resíduo.

Por que Goiás acabou saindo na frente na área e já possui a primeira unidade que já produz comercialmente terras raras brutas?

Goiás tem não só terras raras, mas também cobre, níquel, outros elementos importantes para essa demanda emergente de baterias e ímãs. Aqui a gente tem uma combinação de disponibilidade com uma certa iniciativa, que não falam muito por um alinhamento com o governo federal. Um certo desprendimento [do governo estadual] pode ajudar a explicar esse movimento. Não dá para dizer que seja um lugar especial do ponto de vista, nem da qualidade, que não se conhece ainda, nem das quantidades, que tem outros lugares, nem da logística.

Para um trabalho de exploração disso, a gente tem que olhar para todas essas questões conjuntas, que é o que define a viabilidade de determinados locais de exploração. E, depois, ainda entender quais são os incentivos necessários para chegar a infraestrutura, para fazer as ligações logísticas e dar a viabilidade.

A regulação federal está em atraso? Não sei dizer se demora, se está atrasado. Eu acho que não. Isso tudo é muito novidade. O Brasil tem, historicamente, um trabalho que não é profundo no conhecimento do acervo, da qualidade de certos minerais. Isso [a exploração] é feito por permissão. Então, isso depende de iniciativas do lado privado, que vão investigar mais profundamente o que cada reserva tem.

Quando surgem minerais de caráter mais estratégico, como esses que estão aparecendo na transição energética, sobretudo, essas iniciativas acabam aparecendo aos montes e você faz de um jeito muito pulverizado, sem entender o conjunto, sem fazer uma política, sem ter um plano.

Historicamente, a gente tem a necessidade de uma pesquisa mais aprofundada do nosso subsolo. A gente conhece menos de 30% das áreas potenciais minerárias no Brasil. Mas isso é histórico. Agora, enquanto a gente tá botando luz em terras raras e em outros minerais estratégicos, esse é o timing para fazer uma regulação.

Qual o tamanho de mercado que as terras raras poderão ter no Brasil? Teria alguma projeção?

Ainda não. Isso depende muito de desenvolvimentos futuros desse mapeamento que está sendo montado. O que a gente sabe, por enquanto, são volumes. São diversos elementos de terras raras, com usos diferentes. A gente está bem posicionado em termos de potencial de exploração.

Sobre o passo adicional, de quais dessas áreas tem reservas efetivamente lavráveis com viabilidade, já não se sabe muito. Os potenciais são, digamos, chutes iniciais. O que a gente pretende? Vamos exportar mineral bruto ou fazer algum beneficiamento local? Isso ainda não está definido. Entender em qual pedaço da cadeia a gente quer parar é importante para definir o montante de investimento que a gente terá.

Os governos falam muito que querem fazer o processamento das terras raras aqui e deixar mais renda no Brasil. O quão difícil é fazer esse processamento aqui?

A gente depende de tecnologia desenvolvida em outros locais. De longe, é na Ásia que essa tecnologia está mais avançada. Para alguns casos em terras raras, o ponto crítico é fazer a depuração e chegar num nível de pureza bastante elevado, que dá as características de condutibilidade, resistência, uma série de coisas que esses minerais têm. O grau de pureza é fundamental e, para isso, você depende de pesquisa, de novos produtos e novas técnicas.

Para o longo prazo, [podemos ter] uma tecnologia brasileira. Temos universidades locais ligadas a empresas com pesquisas avançadas, mas isso não funcionaria para o curto prazo, nem para médio prazo.

Há outros países que podem servir de exemplo ao Brasil por seu avanço em terras raras e na regulação do tema?

Há territórios com mais desenvolvimento de mineração, como Austrália e África do Sul, que são os nossos principais focos de pesquisa. Esse é o caminho. Na Ásia, tem Taiwan, China, e alguns outros que começaram a desenvolver com apoio da China, mas que não tem um acesso tão fácil para a gente entender o processo.

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