Gol contra: as bets estão confiscando o futuro da juventude e a Copa do Mundo piora o placar

Por Colunistas EXAME 27 de Junho de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Gol contra: as bets estão confiscando o futuro da juventude e a Copa do Mundo piora o placar

Por Pedro Englert*

Os jogos online, que antes ocupavam um espaço de entretenimento, se transformaram em uma armadilha econômica que vem consumindo o orçamento das famílias brasileiras e comprometendo de forma direta o futuro da juventude em nosso país.

A mudança coincide com o endividamento recorde de 80,4% das famílias, conforme dados divulgados em abril deste ano pela Confederação Nacional do Comércio (CNC).

Com a Copa do Mundo movimentando o país e multiplicando a publicidade de plataformas de apostas nas transmissões dos jogos, o quadro está tende a se agravar. Esse fenômeno não nasceu e não vai terminar com o torneio, ele continuará avançando sobre o orçamento das famílias muito além da Copa se nada for feito para reverter esse cenário.

Afinal, o modelo foca na recorrência diária e na dependência psicológica, transformando o que deveria ser lazer em um problema de saúde pública e inadimplência crônicos.

Propagar a ideia de que as bets servem como ferramenta de geração de renda ou investimento é uma promessa falsa e perigosa. O aporte pesado em marketing por parte dessas plataformas omite que o modelo matemático por trás das apostas é desenhado para a bet vencer a médio e longo prazo. Isso transforma o apostador, principalmente o compulsivo, em um eterno endividado.

Pesquisas recentes da CNC comprovam essa estatística alarmante com a popularização em massa dos jogos e aplicativos. Os gastos mensais das famílias brasileiras com apostas online superaram R$ 30 bilhões em março 2026, um crescimento mais de 500% em apenas três anos.

Com a regulamentação das apostas esportivas em janeiro, o hábito pode se tornar ainda mais comum e levar mais pessoas a comprometerem a renda e a saúde mental. Não são poucos os relatos que temos ouvido sobre famílias enlutadas que perderam entes queridos devido ao desespero com dívidas exorbitantes decorrente do vício nessas plataformas.

O dinheiro usado em apostas não surge do excedente do orçamento das famílias, ele é desviado do consumo de bens essenciais, como alimentação, pagamento de contas básicas. Com a Copa do Mundo, a tendência, segundo levantamento da Creditas, em parceria com a Opinion Box, é que esse cenário de endividamento se intensifique, já que 70% de jovens entre 18 e 24 anos pretendem apostar em bolões sobre o torneio.

Abusos na publicidade dessas plataformas no torneio, especialmente nas transmissões da CazéTV, muito popular entre os jovens, já é investigada pela Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon). O órgão apura se as ações promocionais respeitam as normas de publicidade responsável e transparente, sem incentivo a apostas impulsivas ou promessas de ganho fácil.

As casas de apostas produzem ainda reflexos estruturais na educação superior. Segundo a Associação Brasileira de Mantenedores do Ensino Superior (Abmes), 34% dos jovens precisaram adiar o ingresso na universidade em 2025 porque sacrificaram seus recursos com apostas online.

Das quase 2,9 milhões de pessoas que planejavam iniciar a graduação em uma faculdade da rede privada no primeiro semestre de 2026, cerca de 986 mil não conseguiram efetuar a matrícula.  Isso evidencia que o mercado de jogos além dos prejuízos financeiros e à saúde, pois impacta a qualificação profissional das futuras gerações.

O crescimento dos jogos online acende um alerta, mas também abre uma oportunidade valiosa para agirmos: precisamos urgentemente ensinar nossas crianças, adolescentes e jovens a fazer escolhas conscientes com relação ao dinheiro e ao consumo. Afinal, o letramento financeiro vai além do simples ato de economizar, sendo necessário desenvolver consciência, planejamento e visão de futuro.

A Junior Achievement Brasil acredita na educação financeira como uma poderosa ferramenta de transformação social. Por meio de programas educacionais voltados a crianças, adolescentes e jovens, principalmente da rede pública de ensino, inspiramos as novas gerações a terem um pensamento crítico sobre o consumo, preparando-as também para lidarem com o dinheiro de forma prática, eficiente e responsável. Sem bets.

* Pedro Englert é empresário, ex-aluno da Junior Achievement (JA) e presidente do Conselho Diretor da JA Brasil desde julho de 2023. Foi sócio da XP Investimentos por dez anos, além de CEO do portal InfoMoney e da StartSe. Em 2015, co-fundou a gestora NVA Capital.

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