O tecido que revolucionou a história da Prada no mercado de alta-costura

Por Luiza Vilela 1 de Julho de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
O tecido que revolucionou a história da Prada no mercado de alta-costura

No título de um clássico do cinema, dona de um império de bolsas e mocassins e, agora, líder de um colosso do luxo. A Prada, centenária grife milanesa, deu um passo definitivo ao comprar a Versace, por 1,25 bilhão de euros, em abril do ano passado. Agora, dona da Miu Miu, Curch's, Car Shoe, Marchesi e Luna Rossa, bate de frente com os gigantes franceses que historicamente dominam o luxo global.

E pensar que tudo começou com uma proibição familiar e uma pitada de ironia histórica.

Dizer que a grife milanesa nasceu do tradicionalismo não é força de expressão. Em 1913, quando os irmãos Mario e Martino Prada abriram a Fratelli Prada na prestigiada Galleria Vittorio Emanuele II, em Milão, a marca estava bem longe da sofisticação que tem hoje. Vendia baús de viagem, malas e artigos de couro importados da Inglaterra para a aristocracia europeia, e só isso. Mas o sucesso foi rápido, a qualidade dos produtos era alta e a Prada ascendeu no mercado.

De 1913 até o momento: qual é a história da Prada?

Em 1919, já reconhecida na elite europeia, a marca foi chamada pela Família Real Italiana para ser sua fornecedora oficial. Com o pedido, incorporou o nó e o brasão da Casa de Savoia ao emblema histórico e consolidou a reputação como marca de luxo associada a viagem e sofisticação.

Ainda que os irmãos fossem ambiciosos, com o passar dos anos, a Prada começou a sofrer internamente com a sucessão da empresa. Sobretudo porque havia, na estrutura familiar, um problema identitário: Mario Prada acreditava que as mulheres não tinham capacidade para os negócios e proibiu qualquer figura feminina da família de pisar na companhia. Mesmo que o público da marca fosse, já naquela época, bem mais feminino que masculino.

É curioso, no entanto, como o destino gosta de brincar com os conservadores. Em 1958, quando a marca já estava bem estabelecida no mercado italiano, o filho de Mario rejeitou o negócio e, sem herdeiros homens interessados, foi justamente a filha do fundador, Luisa Prada, quem assumiu o manche por quase duas décadas.

Embora não seja muito reconhecida pela inovação, Luisa manteve a empresa nos eixos e pavimentou o caminho para a principal transformação da Prada, que viria alguns anos mais tarde, sob a tutela de sua filha e principal visionária da empresa, Miuccia Prada.

Miuccia Prada (Simon Russell/Getty Images)

A era de Miuccia

Neta de Mario, Miuccia Prada assumiu o controle criativo da marca em 1978. Não era uma estilista comum: tinha doutorado em Ciências Políticas, um passado de ativismo de esquerda e nenhuma paciência para o óbvio. Ao lado do marido, o agressivo empresário Patrizio Bertelli — que assumiu a gestão corporativa da marca —, ela desenhou uma das parcerias mais simbióticas da história da moda.

Foi Miuccia quem inaugurou a era do náilon na Prada, por exemplo, uma revolução tanto para a marca quanto para o mercado de alta-costura. O Pocono, com especificações militares, impermeável e ultra-resistente, era usado por Mario para cobrir os velhos baús de viagem. A estilista lançou as primeiras mochilas e bolsas feitas com o material em homenagem ao avô em 1979.

No início, como era de se esperar, o mercado torceu o nariz. Afinal, o tecido utilitário, industrial e "pobre" era mais caro do que bolsas de couro legítimo. Mas o faro de Miuccia e a estratégia de distribuição de Bertelli transformaram o acessório em um fenômeno global nos anos 1980. Era o nascimento do "ugly chic" (o chique feio): um minimalismo intelectualizado que desafiava a ostentação dourada, excessiva e hiper-sexualizada da época.

Então consolidada no mercado de moda e surfando a onda do novo hype da época, Miuccia fez a Prada avançar algumas casas nos anos 1990 para o que viria a ser, nos dias atuais, um grande grupo de luxo. Foi uma ideia desenvolvida em conjunto com Bertelli, que decidiu que a companhia deveria se tornar o equivalente italiano da LVMH.

A Prada partiu para uma agressiva onda de aquisições, comprando fatias massivas da Jil Sander, Helmut Lang, Church's e até uma participação conjunta na Fendi ao lado da rival francesa. No meio dessa ascensão, Miuccia fundou em 1992 a Miu Miu (seu apelido de infância), e consolidou um ecossistema que unia o prêt-à-porter de vanguarda aos acessórios de desejo.

Os tropeços de bilhões

Ainda que a história da Prada seja uma escalada de ascensão, o grupo sofreu com o crescimento disparado no fim da década de 1990 e anos posteriores.

A fome de Bertelli para a criação de um novo grupo de luxo foi um movimento que, no início dos anos 1990, parecia certeiro. 10 anos mais tarde, no entanto, o passo se provou maior que a perna. O endividamento da Prada explodiu nos anos 2000, e o grupo foi forçado a vender marcas queridas (como Jil Sander e Helmut Lang) para estancar o prejuízo.

Para piorar, a grife enfrentou tempestades de relações públicas na década seguinte: desde um ruidoso processo por discriminação de gênero no ambiente de trabalho na bolsa de Hong Kong até investigações de evasão fiscal por autoridades italianas, resolvidas após um acordo de mais de 400 milhões de euros.

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Em 2025, a marca também sofreu um revés ao ser acusada de apropriação cultural por comercializar sandálias idênticas às tradicionais Kolhapuri chappals indianas, sem dar os devidos créditos. Fiel ao seu DNA de gestão de crise, a Prada respondeu de forma corporativa: firmou uma parceria de três anos com corporações de artesãos da Índia para lançar uma coleção limitada "Made in India" que garantiu royalties, treinamento técnico e intercâmbio na própria academia da marca na Itália.

Foi o mesmo ano em que o grupo "renasceu das cinzas" com um dos melhores resultados das últimas duas décadas e investiu na mais recente aquisição: a Versace, por 1,25 bilhão de euros.

O novo ecossistema: arte, Simons e o xeque-mate na Versace

Versace (picture alliance / Colaborador/Getty Images)

Explicar a resiliência da Prada exige entender que ela deixou de ser apenas uma etiqueta de roupas para se tornar uma plataforma cultural. Desde 1993, a Fondazione Prada dita os rumos da arte contemporânea e da arquitetura mundial, enquanto suas lojas "Epicentro" — desenhadas por lendas como Rem Koolhaas — transformaram o varejo em uma experiência quase museológica. Também se infiltrou no cinema com O Diabo Veste Prada de 2006 e o de agora, de 2026.

Na atual década, para além da cultura, a grife se prepara para o futuro com dois movimentos. O primeiro deles vem na criação: a Prada trouxe o aclamado designer belga Raf Simons para atuar como co-diretor criativo ao lado de Miuccia, numa tentativa de oxigenar as passarelas. O segundo está na gestão: o grupo agora conta com o ex-CEO da Luxottica, Andrea Guerra, para capitanear uma transição suave de liderança para os filhos de Miuccia e Bertelli.

Com as finanças saneadas e faturamento na casa dos bilhões, o bote final no mercado foi a consolidação da compra da Versace, concluída no final de 2025. Ao absorver a grife da Medusa — ainda com Donatella Versace como embaixadora global, mas com reformulação da direção criativa com Dario Vitale —, a Prada desenha o tabuleiro de xadrez para os próximos anos.

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