Golf GTI ficará mais barato com acordo UE-Mercosul, diz CEO da Volkswagen
Hanover - A entrada em vigor do acordo comercial entre União Europeia e Mercosul vai aumentar os negócios entre Brasil e Alemanha, e uma das consequências será baixar o custo de carros importados alemães, como o Golf GTI.
"O tratado vai estar válido a partir de primeiro de maio e vai demorar alguns anos, com fases de redução de impostos de importação. Mas já está negociada uma cota de 50.000 carros por ano, na qual os impostos de importação caem 50%. Com isso, carros como o Golf GTI, vão ter impacto positivo", diz Alexander Seitz, CEO da Volkswagen para a América do Sul, em entrevista à EXAME.
"Para os carros híbridos plug-in, também vai ser uma redução de 20%, de 35% para 25%. Vai ter um efeito positivo e nós já trabalhamos em projetos concretos para trazer para o Brasil", diz Seitz, que também é presidente da Câmara Brasil-Alemanha de São Paulo.
O acordo, no entanto, prevê uma redução escalonada das tarifas ao longo dos anos. A isenção completa para os veículos europeus só ocorrerá a partir do 15º ano do acordo, em 2041.
O Golf GTI vindo da Alemanha voltou a ser vendido no Brasil em 2025, com preço inicial de R$ 430.000 e oferta limitada para alguns perfis de clientes.
"Os dois presidentes falaram claramente que [o acordo] muda o conceito de negócio para a Europa, para a Alemanha e para o Brasil, e o chanceler comunicou que o objetivo dele é duplicar nos próximos três a quatro anos o volume de negócios entre Brasil e Alemanha", afirmou o CEO.
Leia a entrevista completa abaixo.
Como a visita do presidente Lula e os acordos assinados entre os dois países podem ampliar os negócios entre o Brasil e a Alemanha?
A abertura da feira de Hanover pelo presidente e pelo chanceler da Alemanha foi uma coisa fenomenal. Esta é a feira mais grande do mundo em tecnologia. Isso mostra a importância para os dois de trabalharem juntos no segmento da tecnologia.
Nós, como Volkswagen, no Brasil, estamos há mais de 70 anos. Mas agora, com a ida do presidente Lula para cá, os dois presidentes ficaram dias juntos, se comunicaram horas e horas, criaram um ambiente muito positivo, e a assinatura do tratado entre Mercosul e União Europeia, com a promessa de duplicar o negócio entre Brasil e Alemanha, nós vamos sentir um efeito muito positivo.
Quais serão os principais efeitos da entrada em vigor do acordo entre União Europeia e Mercosul?
O tratado entre Mercosul e União Europeia vai ser um fato, não será mais um desejo, depois de 26 anos de negociação. Os dois presidentes falaram claramente que isso agora muda o conceito de negócio para a Europa, para a Alemanha e para o Brasil, e o chanceler comunicou que o objetivo dele é duplicar nos próximos três a quatro anos o volume de negócios entre Brasil e Alemanha.
Isso vale para macroeconomia e microeconomia. É uma base clara de que vai ter uma mudança. E mais importante, que não só o mercado dos produtos vai mudar, mas também teremos uma mudança, eu espero muito positiva, de acordo entre os dois países para evitar a tributação entre Alemanha e Brasil.
Como estão as tratativas para este acordo sobre tributação?
Lula e Merz falaram claramente que eles vão direcionar os ministros de Fazenda para chegar finalmente a um acordo, porque tem negócio, tem um efeito multiplicador dos investimentos de importação e exportação, isso faz todo o sentido.
Só vamos agora parar com a papelada, vamos fazer a mesma coisa que fizemos com o tratado entre a Europa e o Mercosul. Porque esta discussão faz aniversário em 2026, de 20 anos. Só nós vamos demorar 26 anos como no acordo com a Europa. O objetivo é, até o fim de ano, também fechar isso.
Isso mostra que os dois governos entenderam a importância do mercado financeiro, do mercado de produtos e entenderam que, nesta mudança política onde todo mundo só fala do unilateralismo, temos agora dois parceiros que acreditam na filosofia do multilateralismo e acreditam que isso vai facilitar os negócios, e isso me faz muito feliz como um executivo de uma empresa multinacional, mas também como uma pessoa física.
O acordo do Mercosul pode levar a que o Brasil tenha mais carros da Volkswagen, e que eles fiquem mais baratos?
O tratado vai estar válido a partir de primeiro de maio e vai demorar alguns anos com fases de redução de impostos de importação. Mas já está negociado uma cota de 50.000 carros por ano, na qual impostos de importação caem 50%. Então, por exemplo, de 35% para 17% e 5% para ICE (carros com motores a combustão). Com isso, carros como o Golf GTI, vão ter impacto positivo, sem dúvida nenhuma. E para os carros híbridos plug-in também vai ser uma redução de 20%, de 35% para 25%. Vai ter um efeito positivo, sim, e nós já trabalhamos em projetos concretos para trazer para o Brasil.
Há perspectivas de ter carros mais baratos no Brasil, modelos mais simples nos próximos anos? Hoje temos um mercado que começa com o Polo, que eu acho um carro bem competitivo. E no futuro, podemos ver carros elétricos com um e-range (alcance) limitado, quase como um city car (carro urbano). Não é só no Brasil, também na Alemanha.
O presidente Lula e o chanceler Friedrich Merz, em cerimônia militar em Hanover (Odd Andersen/AFP)
O chanceler Merz disse que o comércio entre os dois países poderia dobrar. Acha a meta viável?
Não sou especialista em macroeconomia, mas veja os campos de negócio. Só a indústria automobilística, autopeças, energia renovável, com biocombustível, com etanol. Tem ainda agricultura, mineração, terras raras. Tem tanto campo onde isso é possível. E quando você vê que o resto do mundo quer se separar, aí as regiões do mundo que ficam abertas para negócios, para trocar ideias, tecnologias e produtos, têm uma boa chance de duplicar isso.
O Brasil falou muito aqui sobre vender mais biocombustíveis para a Europa. Como o senhor vê essa possibilidade de os veículos europeus usarem mais combustíveis brasileiros sustentáveis?
Isso foi aqui uma apresentação clara do presidente Lula, explicando para o chanceler Merz que a Alemanha e Europa precisam pensar em como cuidar da frota antiga de carros com combustível.
Foi mostrado tecnicamente como um caminhão funciona com biodiesel. E nós falamos para as autoridades da Alemanha e do Brasil que temos experiência com FlexFuel, com mais de 20 anos. Ou seja, podemos usar 100% de etanol, ou 30%, o que está hoje na mistura normal ou de qualquer forma. E o chanceler Merz entendeu que não só os combustíveis sintéticos são uma solução, mas também o FlexFuel, o etanol, que é uma energia renovável, como solução que vai ser discutida agora na Europa. E nós, com o FlexFuel, com tanta experiência, podemos trabalhar junto com os colegas da Alemanha para viabilizar essa tecnologia para o motor elétrico.
Como o senhor vê o avanço dos carros elétricos no Brasil, e quais as perspectivas da Volkswagen para esse mercado no país?
Um carro elétrico pode ser muita coisa. Tem híbrido, plug-in híbrido e elétrico. Por causa das economias de escala de que você precisa, faz sentido, para híbrido e plug-in híbrido, ter uma produção local. Mas o que está acontecendo? As marcas chinesas cresceram rapidamente nos últimos dois anos, de 1% até 13%. E na mesma época, nós crescemos de 13% para 16, 17% (em participação de mercado).
Ter novos competidores, para nós, não é um problema. O único problema é que todos devem ser tratados com as mesmas regras. Se você quer vender aqui um carro, precisa ter um valor agregado mínimo produzido no Brasil. Porque aí você tem os mesmos desafios. Porque importar um carro é muito fácil. Produzir e vender no Brasil tem mais desafios: das leis trabalhistas, das leis ambientais, dos impostos. Aí, vamos jogar com as mesmas regras. Não tenho nada contra a competição chinesa, mas as regras têm que ser iguais.
Nós trabalhamos muito forte com nossos parceiros na China, trazendo novas tecnologias para cá. Está tudo ok. Mas vamos tornar local a produção. Isso é o nosso pedido.
Um dos temas aqui da feira é o uso de inteligência artificial (IA) na fabricação de produtos. Como isso tem avançado na Volkswagen?
A primeira aplicação foi com o Otto, uma interação entre clientes e o carro. Na produção, começamos com projetos-piloto junto com a Alemanha, e agora estamos aumentando, expandindo para logística e vendas.
Não é uma opção, é uma base de negócios de futuro para nós, e isso não é só uma tecnologia. É uma mudança da cultura da empresa, de como trabalhar juntos, como fazer negócio. Vai mudar a indústria automobilística, mas não só otimizar processos singulares, vai mudar os processos e a interação entre departamentos e pessoas, usando a máquina como facilitadora, mas os processos também mudam. Para aplicar corretamente, precisamos ter outra estrutura de processo com um data lake (base de dados) e usar os dados do jeito certo.
*O repórter viajou a convite da Câmara Brasil-Alemanha de São Paulo.
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