Golfo vê turismo e luxo recuarem com a guerra

Por Marina Semensato 28 de Março de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Golfo vê turismo e luxo recuarem com a guerra

A guerra entre Irã, Estados Unidos e Israel começa a atingir setores que sustentam a estratégia de diversificação econômica dos países do Golfo. Os efeitos já aparecem no turismo, na hotelaria, no varejo de luxo e em investimentos de tecnologia, segundo o Wall Street Journal.

Nos últimos anos, governos locais investiram centenas de bilhões de dólares em projetos pensados para reduzir a dependência econômica do petróleo. São projetos que variam de parques temáticos a centros de dados, por exemplo.

Com a guerra, eles seguem em andamento, mas sob um novo cenário de risco — parte disso vem do fechamento do Estreito de Ormuz, onde passa cerca de um quinto do petróleo global. A restrição pressiona custos e logística na região, tanto no transporte de mercadorias quanto na operação de companhias aéreas.

Há também os perigos da guerra. Um hotel em Dubai foi atingido por destroços de um míssil iraniano no fim de fevereiro. Em Abu Dhabi, um projétil caiu próximo a um cruzeiro atracado no Porto Zayed, gerando pânico entre passageiros. Parques como Legoland e Real Madrid World chegaram a fechar temporariamente, enquanto companhias aéreas desviaram centenas de voos.

"O perfil de risco de um projeto nos Emirados Árabes Unidos hoje é muito maior do que era há um ano", disse Vitaly Umansky, analista da Seaport Research Partners, ao jornal norte-americano.

Turismo desacelera e viagens corporativas são afetadas

A região estava crescendo rapidamente com o turismo. Em 2025, o Oriente Médio recebeu 39% mais visitantes do que em 2019, segundo a ONU Turismo. A expectativa para este ano era de expansão de 13%.

A guerra fez essa projeção recuar, com uma nova estimativa de queda entre 11% e 27% nas viagens, segundo a Tourism Economics. A perda potencial é de até US$ 56 bilhões em gastos de visitantes.

Além do lazer, outras atividades que incluem o ato de viajar também foram afetadas, como eventos corporativos que foram cancelados ou adiados. Com isso, muitas instituições passaram a rever operações locais — a Universidade de Nova York, que mantém campus na região, adotou aulas remotas após o início do conflito.

"Há muita incerteza, e isso afeta decisões de viagem", disse John Gerner, da Leisure Business Advisors, ao WSJ.

Mesmo projetos recém-inaugurados passam por adaptação. O Six Flags Qiddiya City, na Arábia Saudita, segue aberto, mas com forte presença de público local — cerca de 95% dos visitantes até agora.

Resorts mantêm obras, mas ocupação cai

Projetos bilionários de resorts e cassinos, que eram considerados uma das principais apostas da região, também desaceleraram com o avanço do conflito. Em meados de março, a taxa de ocupação hoteleira em Dubai caiu 68% na comparação anual. Nos Emirados como um todo, a queda foi de 62%, segundo dados da CoStar.

É o caso da Wynn Resorts, que constrói um resort-cassino nos Emirados Árabes Unidos, em uma ilha artificial próxima ao Estreito de Ormuz. O projeto, com cerca de 1.500 quartos, marina para superiates e dezenas de restaurantes, é visto pela empresa como peça central de sua expansão global.

Apesar de manter o cronograma de inauguração para 2027, a obra já sentiu os efeitos da guerra. A construção chegou a ser interrompida por um dia e foi retomada em seguida. A empresa afirma que segue com o planejamento, mas o ambiente ao redor mudou.

Luxo cai em clientes e logística

O varejo de luxo, um destaque da região nos últimos anos, também desacelerou por causa da guerra. Com menos turistas e menor circulação em áreas comerciais, o fluxo em shoppings caiu, especialmente em Dubai.

Segundo informações do Financial Times, o fluxo de clientes em lojas de alto padrão caiu até 57% nas primeiras semanas do conflito, enquanto as vendas durante o Ramadã recuaram mais de 60% na comparação anual, segundo dados obtidos pelo Financial Times.

O Oriente Médio representa cerca de 6% das vendas globais de luxo — patamar semelhante ao Japão — e foi uma das regiões que mais cresceram no último ano, com expansão próxima de 6%. Agora, a expectativa é de queda nas vendas em março, que podem recuar pela metade, segundo estimativas da Bernstein.

A logística do varejo também sentiu os efeitos: a guerra tem provocado atrasos no transporte marítimo e aéreo, o que dificulta o reabastecimento das lojas.

Investimento tecnológico entra na conta de risco

No setor de tecnologia, os efeitos da guerra aparecem de forma direta. Três instalações da Amazon foram danificadas por ataques de drones nos primeiros dias do conflito. A empresa afirmou que seus serviços seguem parcialmente afetados e que clientes estão sendo redirecionados para outras regiões.

A companhia investe mais de US$ 10 bilhões em infraestrutura na Arábia Saudita, após expansões anteriores nos Emirados Árabes Unidos. A região era considerada estratégica por oferecer energia abundante, terrenos mais baratos e ambiente favorável a negócios.

Além da Amazon, projetos envolvendo Oracle, OpenAI e a empresa de inteligência artificial G42 avançaram nos Emirados, incluindo um cluster de computação de grande escala. Porém, com a guerra, o risco físico passou a pesar na decisão de investimento. "Ninguém vai querer investir centenas de milhões em um centro de dados que pode ser destruído com um drone de US$ 7 mil", disse o economista Justin Alexander ao WSJ.

Mesmo assim, há fatores que mantêm a relevância da região para as big techs. Leis de soberania de dados exigem que determinadas informações sejam armazenadas localmente, então a demanda por infraestrutura continua.

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