'Meu namorado Neandertal': genética mostra que espécies se relacionavam
Narrativas de mulheres se envolvendo com seres não-humanos são recorrentes na cultura pop, com exemplos que vão desde "A Bela e a Fera" até "A Forma da Água". Essa ideia, no entanto, não está longe da realidade pré-histórica humana.
Há cerca de 250 mil anos, era comum que humanos (Homo sapiens) se reproduzissem com Neandertais (Homo neanderthalensis). O fenômeno se repetiu em um segundo momento, entre 45 mil e 50 mil anos atrás.
Um estudo publicado na revista Science nesta quinta-feira, 26, mostrou que essa hibridização (reprodução que ocorre entre espécies distintas) seguia um padrão assimétrico: eram principalmente os machos neandertais que se acasalavam com fêmeas humanas, e não o contrário.
Como seres humanos e neandertais se relacionavam?
O contato entre as duas espécies não foi um evento isolado, mas um período prolongado de convivência.
A principal hibridização ocorreu numa janela entre 45 mil e 50 mil anos atrás, de acordo com o Museu de História Natural de Londres.
Essa datagem foi possível graças a fósseis encontrados sob o Castelo de Ranis, na Alemanha central. Os restos de seis Homo sapiens, entre eles uma mãe e sua filha, tinham DNA que permitiu rastrear o momento do cruzamento a aproximadamente 80 gerações antes deles.
Já o novo estudo da Science mostrou que essa hibridização seguia um padrão assimétrico. A chave para a descoberta estava num detalhe curioso do DNA humano contemporâneo: o cromossomo X das pessoas que vivem hoje carrega proporcionalmente menos herança neandertal do que os demais cromossomos.
Para distinguir entre as hipóteses que explicariam esses "desertos neandertais", a equipe comparou DNA neandertal antigo com o de pessoas que vivem na África hoje.
O cromossomo X dos neandertais das montanhas Altai, na Ásia Central, apresentava 62% mais DNA derivado do Homo sapiens do que o esperado num cenário neutro, segundo o estudo. Isso só seria possível se os machos neandertais tivessem se reproduzido preferencialmente com fêmeas humanas.
Por que essa preferência existia ainda é uma incógnita.
"Só se pode especular!", admitiu Sarah Tishkoff, professora de genética e biologia da Universidade da Pensilvânia e coautora do estudo, à Scientific American.
Para o autor da pesquisa, Alexander Platt, uma explicação possível é que machos tendem a ser mais móveis e a buscar parceiras em grupos diferentes dos seus. Além disso, o que é atraente para machos quase nunca o é para fêmeas, o que poderia ter gerado padrões distintos de atração entre as espécies.
DNA neandertal em seres humanos
O resultado desse contato prolongado ainda está presente em nós: cerca de 2% do genoma de pessoas com ancestralidade fora da África é de origem neandertal, segundo o Museu de História Natural de Londres.
Esse legado não é neutro. 347 genes neandertais foram identificados em alta frequência nos genomas de humanos antigos e modernos, sugerindo que foram imediatamente benéficos para nossa adaptação ao mundo fora da África, incluindo mudanças na cor da pele, na imunidade e no sistema nervoso.
Até hoje, genes neandertais são associados a características como a cor do cabelo e a tendência a ser uma pessoa matutina, além de possíveis ligações com condições de saúde como diabetes.
Por que os neandertais foram extintos?
Paradoxalmente, a mesma mistura que enriqueceu o genoma humano pode ter contribuído para o fim dos neandertais.
Com menos indivíduos se reproduzindo entre si, as populações arcaicas teriam encolhido progressivamente até desaparecer, há cerca de 40 mil anos, segundo o Museu de História Natural de Londres.
Para Platt, a pesquisa tem um significado que vai além da biologia. "Não precisamos olhar apenas para nosso próprio pool genético para entender o que aconteceu com os alelos neandertais quando eles entraram em nossa população", disse ele à Scientific American.
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