Gringos fogem de ações de baixo volume e 'small caps' são penalizadas

Por Clara Assunção 26 de Abril de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Gringos fogem de ações de baixo volume e 'small caps' são penalizadas

A forte entrada de capital estrangeiro na bolsa brasileira não chega às empresas menores em termos de valor de mercados, as chamadas small caps (SMLL), por um motivo técnico: falta de liquidez. Segundo o Itaú BBA, investidores globais geralmente exigem ações com volume médio diário acima de US$ 5 milhões.

Sendo que, no Brasil, 44% das small caps ficam abaixo desse nível, o que impede alocações relevantes. Na prática, esses papéis ficam fora do radar internacional porque grandes fundos não conseguem entrar ou sair sem mexer nos preços.

Isso ajuda a explicar por que o fluxo externo, mesmo forte em 2026, segue concentrado em empresas do Ibovespa, deixando de fora boa parte do SMLL.

Dados da B3 mostram que, até 20 de abril, investidores internacionais aportaram R$ 65,3 bilhões na bolsa brasileira em 2026, mantendo participação dominante de 61,2% no volume negociado. Enquanto que, no mesmo período, o investidor brasileiro resgatou R$ 11,2 bilhões.

Sem o estrangeiro, a recuperação das small caps depende do investidor local, que ainda não voltou para a renda variável. Em conversas com gestores, o Itaú BBA identificou mais cautela do que novas alocações.

"Após um desempenho significativamente inferior das small caps (-75 pontos percentuais em relação ao Ibovespa nos últimos 5 anos), os gestores locais estão debatendo se devem aumentar a participação das small caps nas carteiras. Até o momento, percebemos mais questionamentos do que alocações significativas", afirmou o banco em relatório recente.

A institução diz que "há nomes atraentes na categoria". Mas destaca que, para um desempenho superior mais sustentável, "precisa ver entradas de capital no setor de ações nacionais".

Diferença entre small caps e Ibovespa é a maior em 20 anos

Nos primeiros 14 dias de abril, a distância entre o Ibovespa e o índice de small caps atingiu o maior nível em mais de 20 anos tanto em termos absolutos quanto relativos.

Levantamento da consultoria Elos Ayta, que considera dados de agosto de 2005 a 14 de abril de 2026, mostra que o principal índice da bolsa brasileira chegou a 198.657 pontos, enquanto o índice de empresas de menor capitalização ficou em 2.558 pontos. A diferença nominal, de 196.099 pontos, é a maior de toda a série histórica.

Os dados também revelam um descolamento proporcional entre os índices. Hoje, o Ibovespa equivale a 77,6 vezes o índice de small caps, um recorde no período analisado. Até o final do ano passado, essa relação era de cerca de 54 vezes.

No auge da valorização das empresas menores, em janeiro de 2020, o número havia caído para 39 vezes, indicando um momento em que essas companhias performavam melhor em relação às grandes.

Esse descolamento reflete, em parte, diferenças estruturais entre os dois grupos de empresas. As chamadas small caps são companhias de menor valor de mercado, geralmente em fase de crescimento, com maior potencial de expansão, mas também com mais risco.

Já o Ibovespa é composto majoritariamente por grandes empresas consolidadas, com maior liquidez e histórico mais previsível de resultados.

Na prática, esse contraste ajuda a explicar o comportamento recente do mercado. Segundo Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos, o movimento atual é menos estrutural e mais resultado de condições macroeconômicas e de fluxo de capital.

"O descolamento recente é essencialmente um fenômeno de fluxo amplificado por juros altos, em que a entrada relevante de capital estrangeiro no Brasil foi concentrada em large caps líquidas e indexadas a commodities e bancos, enquanto small caps ficaram fora da alocação passiva global", afirma Lima.

Ainda assim, segundo o gestor, há potencial para uma eventual recuperação das small caps desde que aconteça mudanças no cenário macro, especialmente queda de juros e melhora do apetite ao risco global. "Uma rotação mais ampla para small caps depende menos de narrativa local e mais de inflexão global de juros e volatilidade", diz Lima.

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