Gruo FG, do Senna Tower, quer disputar mercado global de arranha-céus
Durante anos, projetos de edifícios altos no Brasil dependeram de consultorias estrangeiras para decisões estruturais críticas. Esse cenário começa a mudar com o surgimento de empresas locais especializadas em engenharia de alta complexidade.
É nesse contexto que surge a Talls Solutions, consultoria criada pelo Grupo FG que completa seu primeiro ano de operação com números relevantes para um negócio de nicho. A empresa já analisou cerca de 1,5 milhão de metros quadrados em projetos estruturais e identificou mais de R$ 100 milhões em potenciais reduções de custo.
A proposta da companhia não é escala, mas seletividade, com poucos projetos e maior profundidade técnica. Com sede em Balneário Camboriú, a empresa nasce com a ambição de integrar engenharia, viabilidade econômica e execução.
O diferencial da consultoria está no acesso a dados ao longo de todo o ciclo dos empreendimentos, da concepção à operação. Por estar conectada ao Grupo FG, a Talls consegue integrar informações técnicas e financeiras que, segundo a empresa, não estão disponíveis nem mesmo para grandes consultorias internacionais.
Na prática, isso permite que decisões estruturais sejam tomadas com base em desempenho real, e não apenas em projeções. O impacto aparece nos números. A empresa afirma alcançar otimizações de até 35% em seus projetos.
Esse modelo tem atraído incorporadoras em diferentes regiões do país. No primeiro ano, a Talls participou de projetos distribuídos por dez estados brasileiros e também no Paraguai, incluindo empreendimentos com alto padrão de complexidade e VGV somado de cerca de R$ 50 bilhões.
O nicho em que a empresa atua é limitado. Estima-se que menos de cinco companhias no mundo operem de forma dedicada à consultoria para edifícios altos, o que ajuda a explicar a dependência histórica do Brasil por conhecimento importado. A aposta da Talls é inverter essa lógica e posicionar a engenharia brasileira como exportadora de conhecimento técnico.
Para Jean Graciola, CEO do Grupo FG, o avanço recente da verticalização em cidades como Balneário Camboriú criou um ambiente propício para esse salto. “Durante muito tempo o Brasil importou conhecimento em engenharia de grande escala. Hoje começamos a construir uma trajetória diferente”, afirma.
A conexão internacional também faz parte da estratégia. A empresa conta com a participação do engenheiro norte-americano Fatih Yalniz, que atuou em projetos como o 111 West 57th Street, em Nova York.
A mulher por trás dos andares
Por trás dessa estratégia está Stéphane Domeneghini, diretora executiva da Talls Solutions e uma das principais responsáveis pela concepção do Senna Tower, um dos projetos mais ambiciosos em desenvolvimento no país.
“A concepção do Senna Tower foi liderada por mim ainda antes da criação da Talls, quando eu estava à frente da área de edifícios altos da FG Empreendimentos”, afirma. Segundo ela, desde o início o projeto foi estruturado sob uma lógica integrada, em que arquitetura, engenharia e viabilidade técnica são tratadas como um único sistema.
“Não são disciplinas isoladas, mas um processo de decisão orientado por desempenho, eficiência e resultado”, diz.
Nesse modelo, a executiva afirma que o projeto arquitetônico, a responsabilidade técnica e a engenharia foram conduzidos de forma coordenada desde a origem, o que permitiu atrair um ecossistema global de especialistas ao longo do desenvolvimento.
Já com a Talls estruturada, a empresa passou a atuar diretamente nesse tipo de empreendimento. “A Talls participa como uma das engrenagens centrais de engenharia e tomada de decisão, conectando diferentes disciplinas e garantindo consistência nas decisões críticas”, afirma Domeneghini.
Apesar dos resultados iniciais, o plano de crescimento não passa por aumentar volume. A empresa pretende manter uma estrutura enxuta e altamente especializada, priorizando projetos alinhados à sua proposta de engenharia de alto valor agregado.
O próximo passo envolve a expansão internacional e o desenvolvimento de uma frente voltada ao planejamento urbano, com a iniciativa Talls Cidades, focada em masterplans e novas centralidades.
A ideia é levar a mesma lógica aplicada aos edifícios — integração entre técnica, viabilidade e execução — para a escala das cidades.
“Quando conseguimos integrar engenharia, planejamento urbano e eficiência construtiva, não criamos apenas edifícios melhores, mas cidades mais preparadas para crescer”, afirma Domeneghini.
O Senna Tower
O avanço da Talls Solutions ocorre em paralelo ao desenvolvimento de um dos projetos que melhor sintetizam essa mudança de paradigma. O Senna Tower, em Balneário Camboriú, funciona hoje como um caso prático da tentativa de reduzir a dependência brasileira de engenharia importada.
Com 550 metros de altura e 157 andares, o empreendimento foi concebido desde o início sob uma lógica integrada de engenharia, arquitetura e viabilidade — a mesma que estrutura a atuação da Talls.
O projeto ainda não saiu do chão, mas já movimenta cifras relevantes. São mais de R$ 2,2 bilhões em vendas antes do início das obras e um VGV estimado em R$ 8,5 bilhões. O investimento, de cerca de R$ 3 bilhões, é integralmente nacional, em parceria entre FG Empreendimentos, marca Senna e Havan.
Mais do que escala, o edifício impõe complexidade técnica. A construção deve consumir até 35 mil toneladas de aço, com uso de materiais de alta resistência e soluções estruturais desenvolvidas sob medida. Elevadores de alta performance e decisões estruturais baseadas em desempenho real fazem parte do pacote.
É nesse tipo de ativo que a Talls atua — não como projetista isolado, mas como integradora de decisões críticas estratégia também passa pelo mercado internacional. Cerca de 16% das vendas já vêm de compradores estrangeiros, percentual acima da média da FG, em um movimento que acompanha a abertura de frentes comerciais fora do país.
Na prática, o Senna Tower deixa de ser apenas um empreendimento imobiliário e passa a operar como vitrine global da engenharia brasileira, em um setor ainda concentrado em poucas consultorias internacionais.
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