Guerra expõe dependência do petróleo e acelera investimentos em baterias e veículos elétricos
Um mês após os primeiros ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irã, o mercado global de energia vive um choque histórico que pode marcar uma inflexão na transição energética.
A escalada do conflito, ao mesmo tempo em que eleva o preço do petróleo e expõe a dependência global do combustível fóssil, também acelera investimentos em alternativas mais sustentáveis.
Se por um lado países e governos redescobriram sua vulnerabilidade diante do bloqueio do Estreito de Ormuz, investidores estão investindo dezenas de bilhões de dólares para fabricantes de baterias, tecnologia chave para o armazenamento de energia.
A segurança energética, cada vez mais, passa por reduzir a exposição a fósseis poluentes e ampliar o uso de fontes limpas e tecnologias associadas.
A resposta do mercado veio rápida e em uma direção clara que não era esperada. Segundo o Financial Times, as ações das chinesas CATL, Sungrow e BYD subiram entre 19% e 22% desde o início do conflito, acumulando US$ 70 bilhões em valor de mercado. O desempenho é superior ao das grandes petroleiras BP, Chevron, Shell e ExxonMobil, mesmo com o petróleo em alta de 47%, em um "sinal verde" rumo à transição no setor de energia.
O gargalo da transição não está na geração
Esse movimento revela onde está o principal gargalo da nova matriz energética. A expansão de fontes renováveis como solar e eólica já avançou de forma consistente, mas a limitação agora está na capacidade de garantir fornecimento contínuo e resolver a intermitência se torna prioridade.
É nesse contexto que as baterias ganham protagonismo. Os sistemas de armazenamento permitem capturar energia quando há excesso na rede e liberá-la nos momentos de maior demanda, reduzindo a necessidade de recorrer a fósseis como as térmicas para equilibrar o sistema.
“O sistema elétrico vem sofrendo instabilidades, é uma necessidade colocada na mesa e que precisa ser resolvida. As baterias são o verdadeiro canivete suíço de soluções”, afirma Manfred Peter Johann, vice-presidente da WEG, em entrevista recente à EXAME.
A corrida por essa tecnologia está em curso no Brasil e a WEG prepara a construção da mais moderna fábrica de sistemas de armazenamento de energia em baterias do país, mirando um mercado ainda incipiente, mas que deve ganhar escala com o primeiro leilão nacional do setor previsto para junho.
A disputa tende a atrair tanto fabricantes locais quanto gigantes globais como Tesla, CATL, BYD e Huawei.
Veículos elétricos reduzem dependência do petróleo
Ao mesmo tempo em que as baterias avançam para resolver o lado da oferta, outra frente da transição ganha escala ao reduzir diretamente a demanda por petróleo: os veículos elétricos.
Um estudo divulgado pela Ember mostra que a frota global eletrificada já evita o consumo de 1,7 milhão de barris de petróleo por dia. O volume se aproxima dos 2,4 milhões de barris que o Irã exporta diariamente pelo Estreito de Ormuz, região central da crise atual.
Na prática, especialistas acreditam que a eletrificação do transporte começa a neutralizar parte relevante da dependência global do petróleo.
Segundo a Ember, substituir o petróleo no transporte por veículos elétricos pode reduzir em um terço as importações globais de combustíveis fósseis, com economia potencial de US$ 600 bilhões por ano.
A China já poupa mais de US$ 28 bilhões anuais com importações evitadas, enquanto Europa e Índia também começam a registrar ganhos relevantes.
Neste cenário, a transição deixa de ser apenas uma agenda ambiental e passa a ocupar o centro das estratégias econômicas e de segurança energética.
O avanço também se reflete na geografia do mercado. Hoje, 39 países têm participação de veículos elétricos acima de 10% nas vendas, ante apenas quatro em 2019, e o crescimento já não está restrito às economias desenvolvidas.
Vietnã, Tailândia e Indonésia superam os Estados Unidos nesse ranking. O Brasil, com 9%, também avança e já está à frente do Japão. A China ultrapassou 50% das vendas em 2025, consolidando a mudança de escala.
Em solo brasileiro, o movimento começa a ganhar forma também na infraestrutura elétrica. A gigante chinesa BYD anunciou a implantação de 125 carregadores rápidos e planeja chegar a 1.000 até 2027, com tecnologia capaz de reduzir significativamente o tempo de recarga. Desde o início das operações, a rede já evitou a emissão de mais de 8,1 mil toneladas de CO₂.
Energia limpa traz oportunidade única ao Brasil
O Brasil entra nesse mercado com uma vantagem relevante: a matriz elétrica é uma das mais limpas do mundo, com cerca de 88% da geração proveniente de fontes renováveis. Ao mesmo tempo, enfrenta um desafio: o desencontro entre geração e consumo, justamente o que as baterias podem solucionar.
Não à toa as expectativas são altas para o primeiro leilão de sistemas de armazenamento em baterias, com cerca de 2 GW de capacidade e R$ 10 bilhões em investimentos previstos.
Com um sistema interligado de escala continental e alta participação de renováveis, o país reúne condições para expandir rapidamente o uso de armazenamento e estimativas do setor apontam potencial de até 20 GW até 2035.
No pano de fundo, a guerra no Oriente Médio reforça uma mudança de paradigma: o petróleo continua relevante, mas passa a ser visto cada vez mais como um fator de risco econômico e geopolítico.
Diferentemente de crises anteriores, desta vez a resposta não se limita a buscar novos fornecedores. A alternativa está na aceleração da transição energética, com veículos elétricos ganhando escala e baterias resolvendo limitações técnicas, o caminho para reduzir a dependência de combustíveis fósseis ganha força.
1/8 A energia hidrelétrica é a fonte renovável mais utilizada no Brasil, representando cerca de 57,3% da matriz energética do país (A energia hidrelétrica é a fonte renovável mais utilizada no Brasil, representando cerca de 57,3% da matriz energética do país)
2/8 A energia eólica ocupa o segundo lugar no ranking de energias renováveis do Brasil, respondendo por aproximadamente 11,3% da energia produzida no país (A energia eólica ocupa o segundo lugar no ranking de energias renováveis do Brasil, respondendo por aproximadamente 11,3% da energia produzida no país)
3/8 Energia solar: China lidera ranking com mais de 5 empresas no top 10 global de capacidade instalada. (A energia solar fotovoltaica representa cerca de 2,5% da energia gerada no país)
4/8 A biomassa, que inclui o uso de matéria orgânica como bagaço de cana-de-açúcar, madeira e óleos vegetais, é responsável por aproximadamente 7,5% da matriz energética brasileira (A biomassa, que inclui o uso de matéria orgânica como bagaço de cana-de-açúcar, madeira e óleos vegetais, é responsável por aproximadamente 7,5% da matriz energética brasileira)
5/8 Os biocombustíveis, como o etanol e o biodiesel, são importantes fontes de energia limpa no Brasil, especialmente no setor de transportes (Os biocombustíveis, como o etanol e o biodiesel, são importantes fontes de energia limpa no Brasil, especialmente no setor de transportes)
6/8 O biogás, produzido a partir da decomposição de resíduos orgânicos, é uma fonte promissora de energia limpa no país (O biogás, produzido a partir da decomposição de resíduos orgânicos, é uma fonte promissora de energia limpa no país)
7/8 A energia geotérmica, proveniente do calor interno da Terra, é uma fonte renovável com potencial de exploração no Brasil (A energia geotérmica, proveniente do calor interno da Terra, é uma fonte renovável com potencial de exploração no Brasil)
8/8 O hidrogênio verde é uma alternativa promissora para substituir o hidrogênio tradicionalmente obtido a partir de combustíveis fósseis, contribuindo assim para a redução das emissões de gases de efeito estufa. (O hidrogênio verde, produzido a partir de fontes renováveis, é uma tecnologia em desenvolvimento que pode se tornar uma importante fonte de energia limpa no futuro)
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