Guerra no Irã aumenta custos e reduz uso de fertilizantes no Brasil, diz Rabobank
O consumo de fertilizantes no Brasil deve cair em 2026, interrompendo o ciclo recente de crescimento após o recorde de 49,1 milhões de toneladas em 2025. A projeção é do banco holandês Rabobank, divulgada nesta quinta-feira, 26.
A estimativa é de uma redução de quase 2 milhões de toneladas, para 47,2 milhões de toneladas, em um ambiente de custos elevados e margens pressionadas no campo. Segundo o banco, o recuo ocorre em meio a uma combinação de fatores que já vinham se desenhando antes mesmo do conflito no Irã.
“Os fundamentos do mercado de fertilizantes já estavam colocando os preços em tendência de alta ao longo dos dois primeiros meses de 2026”, diz o relatório.
Nesse período, os preços acumulavam alta de cerca de 17%, com destaque para a ureia (+19%) e os fosfatados (MAP) (+17%), dois dos principais insumos utilizados nas lavouras do Brasil.
A situação se agravou com o conflito no Oriente Médio, que passou a influenciar diretamente o mercado global de insumos agrícolas. A região, estratégica na produção de gás natural — base dos fertilizantes nitrogenados —, entrou no centro das preocupações.
“Mais uma vez, a geopolítica continua a ser o principal ponto de atenção para o mercado de fertilizantes”, afirma o Rabobank.
Nesse novo cenário, a ureia se tornou o principal termômetro da escalada de preços. Em poucas semanas após o início do conflito, o produto registrou aumento expressivo.
“Em três semanas de conflito, já apresenta uma alta de mais de 46%”, diz o relatório, que também destaca que, no acumulado do ano até março, a alta chega a 76%.
O movimento de alta também começa a se espalhar para outros nutrientes. O fósforo, representado pelo MAP, já ultrapassou a marca de US$ 800 por tonelada, atingindo o maior nível desde agosto de 2022. A pressão, segundo o documento, decorre da menor disponibilidade global combinada ao aumento dos custos de matérias-primas, como o enxofre.
Apesar do histórico recente de forte demanda, o novo patamar de preços tende a alterar o comportamento do produtor rural.
“A demanda nacional dos fertilizantes deve sim ser impactada por esta elevação nos preços”, afirma o relatório. O movimento deve apertar ainda mais as margens do produtor, já pressionadas desde a safra 2023/24.
Outro fator relevante é o timing das importações. O Brasil ainda não absorveu totalmente os efeitos do choque de preços.
Segundo o Rabobank, cerca de 70% da ureia importada pelo país costuma chegar a partir de maio, o que indica que parte relevante do impacto ainda pode se materializar ao longo do ano, a depender da evolução do conflito.
Estreito de Ormuz
Nesta quinta-feira, a guerra no Oriente Médio entrou no 27º dia, com o Irã preparando um projeto de lei para cobrar pedágio de navios que navegam pelo Estreito de Ormuz, rota por onde passa cerca de 20% do petróleo mundial.
O objetivo é formalizar a soberania do país sobre a passagem e criar uma nova fonte de receita por meio da cobrança de taxas pela “segurança” oferecida às embarcações.
O estreito permanece parcialmente bloqueado desde o início do conflito, em 28 de fevereiro, quando Estados Unidos e Israel iniciaram a ofensiva contra o Irã. Teerã permite a passagem apenas de países considerados aliados, enquanto mantém restrições a outros.
Nesse cenário, o relatório do Rabobank aponta que o atual ciclo difere de episódios anteriores por incorporar um componente mais estrutural de risco.
O bloqueio de rotas estratégicas, como Ormuz, e a volatilidade nos preços de energia elevam não apenas o custo direto dos fertilizantes, mas também despesas logísticas, como frete e seguros.
Além disso, o encarecimento simultâneo do diesel e dos insumos agrícolas amplia a pressão sobre os custos de produção, afetando diversas cadeias do agronegócio.
Culturas como soja, milho e cana-de-açúcar já operam sob margens mais estreitas, com os fertilizantes assumindo papel central na formação de custos para a safra 2026/27.
A leitura do banco sugere que o insumo deixou de ser apenas uma variável técnica da produção agrícola para se tornar um componente diretamente influenciado por fatores macroeconômicos e geopolíticos — um reposicionamento que tende a redefinir decisões no campo ao longo dos próximos ciclos.
Nenhum comentário disponível no momento.
Comentários
Deixe seu comentário abaixo: