Guerra no Irã: bolsas americanas caminham para pior trimestre em quatro anos

Por Ana Luiza Serrão 31 de Março de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Guerra no Irã: bolsas americanas caminham para pior trimestre em quatro anos

As bolsas de Nova York devem encerrar o pior trimestre em quase quatro anos, em um movimento puxado pela escalada da guerra no Irã e pela disparada dos preços do petróleo. No fim do ano passado, investidores projetavam um ciclo de crescimento mais forte, com possibilidade de cortes de juros pelo Federal Reserve e expansão dos ganhos no mercado acionário.

O cenário fez o mercado apostar em ganhos mais altos e em uma migração de investimentos para ações que tinham ficado de fora da alta das empresas de tecnologia e inteligência artificial.

O quadro começou a mudar no fim de fevereiro, após o início do conflito no Oriente Médio, segundo fontes consultadas pelo Wall Street Journal. Os preços do petróleo saltaram mais de 55% desde então.

Como consequência, o S&P 500 apagou os ganhos acumulados nos sete meses anteriores. O Nasdaq entrou em território de correção no dia 26, ao acumular queda superior a 10% em relação ao pico recente. No dia seguinte, o Dow Jones Industrial Average seguiu o mesmo caminho.

Dados compilados pela FactSet mostram que dez dos 11 setores do S&P 500 recuaram em março, com perda média de 8,3%. O único segmento a escapar foi o de energia, beneficiado diretamente pela alta do petróleo.

O diretor de estratégia de investimentos da Piper Sandler, Michael Kantrowitz, afirmou ao WSJ que o mercado tinha um ambiente perfeito para expansão dos ganhos, mas que a guerra interrompeu essa trajetória.

Mudança nas apostas

A alta dos preços de energia alterou também as expectativas para a política monetária. Antes do conflito, operadores atribuíam cerca de 80% de probabilidade a pelo menos dois cortes de juros pelo Fed até o fim de 2026.

Após a escalada da guerra, a probabilidade de cortes nos juros caiu para menos de 2%, de acordo com fontes ouvidas pelo WSJ.

O encarecimento do petróleo também trouxe preocupações sobre o crescimento econômico, pois os custos mais altos tendem a reduzir o consumo e pressionar margens de empresas, aumentando o risco de desaceleração.

Estrategista-chefe de mercado da JP Morgan Asset Management, David Kelly pontou ao jornal que um conflito prolongado pode, ademais, ter efeitos severos.

"Se isso significar que não teremos mais petróleo do Golfo, haverá uma recessão global", esclareceu. Ele ponderou, no entanto, que há incentivos políticos para uma solução que evite esse cenário.

Investidores sem proteção e maior volatilidade

Tradicionalmente vistos como proteção em momentos de estresse, os títulos do Tesouro dos EUA, denominados Treasuries, também não ofereceram alívio relevante.

O CEO da BlackRock, Larry Fink, alertou para os riscos de longo prazo ligados ao conflito. Em entrevista à BBC citada pelo WSJ, ele afirmou que o desfecho do conflito pode levar a dois cenários distintos.

O primeiro deles engloba preços mais baixos e estáveis de energia caso o Irã volte ao comércio global, já um segundo retrata um período prolongado de petróleo acima de US$ 100, com impacto negativo sobre o crescimento.

Resiliência parcial e incerteza à frente

Apesar da deterioração recente, alguns indicadores ainda mostram força. Analistas projetam o sexto trimestre consecutivo de crescimento de lucros em dois dígitos para empresas do S&P 500 no início de 2026.

Dados da FactSet detalham, ainda, que investidores individuais continuam comprando ações, embora em ritmo menor.

O desempenho do setor de energia também difere com o restante do mercado, com alta acumulada de cerca de 39% no trimestre, o que pode configurar o melhor resultado da história para o segmento.

Mas o comportamento dos mercados passou a depender quase exclusivamente da trajetória do petróleo. Kantrowitz resumiu essa dinâmica ao afirmar que "se o petróleo não cair, o mercado não sobe."

O foco dos investidores e dos gestores se volta, assim, para a duração do conflito e seus efeitos sobre cadeias de suprimento e inflação, considerando os fatores de risco.

Comentários

Deixe seu comentário abaixo: