Veja o retorno dos investimentos em renda fixa com a Selic mais baixa
Até o início deste mês, tudo apontava para um corte na Selic pelo Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central. A maioria das projeções de mercado, inclusive, apontavam para um corte de 0,50 ponto percentual (p.p.).
Mas a Guerra com o Irã começou e a escalada do conflito no Oriente Médio trouxe pressão sobre os preços do petróleo — e isso pode mudar a percepção de risco do BC. As instituições financeiras estão apostando nisso: Goldman Sachs e Itaú, por exemplo, revisaram suas projeções de 0,50 p.p. para 0,25 p.p. Bank Of America também foi pelo mesmo caminho. E a XP até projeta uma manutenção da taxa.
Uma pesquisa recente do BTG Pactual (mesmo grupo de controle da EXAME), com 52 participantes do mercado financeiro, indica que a maioria (88%) espera que o Copom inicie um ciclo de cortes nesta reunião.
Entretanto, o predomínio claro é de um cenário de redução de 0,25 p.p. (71%); 17% ainda veem espaço para um início com 0,50 p.p.; enquanto 12% projetam manutenção da Selic em 15%.
Mas, caso o BC corte juros, como ficariam os investimentos em renda fixa? Eles são atrelados ao CDI, que acompanha, por sua vez, a Selic. Neste caso, eles teriam sua rentabilidade reduzida. Porém, segundo analistas, a redução seria pequena num primeiro momento, visto que a taxa está num de seus maiores patamares históricos.
“No cenário de hoje, a renda fixa ainda se mantém muito atrativa porque os juros reais continuam elevados e oferecem proteção contra a inflação com risco baixo, ideal para preservar capital no curto e médio prazo”, explica Gabriel Uarian, analista chefe da Cultura Capital, assessoria de investimentos.
Segundo análise de Rafael Winalda, especialista de renda fixa do Inter, o momento pode ser bom para investir em renda fixa, dado o aumento marginal das taxas de juros, resultado de uma volatilidade acentuada registrada desde o início das tensões geopolíticas envolvendo EUA, Israel e Irã. “Pode ser interpretado como janela de oportunidade”, diz.
Qual ativo sai ganhando?
A pedido da EXAME, Carlos Castro, planejador financeiro CFP pela Planejar, simulou a rentabilidade bruta e líquida de uma série de ativos com a Selic em novos patamares.
Entre os mais relevantes, está o investimento 120% do CDI e, na sequência, LCI ou LCA, que rendem 90% do CDI. Esses dois se diferenciam dos demais, de acordo com Uarian, pelo equilíbrio entre o percentual de remuneração atrelado ao CDI e o tratamento tributário.
O CDB oferece um multiplicador alto sobre o CDI, o que gera um rendimento bruto superior, mas como é um título bancário privado, ele sofre a alíquota cheia de 22,5% no curto prazo. Já a LCI e a LCA, emitidas por bancos para financiar o setor imobiliário ou agro, pagam um percentual menor, porém são totalmente isentas de IR para pessoas físicas, o que preserva todo o rendimento.
“Por isso eles se tornaram os mais atrativos nesse horizonte curtíssimo: maximizam o retorno líquido enquanto a Selic ainda está elevada, antes de qualquer corte, e ambos contam com a garantia do FGC até R$ 250 mil, oferecendo segurança similar à dos títulos públicos sem abrir mão de competitividade”, comenta.
Na outra ponta, a caderneta de poupança aparece como a menos atrativa na comparação porque sua remuneração é engessada por lei. Quando a Selic fica acima de 8,5% ao ano, como no cenário atual, ela rende apenas 70% da Selic mais a Taxa Referencial, que hoje é praticamente zero.
“Isso resulta em um ganho efetivo bem inferior ao CDI cheio ou mesmo a 90% dele, mesmo que a poupança seja isenta de IR e conte com garantia total do governo. No fundo, a regra da poupança foi desenhada para proteger o pequeno poupador em épocas de juros baixos, mas acaba penalizando quem busca rentabilidade quando os juros estão altos como agora”, afirma Uarian.
Apesar do retorno ainda alto dos ativos, quando comparado aos atuais 15%, há uma perda de rentabilidade. No mesmo ativo que rende 120% do CDI, o investimento de R$ 1.000 em 45 dias resultaria em R$ 1.016,46 com a Selic mantida como está, R$ 0,20 a mais do que se ela caísse para 14,75% e R$ 0,52 a mais do que se ela caísse para 14,50%.
Já o LCI ou LCA, esse mesmo investimento a 15% saltaria para R$ 1.015.96, ou seja, R$ 0,26 a mais quando comparado a um rendimento de 14,75% e R$ 0,51 quando comparado com a Selic a 14,50%.
Prefixados versus pós-fixados
Separar pós-fixados, prefixados e ativos atrelados a inflação, dentro da renda fixa, é fundamental para entender onde investir nesse momento.
“Mesmo se chegar a 12,25% no final do ano, ainda assim é uma Selic de mais de 1% ao mês, o que significa que, no curtíssimo prazo, os ativos de renda fixa que se beneficiam são os pós-fixados”, explica Castro.
Winalda concorda. Para um perfil conservador e o curto prazo, mesmo com a provável queda da Selic em 2026, os ativos pós-fixados (Selic/CDI) ainda oferecerão retornos substancialmente superiores à média histórica, justificando maior alocação para esse tipo de investidor.
Nesse grupo entram o Tesouro Selic, CDBs atrelados ao CDI e também títulos isentos, como LCI e LCA. “Mas, no caso dos títulos de crédito, como CDBs, LCI e LCA, é fundamental ter atenção ao risco. Não basta olhar apenas o percentual do CDI — o risco de crédito precisa ser considerado”, pontua Castro.
Já os prefixados, em sua visão, começam a fazer mais sentido no médio prazo. Ao comprar um título hoje para prazos acima de 12 meses, o investidor pode se beneficiar de uma queda futura dos juros. Além disso, há o efeito tributário, já que a alíquota de imposto diminui com o tempo.
“Por exemplo, ao travar uma taxa de 13,5% e, no futuro, ter uma Selic em 12,25%, o prefixado passa a render mais do que o pós-fixado. Por isso, o prefixado não é indicado para o curto prazo, mas sim para o médio prazo”, complementa.
Já os títulos atrelados à inflação, que se relacionam com a Selic, como o Tesouro IPCA, tendem a apresentar mais volatilidade, justamente por combinarem uma taxa fixa com a variação da inflação. Por isso, são mais indicados para o longo prazo.
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