Guerra no Irã encarece fertilizantes e aumenta risco de alta dos alimentos
O aumento do preço dos fertilizantes provocado pela guerra no Irã deve pressionar — ainda mais — as margens dos produtores rurais em 2026, mesmo sem uma alta proporcional nos preços das commodities agrícolas. O cenário também reacende temores de impacto indireto sobre os preços dos alimentos.
A avaliação é do banco holandês Rabobank em relatório. O levantamento mostra que a escalada do conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã adicionou um prêmio geopolítico aos mercados agrícolas, criando um possível descompasso entre os custos de produção e as receitas dos produtores.
Enquanto os fertilizantes enfrentam riscos estruturais de oferta, commodities como soja e milho seguem com estoques globais relativamente confortáveis, o que tende a limitar altas mais prolongadas de preços.
No fim de fevereiro, Estados Unidos e Israel atacaram o Irã. Os bombardeios coordenados mataram o aiatolá Ali Khamenei, líder supremo do país por quase quatro décadas, mergulhando o país em instabilidade e desencadeando um conflito que pode envolver grande parte do Oriente Médio.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou na segunda-feira, 9, que a ofensiva pode acabar em breve, mas os ataques continuam há cerca de dez dias.
Para Bruno Fonseca, analista de insumos agrícolas do Rabobank, culturas que dependem mais de nitrogênio devem sentir primeiro os efeitos da alta da ureia — um dos principais fertilizantes nitrogenados usados na agricultura.
Nesse sentido, milho, café, cana-de-açúcar e laranja estão entre as mais expostas a esse movimento.
Dados da Argus Media mostram que produtores de ureia do Oriente Médio já retiraram ofertas de venda do mercado diante da escalada das tensões, enquanto avaliam estoques e condições logísticas — especialmente a navegação pelo Estreito de Ormuz e o custo do frete marítimo.
A região é a maior exportadora global de ureia, com cerca de 20 milhões de toneladas por ano — o equivalente a 35% do comércio marítimo mundial.
O próprio Irã tem participação relevante nesse mercado: o país concentra 11% das exportações globais de ureia e 5% das de amônia, matéria-prima essencial para fertilizantes, segundo dados da Argus Media e da StoneX.
A soja, por outro lado, tende a sentir menos o impacto direto da alta da ureia, já que a cultura fixa nitrogênio biologicamente. Ainda assim, o grão não está totalmente protegido.
O custo do fósforo, outro nutriente essencial, também pode subir em meio às tensões geopolíticas, o que ampliaria o impacto sobre diferentes culturas.
“O conflito tem potencial de aumentar o custo de produção para o produtor brasileiro, primeiro via fertilizantes e depois por outros fatores da cadeia”, afirma.
Além dos fertilizantes, o conflito no Oriente Médio pode gerar efeitos indiretos sobre o agronegócio, principalmente por meio do aumento dos preços da energia.
O diesel, combustível essencial para as operações agrícolas e para o transporte de insumos e grãos, tende a reagir rapidamente a tensões geopolíticas na região. Com isso, os custos logísticos e operacionais das propriedades rurais podem subir, pressionando ainda mais as margens.
No Rio Grande do Sul, produtores relatam falta de diesel para as colheitadeiras, o que deve impactar a colheita de arroz e soja do estado. A Federação dos Agricultores do Rio Grande do Sul (Farsul) disse à EXAME na segunda-feira, 9, que deve refazer as estimativas para a inflação dos alimentos para esse ano em razão do conflito.
Segundo Fonseca, o cenário ainda depende da evolução do conflito e de seus efeitos sobre variáveis macroeconômicas importantes, como câmbio, juros e preços de outras commodities.
“Há muitos efeitos secundários possíveis. No primeiro momento o impacto aparece no fertilizante, mas depois pode se espalhar para outros custos da produção”, diz o analista.
Fertilizantes no agro
Segundo a Argus Media, os preços de combustíveis e fertilizantes só devem escapar de novas rodadas de aumento caso haja um rápido restabelecimento da segurança na passagem de navios pelo Estreito de Ormuz e pelo Mar Vermelho.
Outro ponto destacado pelo estudo é o peso desses insumos no orçamento das propriedades rurais.
Fertilizantes costumam representar entre 40% e 50% do custo variável de culturas como grãos, o que faz com que qualquer choque de preços seja rapidamente sentido na rentabilidade agrícola.
Com os preços de fertilizantes subindo mais rápido que os das commodities agrícolas, a diferença entre custos e receitas do produtor tende a aumentar globalmente. O relatório alerta que esse cenário pode levar à compressão de margens em diversas regiões produtoras.
Nesse ambiente, o banco afirma que os fertilizantes provavelmente absorverão um prêmio geopolítico mais duradouro, enquanto as commodities agrícolas tendem a reagir apenas de forma indireta, principalmente via aumento de custos de energia e frete.
“A grande questão agora é a incerteza. Como o conflito ainda está em andamento, é difícil fazer uma leitura muito clara dos impactos", diz Fonseca.
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