Hantavirus x Covid: Por que vírus dos Andes não causará a próxima pandemia?
Quando um surto de vírus foi relatado em um navio de cruzeiro, muitas pessoas imediatamente associaram a situação à disseminação da Covid-19. No caso do Ruby Princess, que atracou em Sydney em março de 2020, 575 passageiros e tripulantes desembarcaram com Covid-19, o que resultou em um rápido espalhamento do vírus pela comunidade.
A preocupação com a necessidade de quarentena para os passageiros do MV Hondius, após possível exposição ao hantavírus dos Andes, transmitido por roedores, é compreensível.
Entretanto, a comparação com a Covid-19 possui limitações. Embora o vírus andino seja grave e as autoridades estejam corretamente agindo com precaução, especialistas, incluindo os da Organização Mundial da Saúde (OMS), indicam que ele não tem as características necessárias para se tornar uma pandemia global, como ocorreu com a Covid-19.
Até 11 de maio, as autoridades de saúde europeias haviam registrado nove casos ligados ao cruzeiro, com sete confirmados e dois prováveis, além de três mortes. Cinco australianos e um neozelandês estão sendo repatriados para a Austrália, onde ficarão em quarentena e monitoramento no Centro de Resiliência Nacional, próximo à Base Aérea RAAF Pearce, na Austrália Ocidental.
A seguir, veja o que você precisa entender sobre o hantavírus, os riscos de transmissão e como ele difere da Covid-19.
Como o hantavírus é transmitido?
Segundo um artigo de Rhys Parry, pesquisador associado em Virologia na Universidade de Queensland, publicado pelo The Conversation, os hantavírus são um grupo de vírus transmitidos principalmente por roedores, como camundongos e ratos. A infecção humana geralmente ocorre pela inalação de partículas de urina, fezes ou saliva desses roedores contaminados.
A maioria dos hantavírus não se espalha de pessoa para pessoa. O vírus dos Andes é a exceção, sendo o único hantavírus documentado que pode se transmitir entre pessoas, mas essa transmissão não é fácil. A transmissão de pessoa para pessoa é rara e ocorre principalmente em ambientes fechados e mal ventilados, onde há contato próximo, como em casas ou durante exposição prolongada.
Esse padrão de transmissão é bem distinto do SARS-CoV-2, o vírus que causa a Covid-19, que se espalha rapidamente pelo ar e permite que uma pessoa infectada contagie outras antes mesmo de saber que está doente.
O vírus dos Andes exige condições específicas para sua transmissão entre pessoas, como ambientes lotados e mal ventilados com contato próximo. Foi isso que aconteceu no MV Hondius. Essa diferença no modo de propagação é o motivo pelo qual o SARS-CoV-2 levou a uma pandemia, enquanto o hantavírus dos Andes gerou surtos localizados.
Quais são os sintomas do vírus dos Andes?
Os primeiros sintomas do vírus dos Andes podem ser semelhantes aos de muitas outras doenças, como febre, dor de cabeça, dores musculares, náusea e fadiga, informou o especialista no artigo.
Em alguns casos, a infecção pode evoluir para a síndrome pulmonar por hantavírus, uma condição potencialmente fatal que dificulta a respiração.
Quanto tempo leva para os sintomas aparecerem?
A OMS recomenda que as pessoas que foram expostas ao vírus dos Andes monitorem o surgimento de sintomas por até 42 dias após a última possível exposição. Este período reflete o tempo máximo entre a infecção e o início dos sintomas, mas não significa que a pessoa seja contagiosa durante todo esse tempo.
As autoridades australianas indicaram que os passageiros retornados serão mantidos em quarentena por três semanas, com monitoramento adicional posteriormente. O Instituto Doherty de Melbourne realizará testes utilizando a reação em cadeia da polimerase (PCR), que detecta material genético do vírus, além de testes sorológicos para detectar anticorpos.
Um teste negativo logo após a exposição é útil, mas não é conclusivo, pois o vírus pode estar no período de incubação, e não ser detectado ainda.
Como o vírus se desenvolve?
De acordo com Rhys Parry, o longo período de incubação do vírus dos Andes contrasta com o rápido desenvolvimento da Covid-19. O SARS-CoV-2 se replica rapidamente no sistema respiratório, fazendo com que os sintomas apareçam em poucos dias.
No caso do vírus dos Andes, a doença grave é ligada a disfunções nos vasos sanguíneos e à resposta inflamatória do sistema imunológico, que provoca a perda de líquido nos pulmões, dificultando a respiração. Essa reação não é resultado da destruição direta dos pulmões pelo vírus, mas da resposta imunológica.
Qual é o risco do vírus dos Andes?
As taxas de mortalidade variam entre as diferentes cepas de hantavírus. As versões europeias e asiáticas costumam causar menos de 15% de mortes, enquanto a síndrome pulmonar por hantavírus provocada pelas cepas americanas, como o vírus dos Andes, pode chegar a 50%.
Para colocar isso em perspectiva, em 2025, oito países da América relataram 229 casos de hantavírus, com 59 mortes. Embora essas infecções sejam graves, ainda são eventos raros. Um vírus não se torna uma pandemia apenas por ser fatal.
O vírus dos Andes tem tratamento?
Atualmente, não existe um medicamento antiviral específico para o vírus dos Andes. O tratamento concentra-se no suporte respiratório e no controle de complicações cardíacas e renais. Não há vacina licenciada contra o vírus, explica o virologista da Universidade de Queensland.
No entanto, a resposta científica ao surto tem sido rápida. Laboratórios suíços conseguiram sequenciar o código genético do vírus a partir de um paciente e disponibilizaram a informação em poucos dias. Isso permitiu uma referência para os pesquisadores de todo o mundo, ajudando a confirmar casos suspeitos e a identificar os indivíduos que precisam de monitoramento ou isolamento.
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