NR-1: afastamentos por saúde mental quintuplicam nas empresas brasileiras
Os afastamentos relacionados à saúde mental nas empresas brasileiras cresceu cinco vezes em 2025 em comparação ao ano anterior e já duram, em média, o dobro do tempo quando comparados a licenças por outras doenças. O dado faz parte de um levantamento da Suridata, plataforma de inteligência em saúde corporativa, que analisou 45.240 atestados médicos emitidos entre 2022 e 2025.
A pesquisa também identificou que os quadros de burnout, ansiedade e depressão têm levado profissionais a períodos significativamente mais longos fora do trabalho.
Para Daniel Barra, CEO da Suridata, o cenário revela uma ruptura no modelo de trabalho atual.
“Os dados da Suridata mostram não uma curva de crescimento gradual, mas uma ruptura”, afirma o executivo. “O modelo vem ultrapassando, sucessivamente, o que já parecia ser seu limite.”
Os 3 fatores que explicam o salto de casos
Segundo ele, três fatores explicam o salto dos casos:
A diretora de saúde da Suridata, Mariana Brambilla, afirma que o período pós-pandemia funcionou como um “catalisador” para transtornos que já estavam latentes.
“O corpo e a mente cobraram a conta assim que a rotina tentou voltar ao normal”, diz.
O custo invisível da saúde mental
Além do impacto humano, o avanço dos afastamentos por transtornos mentais também começa a pressionar a operação e as finanças das empresas.
De acordo com Barra, o problema deixa de ser apenas uma pauta de bem-estar e passa a ser um risco operacional quando começa a afetar a continuidade do negócio, o reajuste dos planos de saúde e a produtividade das equipes.
“O funcionário que sai leva conhecimento acumulado. A equipe que absorve a demanda começa a adoecer na sequência”, afirma.
O levantamento aponta ainda custos indiretos frequentemente ignorados pelas companhias, como perda de memória institucional, aumento do FAP (Fator Acidentário de Prevenção), sobrecarga dos times e despesas com substituições temporárias.
Liderança despreparada amplia risco de burnout
Outro ponto identificado pela Suridata é a concentração dos casos de adoecimento em determinadas áreas e equipes, indicando falhas estruturais de gestão.
Segundo Barra, líderes despreparados têm impacto direto no aumento dos casos de burnout e recaídas após afastamentos.
“O ambiente que adoeceu continua lá. E o ambiente, na maioria das vezes, tem nome e sobrenome”, afirma.
Ele explica que muitos gestores ainda confundem produtividade com presença e não possuem ferramentas para identificar sinais de sofrimento emocional antes que o problema resulte em afastamento médico.
NR-1 deve aumentar pressão sobre empresas
O avanço dos casos acontece em um momento em que a saúde mental passa a ganhar peso regulatório no Brasil.
As novas exigências da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que incluem riscos psicossociais e saúde mental no ambiente corporativo, estão em vigor em caráter educativo desde maio de 2025, com início da fiscalização previsto para maio de 2026.
A norma pode representar, segundo Barra, um ponto de virada para o mercado corporativo, desde que as empresas não tratem o tema apenas como burocracia.
“Se for tratada como mais um checklist regulatório, vai gerar documentos bem formatados e zero evolução em comportamento”, afirma.
Para ele, um dos principais erros das companhias será enxergar a saúde mental apenas como responsabilidade do RH, sem envolver liderança, operação e análise de dados dos planos de saúde corporativos.
O “silêncio masculino” preocupa empresas
O estudo também identificou um padrão preocupante entre homens.
Embora utilizem menos o plano de saúde em consultas preventivas e exames de rotina, colaboradores homens apresentam custos muito maiores quando chegam ao sistema de saúde com transtornos mentais.
Homens com diagnóstico psiquiátrico registrado chegam a gerar um sinistro médio de R$ 13,4 mil, contra R$ 2,1 mil em casos sem risco psiquiátrico — um aumento de 538%, segundo Barra.
“O homem historicamente evita o sistema de saúde. Quando ele finalmente chega a um atendimento psiquiátrico, normalmente o quadro já é mais grave”, afirma Mariana Brambilla.
A pesquisa da Suridata mostra um cenário que saúde mental deixou de ser um benefício opcional e passou a ser uma questão de continuidade de negócio.
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