IA acelera debate sobre soberania tecnológica no Brasil
A inteligência artificial representa uma nova camada de disputa econômica, social e geopolítica, na qual o Brasil precisa decidir se será apenas consumidor de tecnologia ou se ocupará elos mais relevantes da cadeia de valor. Esse foi o tema central do painel IA para o desenvolvimento do país, do AI Summit EXAME, realizado em 2 de junho, em São Paulo. O debate discutiu como a IA pode transformar políticas públicas, desenvolvimento econômico, e quais os desafios de geopolítica e infraestrutura própria.
Realizado pela EXAME em parceria com a Saint Paul, o AI Summit reuniu especialistas e lideranças em mais de oito horas de conteúdo sobre IA aplicada aos negócios. A proposta foi conectar tecnologia, estratégia e gestão, com foco em decisões capazes de gerar valor para empresas e carreiras.
O debate reuniu Celso Camilo, mestre e doutor em Inteligência Artificial, Luis Fernando Prado, sócio do Prado Vidigal Advogados e líder do Comitê de IA Responsável na Associação Brasileira de Inteligência Artificial (Abria), e André Lopes, editor de IA e Tech na EXAME, que atuou como mediador.
Camilo abriu sua participação situando a inteligência artificial como parte de uma sequência histórica de revoluções tecnológicas. Para ele, a IA aparece como mais um ciclo de uma espiral em que tecnologia e sociedade se reorganizam mutuamente. “Três vetores impulsionam essas revoluções: processos mais baratos, mais rápidos e eventualmente melhores. Quando as três se juntam, é imparável”, afirmou.
O debate avançou para a posição do Brasil no tabuleiro internacional. Lopes observou que a posição do Brasil como consumidor de IA ainda deve se manter por algum tempo e que a definição de um papel mais ativo dependerá da velocidade de adoção da tecnologia e da forma como o país regulará seu uso.
Regulação em debate
Prado concentrou sua participação na discussão sobre regulação e se referiu ao PL 2.338/2023, que regulamenta o desenvolvimento, o fomento e o uso responsável de sistemas de IA no Brasil, aprovado no Senado e enviado à Câmara, onde tramita em comissão especial. Para ele, o país corre o risco de abordar a IA sobretudo pelo viés da restrição, quando deveria combinar regras com estímulos ao desenvolvimento tecnológico, capacitação profissional e investimento em infraestrutura. “Por que a pressa de regular, em vez de a gente ter a pressa de incentivar o uso?”, questionou, ao defender uma política que identifique as oportunidades do país e incentive o desenvolvimento e a aplicação da nova tecnologia.
Outro ponto destacado foi a ausência de uma agenda clara de requalificação profissional. O tema apareceu como um dos principais desafios sociais da IA, especialmente diante da possibilidade de mudanças rápidas em funções e modelos de trabalho. Prado lamentou a ausência do tema no projeto de lei em discussão no Congresso. “O PL 2.338 tem por volta de 40, 50 artigos, e não há nada falando da requalificação de mão de obra das pessoas, que é um discurso que aparece na própria fala dos CEOs das grandes empresas de tecnologia”, afirmou.
Os participantes também destacaram iniciativas brasileiras no desenvolvimento da nova tecnologia. Lopes citou empresas nacionais que integram o ecossistema global da NVIDIA e trabalham com modelos fundacionais baseados em dados brasileiros. Camilo apresentou experiências ligadas ao Centro de Excelência em Inteligência Artificial (CEIA), da Universidade Federal de Goiás, que atua com empresas de setores como energia, segurança, saúde, logística, finanças, varejo e mercado jurídico. Entre elas, citou o GAIA, modelo de linguagem aberto voltado ao português brasileiro, pensado para servir como base para aplicações de IA generativa no Brasil, desenvolvido em parceria com o Google, e o Lumina, voltado à IA genômica. Os casos reforçaram a importância de aproximar universidade, setor privado e poder público para ampliar a capacidade tecnológica do país.
Utilização informal
A conversa também abordou os desafios das empresas para incorporar a IA ao dia a dia sem perder controle sobre processos, dados e responsabilidades. Prado afirmou que, em muitas companhias, observa-se o fenômeno conhecido como shadow AI, em que os colaboradores usam ferramentas de IA de forma informal, fora das políticas oficiais da corporação.
Essa prática, segundo ele, pode gerar ganhos de produtividade que as organizações não querem simplesmente bloquear. Mas exige regras mais claras sobre contratos, limites, proteção de dados e responsabilidades. O desafio, em sua opinião, é criar uma governança que reduza riscos sem frear a experimentação nem impedir que a tecnologia transforme modelos de trabalho, produtividade e remuneração.
No setor jurídico, observou Prado, a tecnologia pressiona o modelo de cobrança por hora e obriga escritórios a repensar como demonstram valor quando uma entrega pode ser produzida em poucos minutos, mas ainda depende de revisão especializada.
De acordo com os participantes do painel, mais do que adotar ferramentas isoladas, as empresas precisam redesenhar processos, preparar equipes e definir objetivos de uso. Segundo eles, a IA só tende a gerar ganhos consistentes quando vem acompanhada de transformação organizacional, e não apenas da contratação de sistemas prontos.
Outro eixo do debate foi a infraestrutura necessária para sustentar o avanço da IA. A questão central abordada foi se o Brasil conseguirá participar das etapas de maior valor agregado da cadeia tecnológica ou se repetirá a lógica de fornecedor de insumos básicos. Camilo lembrou que o país dispõe das condições necessárias para receber grandes estruturas de data centers, como terra e energia limpa abundantes. Mas, segundo ele, isso não garante soberania se modelos, plataformas e aplicações continuarem concentrados em outros países.
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