IA, eficiência e escassez de mão de obra dominam a maior feira de restaurantes do mundo

Por Isabela Rovaroto 16 de Maio de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
IA, eficiência e escassez de mão de obra dominam a maior feira de restaurantes do mundo

Chicago, EUA* — A National Restaurant Association Show (NRA Show), maior feira de food service do mundo, começou neste sábado em Chicago, no centro de convenções McCormick Place, reunindo mais de 2.200 expositores entre fabricantes de equipamentos, fornecedores de ingredientes e empresas de tecnologia.

Neste ano, o evento recebe uma delegação brasileira recorde: cerca de 7.400 participantes confirmados, a maior representação internacional da feira.

O clima entre executivos, fornecedores e operadores do setor é menos de celebração e mais de adaptação. Em meio à pressão sobre custos e à desaceleração do consumo, a indústria discute como preservar margens em um cenário marcado pela escassez de mão de obra, transformação dos hábitos alimentares e necessidade crescente de ganhar eficiência operacional.

Os principais temas do mercado de food service global

Em painel com jornalistas realizado no primeiro dia da feira, executivos e analistas traçaram um diagnóstico desafiador para o setor.

Segundo dados apresentados pela consultoria Technomic, mais de 40% dos restaurantes independentes nos Estados Unidos encerraram o último ano no vermelho, pressionados pelo aumento de custos e pela necessidade de reajustar preços em cerca de 4%.

“Valor não significa comida barata”, resumiu David Henkes, analista sênior da Technomic.

Segundo ele, o consumidor ficou mais criterioso e passou a avaliar sabor, tamanho da porção, qualidade do atendimento e preço de forma combinada antes de decidir onde gastar.O efeito prático é um cliente mais cauteloso, que tende a apostar em itens conhecidos para reduzir o risco de frustração.

O avanço do delivery e do take-away também mudou a dinâmica competitiva do setor. Com diferentes categorias disputando espaço nos mesmos aplicativos, restaurantes passaram a competir de forma mais direta pela atenção e pela recorrência do consumidor.

Efeito Mounjaro

Entre os temas que dominaram os debates na abertura do evento está a chamada “economia do Ozempic” — referência ao avanço do uso de medicamentos GLP-1, como Ozempic e Mounjaro, que vêm alterando padrões de consumo alimentar e passando a influenciar decisões de redes de restaurantes e fabricantes de alimentos.

Segundo David Henkes, analista sênior da Technomic, o setor já acompanha efeitos concretos do avanço dos medicamentos GLP-1 nos hábitos de consumo, especialmente na busca por porções menores, alimentos ricos em proteína e bebidas funcionais. “Não é mais uma tendência marginal. A indústria inteira está observando isso.”

Se antes a tecnologia aparecia como diferencial competitivo, agora ela é tratada como ferramenta de sobrevivência. A redução de desperdício virou prioridade operacional, especialmente nas áreas internas das cozinhas e estoques, o chamado “back of house”.

Khara Mangiduyos, cofundadora do Kalei’s Kitchenette, em San Diego, contou que começou a usar uma ferramenta de inteligência artificial integrada ao sistema de gestão da operação para identificar padrões de ineficiência.

“Consegui identificar um ponto cego em recursos humanos e economizei 2 mil dólares imediatamente”, afirmou. “Não é sobre cortar o tempo todo. É sobre usar melhor os dados que você já tem.”

A falta de mão de obra

Nos corredores da feira, as soluções mais comentadas incluem fritadeiras automatizadas, sistemas de monitoramento de temperatura com IA e plataformas capazes de atender reservas e pedidos sem intervenção humana, liberando funcionários para tarefas de atendimento e relacionamento com clientes.

A crise de mão de obra segue como um dos principais problemas estruturais do setor. O envelhecimento da população e a menor entrada de jovens no mercado de trabalho vêm reduzindo a oferta de trabalhadores de forma persistente, especialmente em operações intensivas em serviço.

A resposta, segundo especialistas presentes no evento, não está em substituir pessoas por máquinas, mas em tornar o trabalho menos desgastante.

Ferramentas que dão mais transparência sobre vendas e gorjetas, reduzem tarefas repetitivas e ampliam a autonomia operacional aparecem como fatores relevantes para retenção e em alguns casos, até mais importantes do que salário.

A inovação nas bebidas

Outro destaque inesperado da edição deste ano é o crescimento da categoria de bebidas frias. A Technomic classificou o segmento como a nova “fronteira de inovação” do food service.

Refrescos coloridos, limonadas energizadas e bebidas funcionais com THC, CBD e cogumelos ganham espaço principalmente entre consumidores mais jovens em busca de pequenas indulgências mesmo em momentos de contenção de gastos.

O álcool, por outro lado, continua perdendo espaço. “O crescimento está nas bebidas não alcoólicas inovadoras. É onde está a empolgação”, disse Henkes.

* A repórter viajou a convite da Galunion

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