IA ou personal trainer: qual é o futuro do treino personalizado?
Nove em cada dez pessoas ainda querem ser acompanhadas por personal trainers humanos. É o que aponta o Relatório Global de Fitness de 2026 da Les Mills, que ouviu mais de 10.000 pessoas em cinco continentes e apenas 10% preferiram a orientação de treino por inteligência artificial (IA). Entre a Geração Z e os Millennials, que seriam os grupos mais jovens e mais acostumados à tecnologia no dia a dia, o índice não passa de 11%.
Os próprios profissionais de educação física não sentem que serão substituídos tão cedo. Um relatório recente da ISSA mostra que 64% dos treinadores acreditam que a IA deve aumentar o valor do profissional certificado nos próximos anos.
Isso não significa, porém, que a IA não está nas academias. Ela entrou por outra porta: o setor global de aplicativos de fitness, avaliado em US$ 10,6 bilhões em 2024, deve atingir US$ 33,6 bilhões até 2033, alavancado pela personalização por IA e integração com wearables, como relógios e pulseiras inteligentes, segundo dados da ResearchAndMarkets.com.
Personalização
A personalização é um dos fatores-chave para a incorporação cada vez maior da IA ao mundo fitness. Todos os dias, as pessoas compartilham informações sobre suas rotinas, objetivos, dificuldades e até informações de saúde com os chatbots. A partir desses dados, a tecnologia pode prescrever protocolos superindividualizados, além do "mais do mesmo" que muitos alunos costumam reclamar nas academias.
É o que reforça um estudo da Escola de Educação Física e Esporte (EEFE) da USP, que investigou se a personalização por IA poderia aumentar a adesão ao exercício físico. A pesquisa usou machine learning para mapear perfis comportamentais e testar se esses treinos manteriam as pessoas ativas por mais tempo. O estudo analisou 31 participantes divididos em dois grupos: um recebeu treinos personalizados, ajustados ao seu perfil comportamental, e o outro recebeu uma prescrição genérica.
O resultado apontou que o grupo de participantes com treinos personalizados teve 9,4 vezes mais chances de continuar praticando atividade física em comparação ao outro. A taxa de retenção passou dos 90% e continuou alta mesmo nos períodos sem acompanhamento.
"Quando o profissional conhece o perfil comportamental do praticante e prescreve os exercícios respeitando essas características, ele é capaz de promover aderência", afirmou Rodrigo Silveira da Silva, autor do estudo, ao portal da universidade.
A IA pode funcionar também como um complemento ao treino personalizado. Em janeiro de 2026, a jornalista Amanda Smith, da CNET, fez o experimento de usar o ChatGPT em paralelo ao acompanhamento profissional. Perto dos 40 anos e se preparando para engravidar, ela quis priorizar o fortalecimento.
Após uma avaliação corporal que apontou 37,9% de gordura, recebeu a orientação de focar no ganho de massa muscular para melhorar o metabolismo. Com esses dados em mãos, recorreu ao ChatGPT para obter sugestões adicionais. A ferramenta indicou ajustes na dieta e no planejamento dos treinos. Como estava sempre disponível para tirar dúvidas, a IA funcionou como uma segunda camada de apoio para Smith. No entanto, as decisões finais seguiram sob supervisão de sua treinadora.
"Posso usar IA para considerar outras opções além do aconselhamento profissional e obter informações ainda mais detalhadas (e tirar minhas dúvidas a qualquer hora do dia). Depois, posso confirmar tudo o que aprendi com um especialista antes de fazer qualquer alteração na minha dieta ou rotina de exercícios", escreveu Smith.
O melhor dos dois mundos
Diante disso, empresas do setor começaram a pensar em alternativas que combinem o acompanhamento humano com o da IA. O Future, aplicativo de treinos que se fundiu com a Autograph, empresa de engajamento de atletas fundada por Tom Brady, dividiu-se em dois produtos.
O Future — em versão beta e gratuito — conecta usuários a um mecanismo de IA treinado com dados reais de exercícios, com opção de escolher entre diferentes personalidades de voz para o treinador. Já o Future Pro faz uma ponte entre o aluno e o personal trainer, por US$ 199 por mês.
O Caliber opera no mesmo modelo: versão gratuita com biblioteca de exercícios e planos autoguiados; acompanhamento com personal por cerca de US$ 200 mensais.
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