Insetos no cardápio? Estudo mostra como a dieta humana mudou radicalmente

Por Vanessa Loiola 10 de Junho de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Insetos no cardápio? Estudo mostra como a dieta humana mudou radicalmente

Humanos modernos que viveram na Europa e em partes da Ásia consumiam poucos insetos há milhares de anos, enquanto os neandertais recorriam a esse alimento com muito mais frequência. A conclusão é de um estudo publicado na revista Science Advances, que analisou DNA preservado em tártaro dentário antigo e identificou diferenças na dieta e na capacidade de digestão entre populações humanas pré-históricas.

A pesquisa foi conduzida por cientistas do Instituto de Biologia Evolutiva (IBE), na Espanha, e sugere que o abandono gradual do consumo de insetos pode ter sido influenciado por fatores ambientais, disponibilidade de alimentos e adaptações genéticas acumuladas ao longo da evolução humana.

Pra os resultados, os pesquisadores analisaram 745 amostras de tártaro dentário de indivíduos que viveram entre 9 mil e mais de 100 mil anos atrás. O material funciona como uma espécie de cápsula do tempo biológica, preservando fragmentos de DNA de alimentos consumidos ao longo da vida.

Dieta dos humanos modernos

Os cientistas encontraram poucos vestígios de insetos nos dentes de populações de Homo sapiens que viveram na Europa, Ásia Central e Ásia Oriental.

Segundo a análise, quando esses animais apareciam nos registros genéticos, provavelmente eram ingeridos de forma acidental, por meio de água ou alimentos contaminados.

De acordo com os autores, a baixa presença de insetos na dieta sugere que a ausência da entomofagia — prática de consumir insetos — não pode ser explicada apenas por hábitos culturais recentes, mas também por fatores ecológicos e evolutivos que se desenvolveram ao longo de milhares de anos.

O caso dos neandertais

A situação foi diferente entre os neandertais. Ao analisar 18 amostras de tártaro dentário desse grupo humano extinto, os pesquisadores encontraram uma quantidade significativamente maior de DNA de insetos.

A abundância observada foi semelhante à registrada em chimpanzés selvagens, conhecidos por complementar a alimentação com insetos, sobretudo em períodos de escassez de recursos.

Entre os vestígios identificados estavam insetos do grupo dos dípteros, que inclui moscas e mosquitos. Uma das hipóteses levantadas pelos cientistas é que esses insetos estivessem associados ao consumo de carcaças de animais, já que larvas de moscas costumam se desenvolver em tecidos em decomposição.

O papel da genética

Além dos vestígios alimentares, a equipe investigou genes relacionados à digestão da quitina, substância que compõe o exoesqueleto dos insetos.

A análise mostrou que populações humanas do norte da Eurásia apresentavam mutações associadas a uma menor capacidade de processar esse material. Segundo os pesquisadores, esse padrão genético existe há pelo menos 9 mil anos.

Já os neandertais e o único indivíduo denisovano analisado possuíam variantes genéticas associadas a uma digestão mais eficiente da quitina.

O mesmo perfil genético ainda pode ser encontrado em populações atuais que vivem próximas aos trópicos, onde os insetos permanecem abundantes durante grande parte do ano.

Como o ambiente influenciou a dieta

Os autores sugerem que a disponibilidade de insetos teve papel importante na evolução dos hábitos alimentares humanos. Em regiões tropicais, insetos sociais como formigas e cupins podem ser encontrados em grandes quantidades durante todo o ano, tornando-se uma fonte de alimento mais acessível.

À medida que grupos humanos migraram para latitudes mais altas, onde os insetos são menos abundantes, a importância desse recurso alimentar parece ter diminuído gradualmente.

Atualmente, organizações como a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) defendem os insetos como uma alternativa sustentável de proteína. Mais de 1.600 espécies são consideradas comestíveis e fazem parte da alimentação de milhões de pessoas em diferentes regiões do mundo.

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