Itália desafia Pacto Verde Europeu ao propor reforma no mercado de eletricidade

Por Lia Rizzo 3 de Março de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Itália desafia Pacto Verde Europeu ao propor reforma no mercado de eletricidade

A Itália escolheu o sistema de precificação de carbono europeu como terreno para uma disputa que mistura política energética e calendário eleitoral.

No início deste ano, o governo da primeira-ministra Giorgia Meloni apresentou uma proposta para reformar o mercado de eletricidade do país, retirando os custos das licenças de emissão de carbono do preço cobrado no atacado.

Pelo uso de eletricidade, a indústria italiana paga cerca de 30% acima da média dos demais países da União Europeia. Para o governo Meloni - e também para fabricantes e associações -, esse aspecto impacta diretamente a competitividade.

Adicionalmente, em 2025 a produção industrial do país recuou 0,2%, seguindo uma tendência de queda que foi ainda mais acentuada no ano anterior. E o setor automotivo, historicamente forte na região norte do país, atravessa uma das piores fases de sua história recente.

A medida, que ainda percorre um longo caminho institucional antes de qualquer desfecho, passando por apovação parlamentar em Roma antes do aval de Bruxelas, já encontra resistência nas duas frentes.

Como funciona a proposta

No mercado europeu de eletricidade, quem define o preço pago por todos os geradores é sempre a fonte mais cara em operação; na maior parte do tempo, a geração a gás.

Como as usinas a gás precisam comprar licenças de emissão de carbono dentro do Sistema de Comércio de Emissões da UE, esse custo acaba embutido no preço pago até mesmo por quem produz energia solar ou hidrelétrica, sem qualquer emissão a compensar.

Essas licenças chegam a representar um quarto do preço da eletricidade no mercado atacadista italiano. O que a Itália propõe é que o governo reembolse os produtores de gás pelo valor dessas licenças, financiando esse repasse com uma cobrança direta aos consumidores de eletricidade.

Na lógica da administração italiana, separar esse custo do preço de mercado reduziria as contas industriais e aliviaria a pressão sobre a competitividade sem comprometer a geração.

Meloni chegou a classificar publicamente o sistema atual como um tributo imposto pela Europa, numa sinalização clara sobre o tom que pretende adotar na negociação com Bruxelas.

Remédio ou veneno?

Embora o maior foco de confronto seja com Bruxelas, visto que qualquer alteração no Sistema de Comércio de Emissões da UE depende de aprovação da Comissão Europeia, a principal objeção ao plano vem de outro lugar: o próprio setor energético italiano.

Conforme informações do Financial Times, especialistas em energia alertam que a queda nos preços do atacado reduziria a receita das empresas de energia renovável - considerando, inclusive, que a Itália já está atrasada em relação a outros países europeus na expansão dessas fontes.

Mais de 150 cientistas e economistas italianos, entre eles um prêmio Nobel de física, assinaram uma carta aberta ao governo alertando que mexer no sistema de precificação de carbono compromete metas climáticas cujos custos, se ignorados agora, serão pagos no futuro.

Para os críticos, o efeito prático seria equivalente ao de um imposto sobre a energia limpa, penalizando exatamente o segmento que o Pacto Verde Europeu busca estimular.

Ao Financial Times, uma empresa italiana de renováveis classificou a medida como um tratamento pior do que a doença, argumentando que o resultado concreto seria um estímulo ao consumo de gás, na contramão dos objetivos climáticos do bloco.

Há ainda o risco de o mecanismo se voltar contra os próprios consumidores italianos. Com os preços no atacado caindo de forma acentuada, outras nações europeias passariam a importar mais eletricidade da Itália.

A dinâmica aumentaria o consumo interno de gás e, com ele, a necessidade de compra de licenças de emissão. O custo dessas licenças, pelo próprio desenho da proposta, seria repassado aos italianos. Em resumo, o país terminaria pagando a conta climática de consumidores estrangeiros.

O cenário econômico por trás da disputa

Analistas de mercado são categóricos ao afirmar que reformas desse tipo precisam ser coordenadas no âmbito europeu para funcionar.

Aplicadas isoladamente por um Estado-membro, tendem a gerar distorções que se propagam pela rede interconectada do continente e corroem a lógica do sistema de precificação de carbono como um todo.

Contudo, para entender a inviabilidade da negociação mais ampla, é preciso olhar para além do debate técnico sobre o mercado de energia.

A Itátia tem um dos ritmos de crescimento mais lentos da zona do euro. O PIB avançou apenas entre 0,4% e 0,5% em 2025, bem abaixo de vizinhos mediterrâneos como Espanha e Grécia.

A dívida pública próxima de 136% do PIB impõe um teto estreito para qualquer política de estímulo, e os salários reais seguem abaixo dos níveis de 2021, corroendo o poder de compra da população.

Meloni, que é primeira-ministra desde 2022, tem atribuído esse desempenho a fatores externos. Como por exemplo, a recessão alemã pesa especialmente sobre o norte industrial italiano, que tem na Alemanha um de seus principais compradores e parceiros de produção.

O governo da Itália também considera que as políticas climáticas europeias que aceleraram o fim dos motores a combustão agravaram a crise em seu já fragilizado setor automotivo.

A menos de dois anos do fim de seu mandato, a narrativa de culpabilização externa de Meloni deixou de ser defensiva e passou a ser uma estratégia ativa. Sua proposta de reforma do mercado de energia é parte de uma estratégia maior.

Do ponto de vista doméstico, sinaliza ao eleitorado industrial que o governo age por seus interesses. Num olhar político mais amplo, coloca Bruxelas numa posição desconfortável: se aprovar, valida a tese italiana; se rejeitar, a primeira-ministra se usará do argumento de que a Europa não deixa Itália resolver seus próprios problemas.

Fissura no sistema climático europeu?

De acordo com o Financial Times, um porta-voz da Comissão Eurpeia afirmou que o bloco está ciente das intenções italianas e lembrou que qualquer medida de apoio setorial precisa estar alinhada com o direito europeu.

A própria Comissão tem para março uma agenda de propostas de reforma do mercado de energia europeu, o que significa que Roma e Bruxelas já estão, na prática, negociando - mesmo antes de a proposta de Meloni ser formalmente submetida.

As questão italiana, contudo, inquieta analistas não apenas pelo que representa para a Itália, mas pelo risco de "contágio".

A Alemanha já sinalizou interesse em suavizar o sistema de emissões para a indústria pesada e, no Reino Unido, a oposição conservadora promete eliminar o imposto de carbono se voltar ao poder.

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