Juros altos e guerra no Irã: os desafios do novo ministro da Agricultura

Por César H. S. Rezende 2 de Abril de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Juros altos e guerra no Irã: os desafios do novo ministro da Agricultura

O ex-ministro da Pesca e Aquicultura, André De Paula, substitui Carlos Fávaro (PSD) na Agricultura e terá pela frente um cenário desafiador para o setor. Na pauta, guerra no Irã, crédito escasso, juros elevados e incertezas em torno do seguro rural.

Durante a posse nesta quarta-feira, 1°, em Brasília, o novo ministro foi breve. Ele agradeceu a Fávaro pela gestão à frente da pasta e sinalizou continuidade. “Sob a gestão de Fávaro, o Brasil consolidou sua posição como potência global. Assumo o ministério com o compromisso de dar continuidade”, afirmou.

A troca faz parte de um rearranjo político no governo e mantém o PSD à frente de uma das principais pastas da Esplanada.

A escolha de De Paula foi articulada para preservar o espaço do partido e garantir equilíbrio na base aliada. Durante a cerimônia, o líder do PSD na Câmara, deputado Antônio Brito, afirmou que o novo ministro terá “todo o apoio do partido”.

A saída de Fávaro já era esperada, diante de sua decisão de disputar uma vaga no Senado por Mato Grosso. O movimento abriu espaço para que o PSD mantivesse o comando do ministério, considerado estratégico pela interlocução direta com o agronegócio.

Guerra no Irã

A guerra no Irã já começa a pressionar os custos do agronegócio brasileiro. O aumento do preço do diesel, impulsionado pelo cenário geopolítico, tem efeito direto sobre a cadeia produtiva e pode impactar os preços dos alimentos.

Entidades como a Associação Brasileira da Proteína Animal (ABPA) afirmam que a alta nos preços de ovos e carne de frango é inevitável diante do encarecimento do combustível.

O setor tem buscado diálogo com o governo para mitigar esses impactos. Na semana passada, foi anunciado um pacote de R$ 15 bilhões voltado ao setor exportador.

Segundo dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), o preço médio da gasolina subiu de R$ 6,65 para R$ 6,78 por litro na última semana, na quarta alta consecutiva, com variação de 1,96%.

O diesel avançou 2,62% no mesmo período, passando de R$ 7,26 para R$ 7,45 por litro. A alta acompanha a valorização do petróleo, que voltou a superar US$ 100 por barril com a escalada do conflito.

O impacto deve chegar ao consumidor, já que o transporte representa uma parcela relevante do custo final dos produtos. No Brasil, o modal rodoviário responde por 60% a 75% da movimentação de cargas.

Além disso, produtores relatam dificuldades no abastecimento de diesel em algumas regiões, como no Rio Grande do Sul, justamente em um momento crítico para a colheita da soja.

Plano Safra 2026/27

Principal política agrícola do país, o Plano Safra 2026/27 deve ser anunciado entre junho e julho, em um ambiente de pressão sobre o produtor. Com a taxa Selic em 14,75% ao ano, o custo do crédito segue elevado.

Segundo Carlos Fávaro, o novo plano deve superar o volume recorde de R$ 516 bilhões anunciado em 2025, mas enfrenta limitações orçamentárias e o desafio dos juros altos.

O programa é essencial para financiar a produção agropecuária, com linhas de crédito subsidiadas voltadas à compra de insumos, máquinas e equipamentos.

Mesmo com subsídios, juros elevados encarecem o financiamento. As instituições financeiras tendem a repassar parte desse custo, o que dificulta o acesso ao crédito pelos produtores.

Rentabilidade apertada

A rentabilidade no campo também preocupa. O Brasil deve registrar produção recorde de soja na safra 2025/26, com 179 milhões de toneladas, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).

Apesar do desempenho, as margens de lucro tendem a cair para o menor nível em quase duas décadas, de acordo com estudo dos pesquisadores Joana Colussi e Michael Langemeier, da Universidade Purdue.

Dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) indicam produção de até 180 milhões de toneladas no período.

Os custos de produção seguem em alta. No Mato Grosso, eles passaram de cerca de US$ 368 por hectare na safra 2009/10 para aproximadamente US$ 559 em 2025/26, com pico de US$ 602 em 2022/23.

A combinação de custos elevados, crédito caro e preços pressionados deve marcar uma inflexão no crescimento da soja no Brasil, que vinha em trajetória de expansão contínua desde os anos 2000.

Seguro rural

Outro ponto de atenção é o seguro rural. Havia expectativa de avanço durante a gestão de Fávaro, mas o tema segue indefinido e deve ser decidido na gestão De Paula.

No Plano Safra 2025/26, anunciado em 2 de julho, o governo não divulgou novos valores para o programa.

O seguro rural é operacionalizado por meio do Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR), que subsidia parte do custo das apólices contratadas pelos produtores junto a seguradoras privadas.

Na prática, o governo arca com uma parcela do valor, reduzindo o custo para o produtor e incentivando a proteção contra riscos climáticos, como seca, geada e excesso de chuvas.

Em 2025, o governo bloqueou R$ 445 milhões do PSR para cumprir a meta fiscal — quase metade do orçamento previsto, de cerca de R$ 1 bilhão.

Sem avanços no programa, produtores seguem mais expostos a perdas, o que aumenta a incerteza em um cenário já pressionado por custos elevados e instabilidade climática.

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