Justiça de SP aprova pedido de recuperação extrajudicial da Raízen

Por Clara Assunção 14 de Março de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Justiça de SP aprova pedido de recuperação extrajudicial da Raízen

O Tribunal de Justiça de São Paulo deferiu nesta quinta-feira, 12, o pedido de recuperação extrajudicial da Raízen. A companhia controlada pela Cosan e a Shell tenta renegociar cerca de R$ 65 bilhões em dívidas financeiras, no que já é considerado o maior processo desse tipo já registrado no Brasil.

O pedido foi confirmado nesta quarta-feira, 11, e ocorre após a companhia acumular dívida bruta superior a R$ 70 bilhões, resultado de um ciclo de investimentos bilionários e de uma deterioração do desempenho operacional nos últimos anos.

Em fato revelante, a Raízen informou que o pedido foi analisado e aceito pelo Juízo da 3ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais da Comarca de São Paulo. A decisão ratificou a suspensão de todas as ações e execuções contra a companhia sobre os créditos apontados na recuperação extrajudicial. A suspensão é válida, contudo, pelo prazo de 180 dias.

A Justiça também concedeu o prazo de 90 dias para que a empresa demonstre o alcance de quórum para homologação de plano de recuperação extrajudicial.

"A Raízen manterá seus acionistas e o mercado informados acerca de quaisquer desdobramentos relevantes relacionados a este tema", afirmou o CFO e diretor de relações com investidores, Lorival Nogueira Luz Jr., no comunicado.

Segundo a companhia, o processo tem escopo exclusivamente financeiro e as operações seguem normalmente, com pagamentos a fornecedores e parceiros preservados.

Quem são os credores da Raízen

Bancos internacionais, bondholders e securitizadoras concentram os maiores passivos da dívida da Raízen.  O The Bank of New York Mellon é o maior credor individual listado, com crédito de R$ 26,1 bilhões, representando diversas séries de bônus internacionais com vencimentos entre 2032 e 2054.

Na lista dos bancos comerciais estrangeiros, o BNP Paribas detém créditos que totalizam aproximadamente R$ 4,2 bilhões. No mercado de capitais brasileiro, a Pentágono S.A. DTVM atua como agente para titulares de debêntures em emissões individuais que superam R$ 1,2 bilhão.

A True Securitizadora S.A. aparece como credora de múltiplas séries de CRAs, com valores individuais chegando a R$ 1,28 bilhão. O Santander lidera entre as instituições financeiras nacionais com R$ 2,2 bilhões em créditos.

O que levou a Raízen a maior recuperação extrajudicial do Brasil

Desde sua Oferta Pública Inicial (IPO) em 2021, a Raízen executou um ambicioso plano de expansão baseado na produção de etanol de segunda geração (E2G). De acordo com dados compilados por analistas, a companhia investiu cerca de R$ 46,8 bilhões desde a abertura de capital, sendo mais de 80% desse valor direcionado à construção e ampliação de usinas de E2G.

A estratégia buscava posicionar a empresa como líder global em biocombustíveis avançados. A expectativa era que as novas plantas elevassem a lucratividade, a geração de caixa e o crescimento da receita, criando um novo ciclo de expansão.

Na prática, porém, os retornos financeiros demoraram mais do que o previsto para aparecer, pressionando o balanço da companhia.

2. Expansão financiada por bancos e investidores

Grande parte desse ciclo de investimentos foi financiada por capital de terceiros. A Raízen recorreu a empréstimos com bancos locais e investidores internacionais, incluindo detentores de títulos de dívida como debêntures, CRAs (Certificados de Recebíveis do Agronegócio) e bondholders no exterior.

A expectativa desses investidores era que os projetos de E2G impulsionassem receita, margens de lucro e geração de caixa, permitindo à empresa pagar a dívida e distribuir dividendos. Com o desempenho abaixo do esperado, porém, o custo da dívida passou a pesar cada vez mais na estrutura financeira da companhia.

3. Quebras de safra reduziram a produção

Além da pressão financeira, a Raízen enfrentou problemas operacionais no campo. Nos últimos anos, a companhia registrou quebras sucessivas na safra de cana-de-açúcar, matéria-prima fundamental para a produção de etanol.

Mesmo com a alta do preço do etanol no mercado, a menor disponibilidade de cana reduziu a produção e, consequentemente, o volume vendido. O resultado foi uma receita abaixo do necessário para sustentar o ritmo de investimentos e o crescimento do endividamento, comprometendo a geração de caixa da empresa.

Em outubro do ano passado, a agência de classificação de risco Fitch Ratings rebaixou a nota de crédito da Raízen de ‘BBB’ para ‘BBB-’ nas dívidas de longo prazo em moeda estrangeira e local.

Segundo a agência, o rebaixamento reflete a "deterioração da estrutura de capital" da companhia, resultado do aumento do endividamento e de um fluxo de caixa operacional mais fraco do que o esperado.

"O rebaixamento reflete a deterioração da estrutura de capital da companhia devido ao aumento do endividamento e um enfraquecimento do fluxo de caixa operacional maior do que o esperado para o exercício fiscal de março de 2026", afirmou a Fitch em nota na época.

A decisão ocorreu um dia após a divulgação da prévia operacional da Raízen, que apontou queda nas vendas de açúcar e etanol próprios no segundo trimestre da safra 2025/26.

4. Alavancagem financeira disparou

Com menos receita e fluxo de caixa pressionado, a estrutura de capital da companhia se deteriorou rapidamente. A relação entre dívida líquida e Ebitda da Raízen chegou a cerca de 5,3 vezes, um nível considerado elevado para o setor.

A dívida líquida atingiu R$ 55,3 bilhões, o que representa um aumento de 43% em apenas um ano.

Um dos objetivos centrais da reestruturação é reduzir essa alavancagem para menos de três vezes o Ebitda, patamar considerado mais sustentável para a operação.

5. Derrocada das ações desde o IPO

A deterioração financeira da companhia também se refletiu no desempenho das ações. Quando estreou na bolsa em agosto de 2021, os papéis da empresa foram lançados a R$ 7,40, em um IPO que levou o valor de mercado da companhia a cerca de R$ 76 bilhões.

Às vésperas do pedido de recuperação extrajudicial, porém, a empresa passou a valer cerca de R$ 700 milhões — menos de 1% do valor registrado na estreia.

Em relatório recente, o analista Flávio Conde, da Levante Investimentos, atribuiu a trajetória da empresa a decisões estratégicas equivocadas do controlador. Segundo ele, a história recente da companhia foi marcada por "megalomania, ganância e imprudência de Rubens Ometto", controlador da Cosan.

6. Como funciona o plano de recuperação

O plano de recuperação extrajudicial apresentado pela Raízen prevê a renegociação de cerca de R$ 65,1 bilhões em dívidas financeiras.

Entre as principais medidas estão a suspensão temporária do pagamento de juros por 90 dias, período conhecido como standstill; a conversão de aproximadamente 40% da dívida em participação acionária e o alongamento de prazos e possível renegociação de condições com credores.

Durante esses três meses, a companhia buscará obter a adesão de credores que representem mais de 50% da dívida, requisito previsto na legislação para a homologação do plano.

Em paralelo, a empresa negocia um plano de capitalização, que inclui aporte de R$ 3,5 bilhões da Shell e R$ 500 milhões do empresário Rubens Ometto, por meio da Aguassanta Investimentos.

Apesar da reestruturação financeira, a companhia afirma que a recuperação extrajudicial não inclui obrigações operacionais, o que significa que fornecedores, clientes e parceiros continuam sendo pagos normalmente.

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