Lenovo aposta em IA criada no Brasil para reduzir custo de empresas com tecnologia

Por Leo Branco 17 de Junho de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Lenovo aposta em IA criada no Brasil para reduzir custo de empresas com tecnologia

A corrida da inteligência artificial criou uma disputa global por capacidade de processamento. Em meio à demanda crescente por equipamentos usados para treinar e operar modelos de IA, a Lenovo decidiu seguir um caminho diferente: desenvolver no Brasil uma tecnologia para executar parte dessas tarefas sem depender exclusivamente dos chips mais disputados do mercado.

A iniciativa, batizada de AION, foi desenvolvida pela Lenovo em parceria com a Intel e a Fundação CERTI, centro de pesquisa de Santa Catarina.

O projeto combina servidores da Lenovo, processadores da Intel e software desenvolvido ao longo dos últimos meses para permitir que empresas executem aplicações de inteligência artificial usando a infraestrutura que já possuem instalada em seus data centers.

O lançamento acontece em um momento em que empresas de diferentes setores tentam colocar projetos de IA em operação, mas ainda enfrentam desafios relacionados a custo, disponibilidade de equipamentos e processamento em nuvem.

A proposta da Lenovo é direcionada principalmente para uma etapa conhecida como inferência — o momento em que uma inteligência artificial já treinada passa a responder perguntas, consultar bases de dados ou atender usuários.

"O futuro da inteligência artificial passa por arquiteturas híbridas e flexíveis", afirma Ricardo Bloj, presidente da Lenovo no Brasil.

A expectativa da companhia é levar a solução inicialmente para clientes brasileiros e latino-americanos. Segundo a empresa, o projeto também poderá ser incorporado a futuras gerações de produtos e serviços ligados à estratégia global de inteligência artificial da Lenovo.

Uma aposta brasileira para um problema global

O projeto nasceu de uma parceria entre a Lenovo, a Intel e a Fundação CERTI, organização de pesquisa sediada em Florianópolis. Segundo a companhia, o desenvolvimento levou cerca de oito meses e recebeu investimento de aproximadamente US$ 1 milhão, além das equipes de engenharia envolvidas nas três organizações.

O objetivo era encontrar uma alternativa para um problema que se tornou comum no mercado de IA: a dependência crescente das GPUs, os processadores usados em tarefas mais intensivas de inteligência artificial.

A proposta não é substituir esses equipamentos. A ideia é direcionar parte das aplicações para processadores convencionais, conhecidos como CPUs, que já estão presentes em milhares de servidores instalados em empresas.

Para a Intel, a adoção da IA não precisa seguir um único modelo. Dependendo da aplicação, modelos menores podem executar tarefas específicas sem exigir a mesma infraestrutura usada para treinar sistemas de grande porte.

Na prática, isso significa que uma empresa não precisa necessariamente recorrer aos mesmos recursos utilizados por plataformas de IA de alcance global para resolver demandas internas, como consultas a documentos, atendimento a clientes ou pesquisa em bases próprias de informação.

O foco está nas empresas

O público-alvo do AION são empresas que desejam utilizar inteligência artificial com dados próprios.

Um dos exemplos citados durante a apresentação da tecnologia envolve chatbots corporativos alimentados por informações internas. Em vez de responder perguntas usando conteúdo disponível na internet, esses sistemas consultam documentos, manuais, contratos e bancos de dados da própria empresa.

A aplicação pode ser usada em áreas como atendimento ao cliente, pré-venda, pós-venda, suporte técnico e compartilhamento de conhecimento entre funcionários.

Segundo os executivos, um dos diferenciais é que os dados permanecem dentro da estrutura da empresa. Isso reduz a necessidade de enviar informações para serviços externos de computação em nuvem.

O modelo também busca atender organizações que precisam manter controle sobre dados internos, como empresas dos setores financeiro, industrial, jurídico e de serviços.

Quando a conta da nuvem vira um problema

Durante a apresentação da iniciativa, Bloj relatou o caso de um distribuidor brasileiro que buscava aplicar inteligência artificial sobre sua base de clientes.

A empresa possui mais de 200 mil clientes cadastrados e tentou executar parte do projeto utilizando processamento contratado na nuvem. Segundo o executivo, o custo da operação acabou se tornando um obstáculo para a continuidade da iniciativa.

Ao conhecer a nova solução, o distribuidor demonstrou interesse na possibilidade de executar parte do processamento dentro da própria empresa, usando servidores dedicados.

O caso ajuda a explicar a lógica por trás do projeto.

Nos últimos anos, muitas empresas passaram a testar aplicações de IA por meio de plataformas externas. Embora esse modelo ofereça rapidez na implementação, os custos podem crescer conforme aumenta o volume de consultas, usuários e dados processados.

A aposta da Lenovo é que parte dessas aplicações possa ser executada localmente, reduzindo despesas recorrentes e ampliando o controle sobre a operação.

O papel do Brasil na estratégia da Lenovo

A iniciativa também reforça a importância do Brasil dentro da estrutura global de pesquisa da companhia.

Segundo Bloj, a Lenovo investe cerca de R$ 200 milhões por ano em pesquisa e desenvolvimento no país. A empresa mantém dois centros de pesquisa no Brasil — um ligado à Lenovo e outro à Motorola, marca que faz parte do grupo Lenovo — dentro de uma rede global de 15 centros.

O trabalho com o CERTI faz parte de uma estratégia mais ampla de desenvolvimento local.

Nos últimos anos, a companhia participou de projetos com diferentes instituições brasileiras. Um deles foi desenvolvido com o Incor e a Fundação Zerbini para monitoramento remoto de pacientes com risco de arritmia cardíaca.

Outro, realizado com o CESAR, centro de pesquisas fundado no Recife, buscou criar ferramentas para reconhecimento e interpretação da Língua Brasileira de Sinais (Libras), exigindo a análise de mais de 150 mil vídeos.

Para a empresa, a ideia é transformar investimentos locais em soluções que possam ser utilizadas em outros mercados.

"É do Brasil para o mundo", afirma Marcelo Bertolami, diretor de vendas e tecnologia da Intel para a América Latina.

Além dos laboratórios

O lançamento do AION acontece em um momento de expansão da Lenovo na área de infraestrutura e inteligência artificial.

A companhia encerrou seu último ano fiscal com receita de US$ 83 bilhões, crescimento de 20% em relação ao período anterior. A divisão de servidores e infraestrutura registrou alta de 32%, segundo dados divulgados pela empresa.

A Lenovo também ampliou sua presença em projetos globais ligados à tecnologia. A companhia é parceira tecnológica da FIFA e participará da infraestrutura usada na Copa do Mundo de 2026, com sistemas de processamento de dados, análise de imagens e ferramentas baseadas em inteligência artificial para apoio às operações do torneio.

Para a empresa, iniciativas como o AION fazem parte da mesma estratégia: ampliar o uso da inteligência artificial em diferentes ambientes, dos data centers corporativos a grandes eventos globais.

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