Líderes, está na hora de aprender com a geração Z
Não é preciso ir longe para ouvir críticas sobre as novas gerações. Artigos de imprensa e comentários de redes sociais estão repletos de questionamentos sobre nível de autonomia, comprometimento e resiliência da Geração Z. Nas conversas mais rasas do mundo corporativo, é cômodo balançar a cabeça e concordar com o confortável: “no nosso tempo era melhor”. Mas aqui mora a armadilha. CEOs e líderes de negócio têm muito mais a ganhar se evitarem seus preconceitos e se abrirem para o diferente, indo além dos estereótipos e do território já conhecido.
O primeiro cuidado é desrotular. Antes de falar de gerações, falamos de pessoas. E elas são únicas. Não dá para colocar no mesmo saco todos os que nasceram no mesmo período da história. Obviamente esse grupo foi exposto a um ambiente externo similar, mas as histórias de vida são particulares e formam pessoas muito diferentes entre si.
O segundo olhar é que gerações não são boas ou más em si mesmas e, certamente, cada uma traz conquistas e desafios para as gerações que as sucederam. Você pode escolher o lado de quem se vangloria dos méritos da sua própria geração e os toma como verdade absoluta ou o lado de quem quer aprender. Porque há sempre algo novo e bom surgindo.
Dito isso, onde Baby Boomers, Geração X e até mesmo Millennials estão sendo desafiados? De maneira geral todos os novos questionamentos vão na direção da construção de ambientes organizacionais mais humanos, mais transparentes, mais informais, mais responsáveis e coerentes. E nem sempre foi assim.
Empresas do século XX foram criadas tendo a hierarquia como espinha dorsal de sua organização e o lucro como o seu fim único. A hierarquia, se bem dosada, traz grandes vantagens: traz clareza e velocidade de ação. E o lucro é oxigênio essencial para a perpetuação de negócios saudáveis. Empresas precisam dele para viver, mas, assim como nós, não vivem para respirar.
Quando um jovem pede propósito, questiona qual o impacto socioambiental, desafia o trabalho 100% presencial (ou quatro dias presencial, que é a mesma coisa), pondera sobre empreender ou ser CLT, cobra coerência de seus líderes, fala sobre saúde mental, se incomoda com “dress code” e com regras sem sentido...é melhor parar para ouvir.
Alguns líderes ficam indignados porque não foi esse o ambiente que encontraram quando eram mais novos. Mas isso não significa que era bom ou correto. Eram tempos mais rígidos. O trabalho acontecia exclusivamente no escritório, sob os olhos do chefe, com o “dress code” determinado pelo RH, sem espaço algum para falar sobre saúde mental (“saúde o que?”) e sem debates sobre impacto socioambiental daquela atividade econômica.
No meu primeiro emprego, eu não podia sair do escritório na hora do almoço sem levar o paletó: “vai que algum cliente te encontra” dizia o meu chefe. É um exemplo real e extremo. Em outras palavras minha performance era avaliada também pelo que eu vestia. A flexibilização veio pouco depois com a invenção do “casual Friday”: às sextas você pode vir com uma roupa mais casual (mas não abusa!). Olhando hoje é uma solução sem sentido algum. Se queremos pessoas inovadoras, que sejam elas mesmas, que tenham espírito empreendedor dentro das corporações, qual o sentido de dizer a elas que no escritório elas tem que usar uma máscara, se vestir diferente, se comportar como se fosse um personagem?
A produtividade era medida pelo tempo gasto no chão do escritório. Compreensível para uma época em que as pessoas não tinham laptops, smartphones e ferramentas de videochamadas. Mas porque seguir medindo produtividade da mesma forma com todas as novas ferramentas que temos à mão? E sujeitando as pessoas e as cidades ao martírio de horas no deslocamento diário? Eu não sou a favor do 100% remoto, o presencial tem muito valor, mas o argumento de que no híbrido as pessoas não trabalham é raso e míope.
Negócios deveriam ser pensados para serem eternos. Para seguirem resolvendo problemas grandes da sociedade e deixando o entorno melhor. Parece óbvio, mas muitas empresas não têm incentivos, métricas e culturas que alinham a teoria à prática. Não é um detalhe. A nova geração que questiona propósito relembra aos gestores a responsabilidade completa que eles têm. Sim, gerenciar hoje é muito mais complexo do que era nos anos 90/ 2000, mas pode ser mais gratificante também.
Enfim, a boa liderança não tem opção. Tem que escutar, aprender e mudar. Não é mais sobre reter pessoas , mas sobre convencê-las a fazer algo juntas. Não é mais sobre regras top-down, mas sobre diálogo. Governança importa, e muito, e não é mais papo de diretoria e Conselho , mas para ser debatido com a sua Geração Z. E, sim, chegará o dia que a Geração Z estará indignada com os desafios trazidos pela Alpha. Mas,até lá, com juízo, terão aprendido que liderança começa com escuta ativa e sem preconceitos.
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