Linguiça de peixe e geleia de gengibre: a foodtech que nasceu em uma sala de aula no Amapá

Por Guilherme Gonçalves 14 de Maio de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Linguiça de peixe e geleia de gengibre: a foodtech que nasceu em uma sala de aula no Amapá

A bioeconomia amazônica apareceu de várias formas no Bioeconomy Amazon Summit (BAS) 2026: projetos de reflorestamento, startups de tecnologia verde e negócios ligados à biodiversidade. Em um dos corredores da feira, porém, ela vinha servida em forma de linguiça de peixe.

O produto é da Amapesc, foodtech criada por uma professoras e alunas do Instituto Federal do Amapá (IFAP). A empresa quer levar ao varejo alimentos feitos com pescado amazônico e ingredientes regionais, como tucupi e cupuaçu.

A foodtech ainda não começou oficialmente a operar, mas já captou R$ 50 mil para compra de equipamentos e estruturação da produção própria. A expectativa é iniciar as operações ainda em 2026, após concluir processos sanitários e regulatórios necessários para comercialização.

“Nossa startup saiu da academia”, disse a professora Élida Viana à EXAME durante o evento, em Belém. “A gente desenvolvia os produtos dentro do instituto e, quando levava para degustação, as pessoas queriam comprar.”

A startup surgiu a partir de pesquisas sobre derivados de pescado amazônico feitas dentro do curso de tecnologia em alimentos do IFAP. Hoje, o projeto reúne seis pessoas — todas ligadas à instituição, entre professores, alunos e ex-alunos.

Como surgiu a ideia

A proposta da Amapesc é transformar ingredientes típicos da região Norte em produtos mais convenientes para o consumo urbano. Segundo Élida, a ideia nasceu da percepção de que o consumo de pescado enfrenta barreiras ligadas ao preparo e ao tempo.

“Aqui na região Norte a gente tem o maior consumo de pescado do Brasil. Mas as pessoas dizem: ‘eu gostaria de comer mais peixe, mas não tenho tempo ou não sei preparar’”, afirmou.

A solução encontrada foi adaptar o peixe para formatos mais populares no varejo alimentar, como linguiças, bolinhos e defumados.

“A linguiça de peixe fica pronta em cerca de 20 minutos. Pode fazer na air fryer, assada, igual à linguiça tradicional”, disse.

Além dos produtos à base de pescado, a startup também desenvolveu acompanhamentos inspirados em ingredientes amazônicos. Um dos destaques é um molho agridoce de tucupi com cupuaçu e uma geleia de gengibre. Outra leva abacaxi produzido no Amapá.

De alunas para sócias

Entre as sócias está Jiullie Monteiro, ex-aluna de Élida e hoje parceira no negócio.

“Imagina o meu orgulho de ter sido professora delas e hoje ser sócia”, afirmou Élida.

Segundo a fundadora, a startup começou a ganhar forma após anos de pesquisas envolvendo peixes da região amazônica e desenvolvimento de novos alimentos.

“A gente fazia pesquisa sobre produtos derivados de pescado. Depois começamos a levar para apresentações e surgiu a demanda das pessoas querendo comprar”, disse.

Hoje, a operação funciona de forma artesanal, mas a empresa está montando uma estrutura própria de produção no Amapá para distribuir no varejo.

“Nós estamos em fase de aquisição de equipamentos e organização da estrutura física”, afirmou Jiullie.

De onde vêm os insumos

A Amapesc também quer se posicionar como um negócio de impacto ligado à cadeia local da bioeconomia amazônica.

Segundo as fundadoras, a matéria-prima vem, principalmente, de cooperativas de pesca e agricultores familiares da região Norte.

“Temos uma forte relação com cooperativas de pescadores e agricultores familiares”, disse Jiullie.

“Nosso consumidor vai receber um produto com preocupação social e também ambiental.”

A expectativa inicial é vender para supermercados e lojas especializadas em pescados no Amapá, antes de expandir para outros estados.

Quais serão os próximos passos

Embora ainda esteja nos primeiros passos, a startup já projeta capacidade inicial de produção próxima de 200 quilos por dia — o equivalente a até três toneladas por mês.

As fundadoras afirmam já ter conversas com compradores interessados em volumes maiores, mas ainda sem contratos fechados.

“A gente está engatinhando ainda”, disse Élida. “Mas já existem empresas interessadas em comprar toneladas por semana.”

Por enquanto, os produtos seguem circulando em feiras, apresentações e degustações.

Um ecossistema de bioeconomia que cresce no Amapá

A Amapesc faz parte de um movimento maior de negócios ligados à bioeconomia que começam a surgir no Amapá, estado que tenta transformar biodiversidade em produtos de maior valor agregado.

Um dos exemplos é a Acmella Beauty, startup criada pela farmacêutica Mayara Pinheiro. A empresa desenvolve cosméticos à base de jambu, ingrediente típico da Amazônia conhecido pelo efeito de formigamento na pele. A marca produz óleos, máscaras faciais, xampus e hidratantes naturais e ganhou projeção após participar do programa Inova Amazônia, do Sebrae.

Outro exemplo é a Amazonly, empresa instalada no Amapá que trabalha com bioativos amazônicos para os setores de cosméticos, fármacos e bem-estar. A companhia produz óleos e extratos vegetais de ingredientes como buriti, copaíba e murumuru e aposta em rastreabilidade da cadeia produtiva e fornecimento sustentável.

O avanço desse ecossistema também tem sido impulsionado por programas de aceleração e inovação voltados à Amazônia. Segundo dados do Programa Prioritário de Bioeconomia (PPBio), iniciativas apoiadas pelo programa já desenvolveram mais de 220 produtos e serviços ligados à floresta nos estados da Amazônia Legal, incluindo o Amapá.

Sobre o BAS 2026

Realizado nesta semana, em Belém, o Bioeconomy Amazon Summit chega à sua terceira edição consolidado como um dos principais encontros dedicados à bioeconomia e aos negócios regenerativos na Amazônia.

O evento acontece no Parque da Bioeconomia (Porto Futuro 2) e no Armazém 3 da Estação das Docas, reunindo startups, investidores, lideranças comunitárias, pesquisadores e representantes do setor público e privado para discutir soluções sustentáveis para a floresta e o clima.

O BAS é uma realização do BAS Convergence Hub em parceria com o Jornada Amazônia, com co-realização da Fundação Amazônia Sustentável e do projeto Sustenta e Inova, coordenado pelo Sebrae Pará, em parceria com CIRAD, EMBRAPA e IPAM, além de financiamento da União Europeia.

A edição deste ano também conta com patrocínio do Governo do Pará, Fundo Vale, Amabio e Instituto Itaúsa, além do apoio de ABDI, Amazon Investor Coalition, Athias Soriano Advogados, BID, Carrefour, Cesupa, DIBB, ERM, FIEPA, IPAM Amazônia, Itaipu Binacional, Jundu, KFM, KPTL, Kyvo, MCQ Law, Natura e Viga.

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