Lucro da MRV Incorporadora dispara no 1º tri, mas margem fica estagnada
A MRV Incorporação encerrou o primeiro trimestre de 2026 com lucro líquido ajustado de R$ 133 milhões — uma alta de 639% em relação ao mesmo período do ano anterior, quando o resultado ficou em apenas R$ 18 milhões.
O resultado é fruto de uma virada que a companhia vem executando desde 2022, quando decidiu concentrar esforços no segmento de habitação popular, seu negócio origina, após um período de diversificação que pressionou margens e geração de caixa. Desde então, a MRV reorganizou sua operação em torno do programa federal Minha Casa Minha Vida e passou a priorizar eficiência na construção e controle de custos em detrimento do crescimento acelerado.
A receita operacional líquida da incorporação chegou a R$ 2,56 bilhões no trimestre, crescimento de 17,6% sobre os três primeiros meses de 2025. O Ebitda avançou 38,5% no mesmo período, para R$ 476 milhões. As vendas líquidas somaram R$ 2,47 bilhões, alta de 13,9%, com lançamentos de R$ 2,91 bilhões, praticamente estáveis em relação ao ano anterior, mas 2,4% acima do quarto trimestre de 2025.
No campo operacional, a companhia produziu 9.747 unidades no trimestre, 3,1% a mais do que no mesmo período de 2025.
A margem que não andou
No meio de um trimestre de avanços, um indicador chamou atenção — e não de forma positiva. A margem bruta da incorporação ficou em 31%, exatamente o mesmo nível do quarto trimestre de 2025. Foi o primeiro trimestre desde o início de 2022 em que a métrica não avançou, interrompendo uma trajetória que partiu de 19% e vinha se expandindo de forma consistente.
O motivo está na guerra entre Estados Unidos e Irã. Diante do ambiente inflacionário gerado pelo conflito, a MRV optou por revisar de forma preventiva a projeção de inflação nos orçamentos de todas as obras em andamento. A companhia fez uma elevação de dois pontos percentuais na estimativa para o ano.
O impacto é contábil, mas imediato. A MRV reconhece receita e custo pelo método POC, o percentual de conclusão de cada obra. Quando a projeção de inflação sobe, o custo estimado total da obra aumenta e é reconhecido no resultado do trimestre. A receita, já contratada com os clientes, não acompanha no mesmo ritmo.
"O custo sobe, mas a receita não anda junto. Não foi um material a mais que eu empreguei, não foi uma parede a mais que eu construí — foi uma projeção de inflação que subiu", explicou o CFO Ricardo Paixão à EXAME.
Os insumos mais pressionados são os derivados de petróleo, como PVC para tubulações, tintas e materiais transportados por caminhão, diretamente afetados pela alta do diesel. A empresa diz que a revisão foi conservadora e que, a partir do segundo trimestre, com o ajuste já incorporado, a margem deve retomar sua trajetória de expansão.
A meta de longo prazo é atingir 35% de margem bruta nas novas vendas.
O grupo consolidado: caixa forte, mas Resia ainda pesa
Quando se olha para a MRV&CO — o grupo que engloba a incorporação, a operação americana Resia, a plataforma de loteamentos Urba e o negócio de locação Luggo —, o quadro é mais complexo. No consolidado, a companhia registrou prejuízo líquido de R$ 76 milhões no trimestre, revertendo o lucro de R$ 53 milhões do quarto trimestre de 2025.
O lucro de R$ 133 milhões da incorporação foi mais do que consumido pelas perdas das subsidiárias, com destaque para a operação americana.
Na geração de caixa, porém, o grupo apresentou resultado relevante: R$ 392 milhões no trimestre. O número foi impulsionado pela venda de ativos da Resia nos Estados Unidos, que respondeu pela maior parte da entrada.
Resia: desinvestimento avança
A subsidiária americana gerou US$ 69 milhões em caixa no trimestre — cerca de R$ 360 milhões —, impulsionada pela venda do empreendimento Tributary, na Geórgia, por US$ 73,3 milhões, e de dois terrenos por US$ 18,3 milhões. No total, a Resia vendeu US$ 91,5 milhões em ativos no período, dentro do plano de desalavancagem da companhia.
Desde o início do processo, a subsidiária já desinvestiu US$ 241 milhões de um portfólio estimado em cerca de US$ 800 milhões. Ainda restam quatro projetos concluídos e em fase de estabilização de locação, com taxas de ocupação entre 65% e 93%. A empresa projeta concluir a venda desses ativos ao longo de 2026.
Paixão afastou o rótulo de "risco" frequentemente associado à operação americana. "As dívidas da Resia são garantidas pelos próprios imóveis, pelos projetos", disse o CFO. Ainda assim, admitiu que a representatividade da subsidiária na alavancagem consolidada do grupo será "muito menor" em 2027 do que é hoje.
A dívida líquida da operação americana era de US$ 676 milhões em março de 2026, com patrimônio líquido negativo de US$ 32 milhões — reflexo do peso acumulado das perdas da subsidiária nos últimos anos.
Próximos passos
Para o segundo trimestre, a companhia aposta na normalização dos repasses, momento em que os compradores formalizam o financiamento bancário junto à Caixa Econômica Federal após a conclusão das obras, e o banco quita o saldo devedor diretamente à construtora, gerando entrada de caixa.
No primeiro trimestre, o volume de repasses foi pressionado pela sazonalidade: o pico de vendas se concentrou em março, único mês cheio do período, não havendo tempo hábil para ser integralmente repassado no mesmo período.
Em abril, os repasses já avançaram 28,7% em relação à média mensal do primeiro trimestre, e a produção cresceu 9,7% no mesmo comparativo, sinais que a empresa interpreta como indicativo de um segundo trimestre mais forte tanto em receita quanto em geração de caixa.
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