Livraria carioca desafia gigantes do e-commerce e vai faturar R$ 154 milhões
Em um mercado que viu grandes redes de livrarias desaparecerem nos últimos anos, a Livraria da Travessa seguiu um caminho diferente. Enquanto as gigantes Cultura e a Saraiva enfrentaram crises e encerraram suas operações, o negócio criado pelo mineiro Rui Campos continua abrindo livrarias e ampliando presença em novas cidades.
Hoje são 15 lojas no Brasil e no exterior - além da presença no e-commerce, um território inimigo para as livrarias físicas. Em 2025, a Travessa faturou R$ 140 milhões. Para 2026, a projeção é alcançar os R$ 154 milhões - ou seja, um crescimento de 10% em uma ano em que a rede não pretende abrir novas operações.
“Os últimos anos foram de expansão, mas todos os negócios têm ciclos”, diz Campos. “No mundo do livro, muitas operações cresceram demais e depois tiveram dificuldade de continuar.”
A primeira experiência com livrarias
A história da empresa começou em 1975, quando Campos deixou Minas Gerais e foi trabalhar na Muro, uma pequena livraria em Ipanema, no Rio de Janeiro. Ele tinha 20 anos e nenhuma experiência com comércio. “Eu cheguei no Rio em 17 de janeiro de 1975 e no primeiro dia já fui trabalhar na livraria. Nunca mais fiz outra coisa”, afirma.
O espaço ficava no subsolo de uma galeria e tinha cerca de 24 metros quadrados. Mesmo pequeno, acabou se tornando um ponto de encontro para artistas e escritores durante os anos de ditadura militar. Poetas independentes passaram a frequentar o lugar, que começou a receber leituras de poemas e encontros informais. “Era uma época em que a vida cultural estava muito reprimida. A livraria acabou virando um ponto de encontro.”
Entre os frequentadores estavam nomes ligados à chamada poesia marginal, movimento que reuniu escritores que publicavam livros de forma independente e vendiam suas obras diretamente ao público. A livraria acabou concentrando parte dessa produção. Segundo Campos, o movimento ajudou a transformar o espaço em um ponto conhecido na cena cultural da cidade.
Expansão gradual
Com o tempo, a livraria saiu do subsolo e chegou à rua. Em 1986, com a abertura de uma nova loja na Travessa do Ouvidor, no centro do Rio, a marca passou a se chamar Livraria da Travessa. A partir desse ponto, o negócio começou a se consolidar e novas unidades foram abertas, primeiro na própria região central e depois em outros bairros cariocas.
"Foi uma época de abertura econômica, então demos outra cara para a livraria", lembra Campos.
Até 2013, a expansão ocorreu somente dentro do Rio. Depois, vieram lojas em cidades como São Paulo, Brasília e Ribeirão Preto. Em 2019, um passo ousado: a rede abriu uma loja em Lisboa, em Portugal. No ano passado, a empresa inaugurou sua primeira unidade na região Sul, em Porto Alegre, no Shopping Iguatemi.
Segundo Campos, a empresa nunca trabalhou com um plano rígido de expansão ou metas de número de lojas. As novas unidades surgiram de oportunidades específicas ou de convites de parceiros locais. “Nunca tivemos um projeto de chegar a 15 lojas. A gente tinha uma, depois duas, depois três. Cada loja tem a sua história.”
A decisão costuma surgir a partir da percepção de que existe público para a livraria em determinada cidade. Foi o caso de Porto Alegre, afirma o empresário. “A gente sempre sentiu que existia demanda ali por uma livraria desse tipo. Quando veio o convite, resolvemos apostar.”
Apesar de não confirmar nenhuma nova loja para 2026, Campos diz que há negociações para abertura de três novas operações a partir de 2027. Duas serão em pontos de rua e uma em um shopping.
Qual é o papel das livrarias físicas
Campos lembra que o crescimento do comércio eletrônico e o surgimento do livro digital chegaram a ser apontados como ameaças ao setor editorial e às livrarias físicas.
Segundo o empresário, o cenário acabou se desenvolvendo de forma diferente. O livro digital passou a ocupar uma fatia menor do mercado do que se imaginava no início. Hoje, ele representa menos de 10% das vendas de livros no Brasil, afirma Campos, que faz parte da Associação Nacional de Livrarias (ANL). Enquanto isso, de acordo com a entidade, o livro impresso continua sendo a maior parte do mercado brasileiro.
Para Campos, as livrarias físicas mantêm um papel importante na descoberta de novos títulos. Ele cita um levantamento informal feito pelo concorrente e amigo Marcus Teles, dono da rede Leitura, que entrevistou clientes durante o momento da compra. “Mais de 80% das pessoas disseram a ele que decidiram comprar o livro dentro da própria livraria”, afirma.
“Elas entram sem saber o que vão levar e acabam encontrando um livro ali.”
Segundo Campos, esse comportamento ajuda a explicar por que lojas físicas continuam existindo mesmo com a concorrência de grandes plataformas de comércio eletrônico. Enquanto as compras online costumam acontecer quando o leitor já sabe qual livro quer, a livraria física funciona como vitrine e ponto de descoberta.
Arquitetura, acervo e livreiros
Hoje, a Travessa emprega 300 pessoas. Ao falar do modelo de negócio da empresa, Campos menciona alguns pontos que considera essenciais para manter a operação. Um deles é a gestão do estoque. Uma loja grande da rede pode ter até 80 mil títulos diferentes nas prateleiras, o que exige controle constante de entrada de novos livros, reposição e organização do catálogo.
“É um negócio muito complicado de administrar. Você está sempre recebendo novidades”, diz.
Outro ponto é o projeto das lojas. As unidades costumam ter cafés, auditórios e áreas de convivência para atrair clientes. A ideia, segundo Campos, é transformar a visita em um programa que vai além da compra do livro, criando um espaço onde o leitor possa passar tempo, participar de eventos ou encontrar outros leitores.
Campos também destaca o papel dos livreiros que atendem os clientes: “A parte mais trabalhosa e mais gloriosa é a equipe de livreiros. Muitos clientes procuram recomendações ou conversam com os funcionários sobre autores e títulos antes de decidir a compra, então eles precisam entender o que estão vendendo".
Livros, discos e papelaria
Embora os livros representem a maior parte do faturamento, as lojas da Travessa também vendem outros produtos. É outra forma de variar a receita diante um mercado cada vez mais competitivo. O setor de papelaria responde por cerca de 10% das vendas da rede. Nessa categoria entram agendas, cadernos e itens desenvolvidos com a marca da própria livraria ou com ilustrações de artistas.
Discos de vinil, CDs e DVDs representam cerca de 4% das vendas. A música já teve um peso maior no negócio. Em um período anterior ao streaming, Campos diz que os CDs chegaram a responder por cerca de 20% do movimento das lojas.
“Depois veio a música digital e esse mercado mudou muito”, diz o empresário.
Nos últimos anos, os discos de vinil voltaram a aparecer nas prateleiras das livrarias e em outras lojas culturais. Segundo Campos, esse retorno tem despertado interesse entre leitores e frequentadores das lojas. “É uma coisa visualmente encantadora e que mobiliza as pessoas.”
Além da venda de produtos, as lojas da rede recebem eventos ao longo do ano, assim como faziam Saraiva e Cultura em seus tempos de ouro. São lançamentos de livros, cursos, encontros com autores e atividades voltadas ao público infantil. Para Campos, essas atividades ajudam a manter a livraria como um espaço de encontro entre leitores e autores. “A livraria é um lugar onde o leitor encontra o livro e encontra outras pessoas que gostam de livros.”
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