Livro Bege do Fed: alta do petróleo eleva inflação e preocupa empresas nos EUA
O Livro Bege do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) aponta que o mercado de trabalho dos Estados Unidos segue relativamente estável, mas as pressões inflacionárias ganharam força nas últimas semanas, principalmente em razão da alta dos custos de energia provocada pelo conflito no Oriente Médio.
O documento, divulgado nesta quarta-feira, 3, com informações coletadas pelos 12 bancos regionais da instituição até 27 de maio, revela que a atividade econômica avançou em ritmo leve a moderado em dez dos doze distritos do Fed.
Apesar da continuidade do crescimento, empresas de diferentes setores demonstraram preocupação com o enfraquecimento da confiança dos consumidores e com os impactos dos custos mais elevados sobre a demanda.
Segundo o banco central americano os aumentos nos preços da energia têm se espalhado por diversas cadeias produtivas, afetando setores como transporte marítimo, embalagens, alimentos e fertilizantes. Em vários distritos, também foram relatadas preocupações com o efeito da alta dos combustíveis sobre o orçamento das famílias.
Com petróleo em alta, trajetória da inflação preocupa
A escalada dos preços da energia desde o início da guerra envolvendo o Irã reacendeu o debate sobre a trajetória da inflação nos Estados Unidos.
O cenário levou parte dos dirigentes do Fed a defender a manutenção de todas as alternativas de política monetária sobre a mesa, inclusive a possibilidade de uma postura mais restritiva. Ainda assim, a avaliação predominante é que os juros permanecem adequados no nível atual.
O Livro Bege aponta que as perspectivas para os próximos seis meses mudaram pouco, mas a combinação entre incerteza elevada e sinais de desaceleração do consumo tem afetado o humor das empresas. O Fed observou que o sentimento de mercado se deteriorou em meio às dúvidas sobre a evolução da atividade econômica.
No mercado de trabalho, a maioria dos distritos relatou um cenário de poucas contratações e poucas demissões. As empresas continuam priorizando vagas consideradas essenciais ou a reposição de funcionários que deixaram seus cargos.
O destaque positivo ficou para a indústria manufatureira, que registrou aumento nas contratações em alguns distritos, impulsionado por atividades ligadas à defesa e pela expansão da demanda por centros de dados.
A inflação continua sendo um dos principais focos de atenção do banco central. O índice de preços preferido pelo Fed avançou 3,8% nos 12 meses encerrados em abril, o maior patamar desde 2023, segundo dados divulgados recentemente pelo Departamento de Análise Econômica. Os investidores acompanham agora a divulgação do relatório de empregos dos Estados Unidos, prevista para sexta-feira.
No mercado financeiro, a expectativa majoritária é de manutenção dos juros na reunião de política monetária marcada para os dias 16 e 17 de junho. Os contratos futuros, porém, já incorporam a possibilidade de uma alta de 0,25 ponto percentual até março do próximo ano. O encontro será o primeiro conduzido pelo novo presidente do Fed, Kevin Warsh.
O que apontam os distritos
Entre os destaques regionais, o distrito de Boston registrou aumento da procura por profissionais qualificados no setor de serviços, enquanto a demanda por trabalhadores iniciantes enfraqueceu, movimento que alguns contatos associaram ao avanço da inteligência artificial.
Em Nova York, empresas relataram que os custos mais elevados de energia estão pressionando despesas com embalagens, ingredientes, equipamentos e fertilizantes, contribuindo para a alta dos preços dos alimentos.
Na Filadélfia, empresas observaram menor pressão salarial, embora alguns trabalhadores tenham solicitado reajustes para compensar o aumento dos gastos com combustíveis. Já em Cleveland, executivos compararam a atual volatilidade dos custos de insumos e os gargalos de fornecimento aos desafios enfrentados durante a pandemia.
No distrito de Richmond, exportadores agrícolas do Sudeste dos EUA relataram dificuldades para embarcar produtos de menor valor agregado devido ao encarecimento do transporte. Em Atlanta, organizações sem fins lucrativos apontaram maior dificuldade para captar recursos, citando uma crescente fadiga dos doadores.
Em Chicago, representantes do varejo avaliaram que eventuais reembolsos tarifários decorrentes de uma decisão recente da Suprema Corte dificilmente resultarão em redução de preços ao consumidor. Em St. Louis, empresas dos setores de hotelaria e consumo relataram estratégias para evitar repasses integrais de custos aos clientes diante da maior sensibilidade aos preços.
No distrito de Minneapolis, empresários do setor de hospedagem demonstraram preocupação com o ritmo lento das reservas e com os impactos dos preços dos combustíveis sobre o turismo. Em Kansas City, o aumento do diesel elevou os custos de perfuração de novos poços, levando empresas a buscar alternativas mais baratas para outros insumos.
Já em Dallas, representantes do setor de energia afirmaram que limitações estruturais, como a escassez de plataformas de perfuração, restrições na capacidade de transporte de gás natural e a oferta limitada de determinados produtos químicos, devem continuar restringindo a expansão da produção até pelo menos 2027.
Por fim, no distrito de São Francisco, algumas empresas ampliaram as contratações para atender ao aumento da demanda e às necessidades temporárias relacionadas aos eventos da Copa do Mundo da FIFA.
(*) Com informações da Bloomberg
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