Livro Bege do Fed aponta emprego estagnado nos EUA e consumo cauteloso
O Livro Bege do Federal Reserve (Fed, banco central dos Estados Unidos) apontou que a atividade do país cresceu de forma discreta a moderada, mas sob um ambiente de maior incerteza econômica, mais sensível a preços e com estabilidade generalizada no mercado de trabalho.
Segundo o relatório, divulgado nesta quarta-feira, 4, o retrato predominante no mercado de trabalho é de estagnação. Os níveis de ocupação permaneceram, em geral, estáveis, com uma dinâmica descrita como de "baixo nível de contratação e baixo nível de demissão".
O documento reúne relatos qualitativos sobre as condições econômicas nos doze distritos da instituição. E no quesito emprego, sete dos 12 distritos não registraram mudanças nas contratações.
Em Nova York, o emprego ficou estável em meio a "poucas contratações e poucas demissões", sem cortes significativos no período. Em Cleveland, o saldo líquido permaneceu inalterado, com setores como serviços financeiros ampliando equipes, enquanto outros reduziram quadro diante de demanda fraca.
Já Atlanta relatou manutenção do quadro ou reduções passivas, quando não há reposição de vagas. Chicago descreveu o ambiente como de "no hire, no fire", isto é, "sem contratação e sem demissão". Os distritos de St. Louis, Kansas City e San Francisco também reportaram estabilidade, embora este último tenha observado demissões localizadas no setor de tecnologia.
Incerteza econômica pesa nos EUA
A cautela nas contratações reflete, sobretudo, a incerteza econômica, citada como fator central em distritos como Nova York, Richmond e St. Louis. O aumento de custos de insumos e tarifas, além de despesas não laborais como seguro de saúde, também desestimulou a expansão das equipes.
Em alguns casos, a demanda mais fraca por produtos e serviços tornou o quadro atual de funcionários suficiente.
Em vez de ampliar o número de empregados, o documento do Fed reforça, como no mês passado, que as empresas têm buscado ganhos de eficiência por meio de tecnologia. O relatório aponta a adoção de inteligência artificial e automação, especialmente em funções administrativas e na manufatura, como forma de elevar a produtividade.
A maior parte dos contatos enfatizou, porém, que a tecnologia tem sido usada para complementar a força de trabalho ou mitigar a escassez de mão de obra qualificada, e não para promover substituições em massa.
Apesar da estabilidade no agregado, persistem dificuldades em encontrar trabalhadores especializados, sobretudo nos setores de saúde, ofícios técnicos e construção, segundo o banco central dos EUA.
Em Boston, o alto custo de vida e os deslocamentos foram citados como barreiras para atrair profissionais para funções presenciais. Por outro lado, em Cleveland e San Francisco houve aumento da oferta de candidatos qualificados após desaceleração em grandes empresas, com relatos de profissionais experientes aceitando cargos de nível júnior.
Apenas três distritos — Filadélfia, Richmond e Dallas — registraram crescimento ligeiro ou modesto no emprego, enquanto Boston e Minneapolis observaram leve retração.
Varejo enfrenta dificuldades
No campo da atividade econômica, o crescimento foi descrito como modesto, mas desigual entre setores. Manufatura e serviços financeiros mostraram resiliência, enquanto o varejo e o mercado imobiliário enfrentaram dificuldades relacionadas à acessibilidade e a eventos climáticos.
A incerteza e a maior sensibilidade a preços têm moldado o comportamento de consumidores e empresas. Em distritos como Nova York e St. Louis, consumidores adiaram grandes compras e reduziram gastos discricionários. No setor automotivo, a combinação de incerteza e ausência de incentivos resultou em vendas mornas.
Há também um movimento de “trading down”, com consumidores de renda baixa e média migrando para alternativas mais baratas ou marcas próprias.
Em Atlanta, empresas relataram que consumidores de diferentes faixas de renda se tornaram mais atentos aos preços. Em Filadélfia, quase 40% das empresas disseram que seus clientes estão mais sensíveis a preços do que no trimestre anterior. Em Kansas City, a relutância em reajustar valores reflete o receio de perder demanda.
Essa sensibilidade tem comprimido margens. Muitas empresas relataram dificuldade em repassar integralmente aumentos de custos, incluindo aqueles associados a tarifas e insumos. Para preservar participação de mercado, algumas optaram por absorver parte dos custos, resultando em margens de lucro mais apertadas.
A incerteza também levou companhias em distritos como St. Louis e Kansas City a adiar investimentos ou manter projetos em espera.
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